Autor Tópico: O Verdadeiro Dr. Fausto  (Lida 14584 vezes)

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Offline Ser Land

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Re: O Verdadeiro Dr. Fausto
« Responder #45 em: Outubro 09, 2010, 19:56:21 pm »
A "Rockets Fall In Rocket Falls" dos Godspeed You! Black Emperor não ficaria mal.

Referes-te a:

http://vimeo.com/4086942

Ainda não vi os 20 minutos todos, mas é FA-BU-LO-SO! Só podia ser canadiano :)

As coisas que se aprendem nestas inter-redes...

Isto seria apropriado para o final. Consigo imaginar uns bons cinco minutos de explosões a encerrar o que poderia ser o filme deste livro, antes de dar lugar à ficha técnica. Mas talvez em câmara lenta, ao pormenor, como fez Antonioni naquela sequência hipnótica no Zabriskie Point.

Também não me ficaria pela ópera-bufa. O capítulo em que Fausto corre Europa fora para salvar a amada (e mais não digo para não estragar o desfecho) merece uma sequência de montagem pautada pelo Love Kills dos Queen. O contraste entre música alegre e momento amargo conseguiria transmitir na perfeição o enquadramento daquele momento tão irónico e inevitável.

Este livro é realmente inspirador.

Sim. Refiro-me a essa música. E sim, os GY!BE são a melhor banda rock do mundo. Ou eram. Estão em hiato.
A reler:
           
             "The Fires of Heaven" de Robert Jordan

Offline RuiBaptista

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Re: O Verdadeiro Dr. Fausto
« Responder #46 em: Outubro 09, 2010, 19:58:56 pm »
Houve um pormenor que não cheguei a referir na crítica, o título da edição da SdE: O Verdadeiro Dr. Fausto.

Isto não levará a que se pense que os outros "Faustos" são falsos?


Offline paul_muadib

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Re: O Verdadeiro Dr. Fausto
« Responder #47 em: Outubro 09, 2010, 20:01:16 pm »
Houve um pormenor que não cheguei a referir na crítica, o título da edição da SdE: O Verdadeiro Dr. Fausto.

Isto não levará a que se pense que os outros "Faustos" são falsos?

E não são?    ;)

Ou pelo menos, considera o seguinte: se perguntasses isso a *este* Fausto, o que é que ele te responderia?  8)


Offline RuiBaptista

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Re: O Verdadeiro Dr. Fausto
« Responder #48 em: Outubro 09, 2010, 20:02:07 pm »
Houve um pormenor que não cheguei a referir na crítica, o título da edição da SdE: O Verdadeiro Dr. Fausto.

Isto não levará a que se pense que os outros "Faustos" são falsos?

E não são?    ;)

Ou pelo menos, considera o seguinte: se perguntasses isso a *este* Fausto, o que é que ele te responderia?  8)

É uma boa pergunta  :)

Offline paul_muadib

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Re: O Verdadeiro Dr. Fausto
« Responder #49 em: Outubro 09, 2010, 20:54:58 pm »
A abrir o romance, encontra-se um excerto de An Anatomy of the World: The first anniversary, do poeta inglês John Donne, suposto contemporâneo de Fausto.

And new philosophy calls all in doubt,
The element of fire is quite put out;
The sun is lost, and the earth, and no man's wit,
Can well direct him where to look for it.

Uma exortação evidente das falsidades da Ciência, que vêem impor ao Homem a nova filosofia do cepticismo e da necessidade de comprovação. Habilmente, e de forma muito subtil, é como se Swanwick sugerisse que Donne reagia às transformações impostas por Fausto, e à velocidade (voracidade?) de transformação do mundo.

O poema continua:

And freely men confess that this world's spent,
When in the planets, and the firmament
They seek so many new; then see that this
Is crumbled out again to his atomies.
'Tis all in pieces, all coherence gone;
All just supply, and all relation:
Prince, subject, Father, Son, are things forgot.

(Uma exortação cujo conservadorismo  - mau grado a comparação - teria sido abraçada pelo Estado Novo, sem dúvida...)

(Eis a totalidade do poema: http://www.poemhunter.com/poem/an-anatomy-of-the-world/ )

Swanwick escolhe a primeira estrofe e dessa forma escolhe também o tema central da obra: a perenidade da crença versus a solidez do facto.

Eis a minha leitura: ainda que queiramos acreditar na fé irredutível das massas, e que o espiritual é mais forte que o material, a verdade é que a sociedade sempre avançou de encontro ao facto, à realidade. Mesmo indo contra as respectivas crenças, a História viu o planeta abraçar os benefícios da medicina, da indústria, da tecnocracia. Não chegámos aqui por acaso, e se calhar chegámos um pouco distraídos, mas, se se poder afirmar que existe uma consciência colectiva, creio que neste acumular de escolhas e decisões se manifesta a nossa inconsciência colectiva: seguimos o caminho que mais nos beneficia, ainda que este seja contra a nossa fé.

Penso que este é um dos grandes argumentos ocultos neste romance, e que a história de Fausto é perfeita para a sua demonstração, pois nada melhor que o ritmo acelerado do progresso (vários séculos em poucas décadas) para evidenciar algo que a lentidão das eras oculta (da mesma forma que fotografias de uma paisagem montanhosa tiradas ao longo de décadas revelam que aquilo que parece imóvel e eterno é na verdade um lento mas agitado mar de pedra).

Claro que isso nos leva ao verso da medalha, que é o do progresso da ética e da moral, evidenciada pela citação seguinte à de Donne, um progresso possivelmente mais lento... mas isso fica para o próximo comentário! :P

****

Já agora (e sem pretender chamar a atenção para a pessoa do tradutor, que não é mais que mero intérprete das palavras de outrém - quem realmente as produziu é que merece o devido destaque), mostro-vos a minha triste tentativa de tradução do poema. Como já referi noutros foruns, a tradução da poesia é particularmente ingrata, em particular na poesia rimada, pois pressupõe a difícil escolha de respeitar, ou a métrica/rima ou o texto - mas raramente se consegue respeitar ambas.

