Autor Tópico: Entrevista - Primeira Parte  (Lida 7320 vezes)

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Offline CrisCor

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Entrevista - Primeira Parte
« em: Setembro 15, 2008, 00:12:57 am »
Dois dos destaques da agenda de Março para os livreiros são o lançamento da edição de bolso de Belladonna de Anne Bishop, bem como o lançamento do novo livro que decorre nos Reinos dos Sangue, Tangled Webs (ainda sem título oficial em português), em que surge Surreal SaDiablo. Março marca também o décimo aniversário da publicação do primeiro romance da escritora, Filha do Sangue. Com quase uma dúzia de livros publicados em dez anos, a escritora mantém os seus fãs felizes, ao mesmo tempo que os deixa a magicar. Para minha grande felicidade, Anne aceitou dar-me uma entrevista, através de correio electrónico, que partilho agora convosco.

KP: Anne, obrigada por conversar hoje comigo. Gostaria de começar por lhe perguntar acerca das circunstâncias que a levaram a dedicar-se à escrita como carreira. Quando começou a escrever e porquê? Terá havido um catalisador específico que a levou a começar a escrever?
Anne: Comecei a aprender os conceitos básicos da criação de histórias antes de as pôr no papel. Em criança, introduzia uma personagem “Mary Sue” (ver nota) numa série de televisão de que gostasse, voltando a passar essa série na minha cabeça, mas desta vez a minha personagem era um dos heróis. Daí, comecei a escrever histórias sobre a rapariga adolescente e o seu cavalo, bem como histórias de fantasmas e de terror. (A “Quinta Dimensão” foi uma influência relevante ao mostrar-me como era dar uma volta pelo lado estranho e a verdade é que temos tendência a escrever aquilo que gostamos de ver e/ou ler.) Depois de terminar o liceu, deixei de escrever até aos 30 anos. Foi então que a Musa bateu à porta e eu abri-a. Nunca mais a voltei a fechar.

KP: Existe uma forte componente mitológica nos livros dos Sangue e, em menor escala, em Efémera. Na sua infância sentiu algum interesse em particular pelos mitos?
Anne: Creio que não separava as histórias por categorias durante a minha infância. Haveria alguma diferença entre Jasão e os Argonautas e O Cavalo Preto? Ou entre aprender a mitologia grega e romana e absorver a informação de que existe um pote de ouro no final do arco-íris? Perguntar-me quando desenvolvi algum interesse pelos mitos é o mesmo que me perguntar quando comecei a gostar de cães. A minha resposta terá de ser: “Terá havido algum momento em que isso não aconteceu?”

KP: Consegue viver da escrita ou conta com outra fonte de rendimento?
Anne: Hoje em dia, consigo viver da minha escrita, embora ainda trabalhe em part-time como revisora pois gosto dos meus colegas e do trabalho. A mudança mais significativa nos últimos anos foi reduzir para o regime de part-time no trabalho diurno, o que me deixa mais tempo para escrever.  

KP: O que está a ler neste momento, por lazer e/ou para pesquisa?
Anne: Recentemente, mergulhei em J.D. Robb, Patricia Briggs e Charlaine Harris. Também estou a folhear o trabalho de Donna Andrews, Kat Richardson e Carrie Vaughn. Quanto ao trabalho de pesquisa, caso precise de saber algo em concreto — se X acontecer a Y — faço consultas ou pergunto a alguém que trabalhe na área. A maior parte das vezes, a minha ideia de pesquisa consiste em simplesmente prestar atenção e tomar notas de paisagens, sons, imagens ou elementos tangíveis que piscam no radar da Musa como tendo potencialidades. Dou um exemplo: Numa série da PBS sobre a Natureza, um polvo deslizava por um tubo com um diâmetro reduzido para passar de um tanque para outro. Essa imagística ajudou-me a criar o Devorador do Mundo nos livros da série Efémera.  

KP: Creio que muitos dos seus leitores gostariam de ficar a conhecer um pouco do processo de escrita e como funciona para a Anne. A escrita corre sempre de forma tranquila ou existem aspectos particulares do processo que acha mais difíceis do que outros?
Anne: Os rascunhos são como juntar um puzzle que tem como guia um esboço rude a lápis do desenho acabado; algumas peças a cores representam as cenas e as informações que já tenho presentes e outras peças ainda estão em branco, correspondendo a todos os fragmentos que ainda desconheço. Penso nas personagens e no lugar, no motivo que levou à história (o que está a acontecer ou prestes a acontecer a essas pessoas), na(s) cultura(s) e no mundo. Junto peças que funcionam ou que não funcionam. Acrescento ou abandono ideias sobre o funcionamento desse mundo. De seguida, chega o momento em que oiço o “clique” interno e o mundo e as pessoas estão definidos. Tenho o “quem” e o “onde”. Quando tenho presente tanto quanto sou capaz, continuam a existir grandes lacunas e espaços em branco, embora não possam ser preenchidos até iniciar a viagem com essas personagens. Tomo conhecimento da história à medida que a escrevo. Sei qual é o destino, mas existem várias formas de lá chegar e é isso que vou descobrindo enquanto vou escrevendo.
O primeiro rascunho serve para capturar a acção e a emoção. No segundo rascunho, tento preencher os detalhes e registar a cena que visualizo na minha cabeça. Para mim, o rascunho mais difícil é o das Revisões do Editor pois é aí que tento limar as arestas em bruto que restam ou os momentos em que os detalhes não chegaram à página.

