Autor Tópico: A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião  (Lida 10071 vezes)

0 Membros e 1 Visitante estão a ver este tópico.

Offline Thanatos

  • Leitor compulsivo
  • ****
  • Mensagens: 703
    • Ver Perfil
    • http://www.bbde.org
A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« em: Abril 21, 2008, 10:58:41 am »
A seguinte opinião foi "publicada" pela primeira vez noutro fórum. Aqui surge numa forma ligeiramente revista. Aviso que ao longo dela apresento pontos de vista contundentes sobre alguns dos contos. De outra forma não seria a minha opinião mas antes um panfleto de marketing.

O panorama nacional no que concerne às antologias já desde 2006 que era assinalado por um livro da iniciativa de Luís Corte Real, editor da Saída de Emergência, onde o mesmo pretendia dar seguimento à sua declarada paixão pela obra de Lovecraft. Corte Real reuniu um conjunto de escritores, entre amadores e profissionais e com alguns outros na fronteira do profissionalismo, e propôs-lhes que, inspirando-se nos mitos lovecraftianos e na cidade de Lisboa, escrevessem contos que se deveriam encadear duma forma cronológica.

E é precisamente por esta necessidade do encadeamento cronológico que a antologia A Sombra sobre Lisboa deixa de ser uma obra ímpar no panorama nacional para passar a ser uma experiência semi-falhada. Dizem os especialistas em comunicação que as primeiras impressões causadas logo nos primeiros minutos são primordiais na comunicação entre duas entidades. Assim sendo a antologia falha redondamente ao abrir com dois textos de nível bastante amador e com poucos argumentos que sugiram a qualidade que mais adiante se poderá encontrar na antologia.

O Primogénito de Rogério Ribeiro situa-se na Foz do Tejo em 1200 a.C, altura da ocupação fenícia da península. Abre com uma cena de cariz cinematográfico com a intenção de causar o suspense e criar o necessário ambiente de época mas tudo é descrito em termos narrativos mais próximos dos argumentos dos comics do que propriamente da prosa pulpesca de Lovecraft.

A mistura de deuses de panteões mitológicos das mais variadas culturas preocupados com o surgimento duma entidade possivelmente mais poderosa que eles poderia ter resultado interessante não fosse o diálogo entre eles ser vergonhosamente amadoresco sendo o golpe de misercórdia a “apresentação” inacreditável de Nyarlathotep: “ Muito prazer, deus nórdico e humano fenício. Apresento-me: Nyarlathotep, o Caos Rastejante, Arauto dos Deuses Exteriores, servo do mui reverenciado Azatoth, o Barão Demoníaco…” Perante trechos deste teor do qual o transcrito é apenas um exemplo tirei duas conclusões: 1.ª) o tom jocoso e leve contrasta altamente com as secções mais pomposas e melodramáticas do conto dando uma sensação de gravitas que lembra os piores momentos das bandas Death Power Metal e afastando por completo a ambiência dos contos de Lovecraft e Derleth; 2.ª) Nyarlathotep poderá sempre seguir uma carreira como apresentador de TV ou Mestre de Cerimónias. Aliás não ficaria nada mal na apresentação dos Óscar dum destes anos vindouros. Já vi horrores piores.

Com este começo nada auspicioso seguimos para o conto de Safaa Dib, Vale de Sombras. A acção decorre na época de Roderico pouco tempo antes da invasão de Lisboa pelos muçulmanos. No meio das manipulações políticas e teias de intrigas e espiões que viviam então na cidade, chega o monge Júlio de Bobbio, amigo de longa data de Leandro de Emérita, antigo companheiro da Ordem de Júlio, chamado a intervir no que se pensa ser uma sucessão de casos de possessão e que se revelam mais tarde serem os inícios dum outro tipo de invasão.

Enunciar aqui tudo o que está mal neste conto ocuparia demasiado espaço portanto farei uma súmula: o encadeamento temporal é, no mínimo, confuso dando a ideia que a autora escrevia aos sacolejos e ao sabor das ideias. O problema é que o leitor às tantas já se perdeu no emaranhado de voltas e reviravoltas. Não há nada de mal com a escrita não linear mas a verdade é que aquilo que resulta extremamente bem no meio visual é muito difícil de transpor para a escrita e essa transposição necessita de mão segura e treinada que, evidentemente, não é o caso da Safaa. Outro problema é que a autora parece não dominar as personagens e descreve-as numa perspectiva de constante descoberta, como se ela própria as fosse criando ao sabor da narrativa. Um exemplo extremo surge na secção da ceia entre o padre Ambrósio, Leandro e Júlio. Ambrósio relata um acontecimento anterior a Júlio e Leandro, conhecedor desse mesmo evento, vai-o ajudando na narrativa. No final da narração Leandro assume a atitude de alguém extremamente enfurecido com a postura do padre acerca do evento. Ora basta parar para pensar que se Leandro já tinha conhecimento prévio da situação aquela súbita fúria é completamente descabida. E isto é só um dos muitos exemplos de falta de contenção e perspectiva narrativa e estrutural da autora. Outros pequenos aspectos são o uso e abuso dos pronomes, seu, sua, seus, suas, derivativos da forma inglesa que na língua portuguesa são na maior parte dos casos totalmente desnecessários, o facto do conto de lovecraftiana ter pouco ou nada passando a ideia de que foi ligeiramente manipulado para encaixar na antologia e fazer número. Mesmo o facto de se passar na capital portuguesa durante o reinado visigótico é quase por completo desaproveitado, sendo que a geografia do local é confusa e ineptamente relatada, além de eu não perceber a opção por a chamar de Olissipo quando na altura a cidade era amplamente conhecida como Ulishbona.