No caso dos poemas deste livro preferi a rima (o que iria complicar-me a vida quando num poema mais adiante no livro é preciso rimar "prostraglandina"...).


O novo Filósofo confere à dúvida primazia
O Elemento do fogo lentamente asfixia;
Perdeu-se nesta terra o Sol, e o pobre homem sem arte
Anda a procurá-lo por toda a parte.


Ficou com um toque qb de modernismo que preferiria ter evitado. Contudo, se a alternativa poderia passar por recuperar a escrita portuguesa do século XVII, isso seria uma tradução correcta? A língua portuguesa de há 300 anos equivale à língua inglesa de há 300 anos? As línguas evoluem no mesmo ritmo e feição? Talvez agora haja um argumento de peso, com a globalização, mas nessa época?...

No fim, questões de tempo, apetência e talvez falta de melhor arte levaram-me a optar por uma adaptação aproximada.


Gostaria de conhecer as vossas versões de tradução. Alguém quer arriscar?

All bets are off! ;)

Offline paul_muadib

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Re: O Verdadeiro Dr. Fausto
« Responder #50 em: Outubro 12, 2010, 15:37:58 pm »
Claro que isso nos leva ao verso da medalha, que é o do progresso da ética e da moral, evidenciada pela citação seguinte à de Donne, um progresso possivelmente mais lento... mas isso fica para o próximo comentário! :P

A citação contrária à de Donne (contrária no meu ponto de vista) é a seguinte:

From Hell Mr Lusk

o texto de abertura de uma das poucas cartas genuinamente atribuidas ao Jack O Estripador ( http://en.wikipedia.org/wiki/From_Hell_letter ). Neste pequeno texto se pode encontrar a demência e maldade (naturais? Ou propositadamente enganadoras?) de um indivíduo, também ele fruto do modernismo (um dos primeiros serial killers da História a beneficiar do espaço urbano e dos meios de comunicação como forma de criar um mito instantâneo. Nisto, não há nada de novo; desde longa data que é sabido existirem dois meios de se alcançar fama rápida - criar algo de importante, ou destruir algo de importante).

A minha leitura é que este se torna no contraponto do romance. O VERDADEIRO DR FAUSTO conduz ao progresso, traduzido no desenvolvimento tecnológico e económico. Contudo, este precisa de ser acompanhado por uma revolução social, a nível dos valores e da (Marx dixit) luta de classes (na verdade, é mais do que isso). E o problema é que esta revolução é extremamente lenta.

O poder e liberdade conferidos pelos novos gadgets não é imediatamente apreendido pela sociedade. Basta ponderar na forma como as tecnologias sociais alteraram os padrões de relacionamento no mero espaço de dez anos - mas alteraram para quem? Essencialmente para a malta nova, levando os restantes de arrasto. Contudo, não aprendemos a viver com estes em sociedade, em desenvolver valores éticos e morais - se para uns, utilizar o telemóvel desta e daquela forma é válido, para outros é ofensivo. Isto coloca um particular desafio para os pais e professores, que não têm padrões de comportamento que possam ensinar aos miudos e assim os deixam descobrir por si mesmos, por vezes com resultados patéticos (como os casos dos vídeos recentes sobre conflitos na sala de aula).

E nós somos a geração insensível ao progresso. Imaginem o ritmo de transformação imposta por Fausto sem o acompanhamento devido da moralidade. Sem o movimento feminista ou o término da escravatura, sem a declaração de princípios do homem, sem a constituição americana. Sem que os oprimidos reclamassem para si, com esforço e conflito, um espaço legítimo de aceitação social.

Jack o Estripador remete a sua carta do Inferno. Fausto, pelo contrário, encaminha o mundo para lá.

Mas Fausto é uma criatura muito peculiar...



Offline Magnus

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Re: O Verdadeiro Dr. Fausto
« Responder #51 em: Julho 18, 2011, 20:48:35 pm »
O mito de Fausto revisitado mais uma vezes numa daquelas historias de “E se...”, que tantas vezes dão certo e outras tantas dão errado, na minha humilde opinião este caso deu certo.
Neste caso temos um Fausto aliciado não pelo Demónio, mas sim por um entidade que extra dimensional que não lhe fica atrás, mas pelo menos é honesto, bem pelo menos ao incido...
Fausto um homem sedento de conhecimento aceita o pacto, mas parece ignorar que na vida tudo tem um preço.
Segue-se a história de um homem que tenta fazer a Humanidade avançar, mas esta não está preparado para a torrente de tecnologia que Fausto quer introduzir à força, a electricidade por exemplo. E claro a tecnologia ao serviço da guerra é um dos temas centrais deste livro, e da luta que Fausto trava para que as pessoas que preferem apenas ver as capacidades bélicas do que ele tem para oferecer, e acho que já sabem quem perde. Pelo meio temos um Fausto que sucumbe a um dos mais básicos sentimentos: o Amor, mas claro o amor nunca está só...
Uma bela historia que tem um final surpreendente especialmente pela maneira como o seu autor o soube igualar à nossa própria historia recente, e quem sabe futura.

Nota positiva para o Luís Filipe Silva pela soberba tradução, sem nada a apontar.
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Offline Sonho Verde

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Re: O Verdadeiro Dr. Fausto
« Responder #52 em: Janeiro 21, 2013, 13:25:41 pm »
Este será, em princípio, o próximo livro que vou ler. Ou este ou A Canticle for Leibowicz.