KP: Impõe-se algum horário ou número de palavras ao escrever?
Anne: Por semana, escrevo quatro dias. Na fase de rascunho, o objectivo é chegar às 6.000 palavras por semana. Por altura do segundo rascunho ou das revisões, dedico 20 horas à escrita. É o tempo suficiente para trabalhar bem e dá-me tempo para ponderar naquilo que precisa de ser alvo de ponderação.

KP: Alguma vez encontra dificuldades em avançar numa história e, se isso acontece, qual é a sua técnica preferida para ultrapassar essa questão?
Anne: Existem vários motivos para que uma história me provoque um bloqueio: cansaço físico ou mental, sobrecarga de trabalho, algo que esteja a absorver a energia criativa, uma mudança para o modo de arquivar do lado esquerdo do cérebro ou a ausência de uma peça do puzzle na história e não consigo avançar até descobrir essa peça. O cansaço resolve-se dormindo mais horas ou passar um serão sem fazer nada. A sobrecarga de trabalho resolve-se com um período de calma. Se outros géneros de narração de histórias (quer leitura quer filmes) estiverem a absorver energia em vez de alimentar o poço criativo, evito essas actividades durante alguns dias. Uma vez que o Lado Esquerdo do Cérebro normalmente acorda quando o lado criativo está cansado, há dias em que é melhor desligar o computador e ocupar as mãos. E as peças dos puzzles resolvem-se com “devaneios”. O que quer dizer que me limito a olhar para a página, pensando nas personagens ou na história, no que está a acontecer ou no que tem de acontecer e como as personagens poderão chegar do ponto A ao ponto B.

KP: Costuma dar consigo com vontade de escrever fora do género fantástico ou este género representa um lar acolhedor?
Anne: Há alguns anos, escrevi uma história para a colecção de livros Mossy Creek. Adoro essa colecção, por isso foi muito divertido escrever uma história na área de outros. (Para aqueles que se estão a perguntar, é a história “Laurie and Tweedle Dee”.) No entanto, aprecio a magia e o encantamento do género fantástico. Para mim, é uma paisagem com uma tremenda abrangência e não existe história alguma que não possa ser escrita no âmbito dessas fronteiras. Histórias de amor, mistério, romance policial — misturadas com a imagística tradicional do género. Muito mais do que um lar acolhedor, a fantasia é onde a minha criatividade em particular se encaixa com mais naturalidade.

KP: Viaja muito para promover o seu trabalho? Acha que as viagens são estimulantes ou são um processo cansativo? E acha que as viagens a inspiram ou que interferem no processo de escrita?
Anne: A minha Musa funciona melhor nos limites da rotina, por isso não viajo muito. Estar num sítio diferente e visitá-lo com outras pessoas é divertido e estimulante. A viagem, por si só, é cansativa e requer, habitualmente, algum tempo de recuperação.

Nota:
Personagem “Mary Sue”
Termo para descrever uma personagem que não tem defeitos aparentes e que é descrita como imensamente bela, imensamente amável e assim por diante. É a rapariga “perfeita”…

Offline CrisCor

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #1 em: Setembro 15, 2008, 00:18:00 am »
A um mês da edição de Sebastian, não deixem de ler a primeira parte desta entrevista; a segunda parte será colocada daqui a duas semanas. A tradução é da minha autoria.

A entrevista foi dada a Kent Pollard a 14 de Março de 2008 e podem ler o original aqui:

http://www.mcnallyrobinson.com/editorial-711/Interview---Anne-Bishop

Offline Alforat

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #2 em: Setembro 15, 2008, 11:13:24 am »
Gostei muito de ler esta entrevista, e obrigada pela tradução CrisCor! A senhora prefere a sua rotina, mas acho que a SdE a devia convencer a  vir cá conhecer os fãs Lusos! É apenas uma opinião...  :roll:

Offline canochinha

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #3 em: Setembro 15, 2008, 11:16:58 am »
Gostei da entrevista! CrisCor, obrigado  :wink:

Offline CrisCor

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #4 em: Setembro 15, 2008, 11:24:36 am »
Ainda bem que gostaram. A segunda parte é mais centrada nas obras. Aguardem!

Offline Queen_of_the_Darkness

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #5 em: Setembro 15, 2008, 11:52:00 am »
Adorei CrisCor!  :D Obrigada!

