Autor Tópico: Lisboa Triunfante  (Lida 7745 vezes)

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Offline Fiacha

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Re: Lisboa Triunfante
« Responder #15 em: Julho 29, 2011, 03:55:29 am »
Lisboa Triunfante - Crítica no blogue Intergalacticrobot


Olhar para esta obra de David Soares é uma tarefa complexa. Misto de romance histórico com horror, destaca-se por uma profunda erudição espelhada na caracterização de Lisboa ao longo de diferentes épocas históricas e uma forte componente metafísica que reflecte sobre as dualidades que caracterizam a história humana.

Neste romance, Lisboa é o palco de uma batalha intemporal entre duas forças que apesar de opostas se complementam, uma representando a imaginação criativa com um toque trapaceiro e outra o poder da lógica e da razão que destrói para reconstruir. Estas encarnam-se nas figuras da Raposa, remetendo para O Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro e para as epopeias medievais do Roman de Rénard antecessora da obra de Aquilino, e na figura do Lagarto, eterno opositor da criatura matreira e trapaceira cuja voz melífula convence o mais empedernido dos cépticos.

As sementes da batalha são lançadas na época pré-histórica, num tempo em que os neandertais enfrentam a extinção face ao homo sapiens, e Lisboa desenvolve-se e evolui ao sabor da tensão entre as duas forças em violenta oposição. Os homens, com os seus sonhos, esforços, ânsias e crenças, são meros peões numa luta titânica que ultrapassa os limites do nosso universo. É também um combate sem fim, espelhado numa circularidade que se eterniza reflectindo a complementaridade entre as duas forças.

O poder descritivo e erudição de David Soares mergulham-nos na Lisboa de diferentes épocas em descrições vívidas que espelham com rigor histórico as vivências e o sentido espacial da cidade. É toda uma faceta de enorme valor nesta obra, assinalável pela sua profundidade que ultrapassa os limites da literatura de género a que este autor está associado.

http://intergalacticrobot.blogspot.com/2011/07/lisboa-triunfante.html
Livro a ler: O Cavalo de Outubro de Collen McCuloough 6º volume da saga 1º Homem de Roma

Offline Riona

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Re: Lisboa Triunfante
« Responder #16 em: Junho 24, 2012, 13:33:25 pm »
Começando por aquilo que menos me agradou, confesso que não me consegui ligar muito às personagens, quer fossem elas humanas, quer as próprias figuras da Raposa e do Lagarto. Ao ler no Companion sobre a temática do livro fiquei fascinada pela escolha e em expetativa, mas depois não fiquei muito “agarrada”. Tiro o chapéu à pesquisa efetuada por DS (que trabalheira monumental!), mas senti-me a dispersar um bocado. Não sei se foi por ter introduzido tantas personagens, dispersas por tantos períodos históricos, ou se por qualquer outra razão que não consigo identificar, mas faltou ali qualquer coisa que me envolvesse na sua batalha épica.

Além disso, aquilo que, para muitos, é um dos trunfos do livro, para mim afasta-o um pouco dos meus gostos: a erudição, chamemos-lhe assim, pois não sei bem se é disso que se trata. Por exemplo, houve alturas em que as citações introduzidas me tornavam impaciente por “cortarem” a leitura. Mas senti-me contrariada sobretudo ali no capítulo 3, com uma parte com extensas notas de rodapé, e as equações – detesto a sensação, durante uma leitura, de não saber do que é que o autor está a “falar”, e a opção por esses detalhes deixou-me mesmo baralhada (acho até que se me tivessem aparecido mais páginas assim,  tinha posto o livro de lado).

No entanto, de um modo geral, gostei muito da escrita de David Soares. Crua, direta, muitas vezes macabra, deselegante e até chocante, a linguagem usada é, também, muitas vezes poética e bela, recorrendo mutas vezes a vocabulário menos habitual. Adoro frases como “Avatares daninhos da lanzeirice beirã? Lastro que o faria precipitar-se na boçalidade e na bisonhice?” Fizeram-me lembrar o Eça, e adorei! E gostei particularmente do capítulo 1. É absolutamente mágica a maneira como DS criou ambientes, como deu significado, cor e alma aos rituais e às tradições pré-históricas! 

E temos ainda aquele realismo a que não se consegue ficar indiferente – muitas vezes desagradável de ler e, consequentemente de visualizar (os momentos de terror, principalmente – gosto mais do terror sugestivo, de ambiente, e não tão “gráfico”). A escrita é, assim, muito evocativa, uma escrita que desperta emoções. Mesmo sendo muitas vezes de horror e de repulsa, isso é algo que, nas minhas leituras recentes, poucas vezes tem vindo a acontecer.
Talvez o DS seja como o Saramago (algo nesta forma de escrever que me faz lembrar Saramago, talvez a forma como homenageia a “matéria –prima” já existente: a nossa história/ cultura/ a humanidade) ou, por exemplo, o Paul Auster. Um daqueles escritores que pedem uma certa dose de coragem e um determinado estado de espírito para serem verdadeiramente desfrutados, e só com tempo, e de tempos a tempos, possam ser verdadeiramente apreciados como merecem.  :D


Resumindo, neste livro os triunfos foram muitos: Lisboa, sim, marcante, intemporal e intocável. De David Soares que, louvando a Imaginação a fez também triunfar. E dos leitores, que, para o bem e para o mal, têm um verdadeiro festim à sua disposição.

O que é certo é que nunca mais olharei da mesma forma para uma raposa ou um lagarto! Na raposinha, acho que vou sempre procurar um sorriso humano. É que…bem, o meu nome é Paula, e, por isso, todo o cuidado é pouco!  ::)

Para terminar, uma pequena questão: não podiam ter escolhido outro excerto para a contracapa do livro? Não é que me considere muito puritana no que a assuntos sexuais diz respeito, mas sempre que alguém pegava no livro ficava de nariz torcido perante tão insólita descrição.
Obviamente que o excerto foi retirado de um contexto, e apreciá-lo isoladamente é algo redutor, mas é isso que, no fundo, toda a gente faz ao pegar num livro. Assim, foi-me bastante difícil convencer a malta que o que eu estava a ler não era nenhuma espécie de kama-sutra diabólico, mais ainda convencer mais alguém a lê-lo. O que, para mim, é uma pena.  :P
« Última modificação: Junho 24, 2012, 13:41:20 pm por Riona »