Agora que venha o Sebastian!  :D

Offline CrisCor

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #6 em: Setembro 15, 2008, 11:55:48 am »
Citação de: "Queen_of_the_Darkness"

Agora que venha o Sebastian!  :D


Até lá ainda têm de penar um bocado...  :lol:
Mas vou tentar manter-vos ocupados: a 2ª parte da entrevista e o Passatempo...

Offline Queen_of_the_Darkness

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #7 em: Setembro 15, 2008, 11:57:41 am »
Citação de: "CrisCor"

Até lá ainda têm de penar um bocado...  :lol:
Mas vou tentar manter-vos ocupados: a 2ª parte da entrevista e o Passatempo...


Pois é... Mas já não falta assim tanto  :)

Eu gosto quando nos maténs ocupados hehe =P

Offline Fiacha

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #8 em: Setembro 15, 2008, 12:40:27 pm »
Citação de: "Queen_of_the_Darkness"

Eu gosto quando nos maténs ocupados hehe =P


Subscrevo.

Obrigado CrisCor :wink:
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Offline CrisCor

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #9 em: Setembro 15, 2008, 12:48:55 pm »
Citação de: "Fiacha"
Subscrevo.

Obrigado CrisCor :wink:


Oh, Fiacha. só isto? Parecias tão entusiasmado quando falámos da entrevista pela primeira vez... E mais? Andas um bocado desaparecido...

Offline Fiacha

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #10 em: Setembro 15, 2008, 13:01:36 pm »
CrisCor,

Fiquei muito contente com a publicação da entrevista e gostei muito.

Bem que gostava que a Bishop fosse mais amiga de viajar, mas mantenho a esperança que um dia ainda tenhamos a sorte de ser comtemplados com uma visita a Portugal da escritora (afinal não é uma viagem muito cansativa).

Tenho plena consciência que te deste ao trabalho de efectuar a tradução desta entrevista para muitos como eu que não sabemos Inglês e fico-te muito agradecido por isso (algo que acho que já sabes).

Quanto ao andar desaparecido tem mais a ver com ter muito trabalho, pois como trabalho numa escola o "arranque" dum ano lectivo é sempre complicado, pelo menos no meu serviço e se reparares bem foi só antes de ontem (sábado) que dei um pequeno contributo neste caso no Martin.


Mas atenção, tento manter-me actualizado e faço os possiveis para ler toda a informação, só não estou é com muito tempo para participar.

As expectativas estão altas, aguardo ansiosamente pelo mês de Outubro, pois quero conheçer o "novo mundo" da Bishop e claro com imensa curiosidade de ler a 2ª parte da entrevista :wink:
Livro a ler: O Cavalo de Outubro de Collen McCuloough 6º volume da saga 1º Homem de Roma

Offline CrisCor

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« Responder #11 em: Setembro 15, 2008, 15:12:31 pm »
Fiacha, não há fome que não dê em fartura... Queixei-me e tu respondeste! Que bom. Então está explicada a tua ausência. Estava a estranhar a tua "fraca" participação em todo o fórum, e tens andado muito contido. Mas calculo a loucura (a minha filha mais velha recomeçou hoje) e o trabalho que deve ser.

Ainda bem que continuas a seguir o que aqui se vai passando, ao menos vais distraindo. E quando sair o Sebastian já vais estar com mais tempo, digo eu.  :wink:

Offline blackjewel

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #12 em: Setembro 15, 2008, 16:08:27 pm »
CrisCor
obrigada pela traduçao.

A Ler:O Italiano (Vol.I),de Ann Redcliffe
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Offline CrisCor

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #13 em: Setembro 15, 2008, 16:10:27 pm »
Sempre às ordens, blackjewel!

Offline Fiacha

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Entrevista - Primeira Parte
« Responder #14 em: Setembro 15, 2008, 17:27:51 pm »
Citação de: "CrisCor"
Fiacha, não há fome que não dê em fartura... Queixei-me e tu respondeste! Que bom. Então está explicada a tua ausência. Estava a estranhar a tua "fraca" participação em todo o fórum, e tens andado muito contido. Mas calculo a loucura (a minha filha mais velha recomeçou hoje) e o trabalho que deve ser.


Para responder, seja a quem for arranja-se sempre tempo, em especial no teu caso que estás sempre disponivel.

Ainda bem que compreendes e lembra-te que por vezes podemos optar por efectuar poucos mas bons (ou pelo menos tentar).

Um bom ano para a tua pequenota e claro para todos os estudantes.

Citação de: "CrisCor"
Ainda bem que continuas a seguir o que aqui se vai passando, ao menos vais distraindo. E quando sair o Sebastian já vais estar com mais tempo, digo eu.  :wink:


Curioso que para ler tenho tempo, seja no autocarro seja em casa isso não me falta (ainda bem), agora poderei é estar com menos trabalho nessa altura.

Um pequeno off topicc (espero que me desculpes hehe) vais marcar presença no forum fantastico 2008 ?
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