Os diálogos são ainda e sempre o calcanhar de Aquiles dos escritores portugueses e nesta noveleta voltamos a estar perante o mesmo problema. Um pouco menos de grandiloquência nos enunciados faria maravilhas pela congruência do texto.

No final fica-se com a ideia de que este seria um conto com pernas para andar se fosse mais trabalhado e pensado, até porque no meio do amadorismo compreensível numa autora que dá os primeiros passos pressente-se uma capacidade para recriar ambientes históricos e estabelecer personagens com história e vida anterior que são uma das mais-valias do texto. Apesar disso tanto este como o conto do Rogério que abre a antologia são desnecessários no contexto cronológico e embora não sendo os únicos maus textos fazem má figura junto de outros bem mais elaborados. E um deles vem logo a seguir.

Luís Filipe Silva é o primeiro autor profissional a surgir no encadeamento cronológico da antologia. Na minha opinião a mesma só teria a ganhar em ter aberto com a noveleta Aquele que Repousa na Eternidade. Não só é Luís F. Silva um autor já de créditos firmados como este é o seu primeiro trabalho de maior fôlego em muitos anos, o que só por si seria motivo mais que suficiente para não o  ter encaixado entre dois contos medíocres, como além disso a noveleta com que nos presenteia é um exemplo da qualidade que seria de esperar dum livro que se apresenta tão ambicioso no panorama português.

Silva domina na quase perfeição um estilo muito próprio de contar histórias complementado por algo de verdadeiramente importante para contar. No fundo Silva entende que a escrita do género é acima de tudo um repositório de ideias e sem nada de interesse para contar o escritor está condenado a olhar para o umbigo, ruminando frases e lambendo parágrafos que não levam a lado algum. É até penoso para mim opinar sobre a noveleta num espaço tão reduzido tendo em conta a riqueza de ideias que emerge dela. Sem dúvida que está aqui material a clamar por algo mais extenso.

A noveleta abre com uma citação de Lovecraft que é a chave para a descodificação do texto. De facto vamos estar na presença de sonhos dentro de sonhos e como uma cebola que se vai descascando o leitor vai-se apercebendo de que os acontecimentos convergem vertiginosamente para um ponto fulcral que poderá representar a vinda definitiva dos Anciões para o nosso planeta. A noveleta leva-nos desde a viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães até aos campos de Mons, na Bélgica durante a I Grande Guerra. Com uma tela de mais de 400 anos, Luís Silva entremeia a história com personagens reais e fictícias num entrosamento perfeito entre factos e ficção.

A dramatis personae é impressionante: Fernão de Magalhães e as tripulações das naus Trinidad, San Antonio, Concepción, Victoria, e  Santiago, incluindo o escravo Henrique que desempenhou um valioso papel de intérprete durante as viagens e que por si só mereceria uma novela; a eles junta-se o próprio Howard Phillips Lovecraft e Arthur Machen e mesmo no final temos o aparecimento indirecto de Luís Vaz de Camões em que se alude à possibilidade dos Lusíadas mais não serem que a narração ficcionada do despertar de Chtulhu.

Como linha que une as diversas tramas temos o mal afamado Necronomicon que mais não é que o dispositivo de criação do portal para a chegada dos Anciões. É talvez este o único ponto fraco de toda a noveleta dado que nunca fica muito claro o papel do livro nem chega a perceber-se o destino das várias cópias que podem ou não ser o mesmo livro em vários estados.

Além disso a inversão no terço final da noveleta duma história até então firmemente cravada no território do oculto e sobrenatural para a possibilidade de estarmos perante viagens temporais de gosto marcadamente sci-fi poderá prejudicar um pouco a coesão narrativa. É nesta secção e nas que a precedem até ao clímax que mais se nota a necessidade de à noveleta ser permitido mais espaço para respirar. Duma assentada introduz-se toda uma nova perspectiva, quer sobre uma personagem que pensava eu já não ter segredos bem como uma outra nova que pode ou não ser a encarnação dum viajante temporal. Há por aqui uma certa falta de coordenação no material tornando-se confuso para o leitor entender o atar das pontas soltas narrativas. Apesar de tudo Luís F. Silva é um escritor marcadamente racionalista e que se movimenta com extremo à vontade nos terrenos da ficção científica pelo que não é de todo surpreendente a subversão aos temas lovecraftianos e a sua exploração numa vertente de FC.

A escrita de Luís F. Silva é duma fluidez surpreendente e por uma vez estamos perante um escritor com um sentido de diálogo em que as toadas deslizam sinceras e honestas da boca das personagens sem aquele tom teatral tão do agrado da maioria dos nossos escritores. A juntar a isso é também extraordinariamente eficaz na criação dos climas e ambiências propícios a cada época retratada e nalgumas das passagens a bordo das naus de Fernão de Magalhães quase senti o cheiro da maresia e o gosto do sal tal a veracidade e verosimilhança da escrita.

Como atrás referi se a antologia abrisse com esta noveleta estaria alguns degraus acima na escada da excelência e se fosse possível tê-la encadeado com os contos de João Seixas e, em certa medida, João Ventura que no seu conjunto formam um tríptico alucinante dedicado à alma lusitana e à cidade de Lisboa mais concretamente, bem como uma delirante homenagem aos temas prevalecentes na obra de Lovecraft estaríamos perante uma obra ímpar no género português.

Infelizmente logo a seguir ao fantástico banquete oferecido pelo Luís Filipe Silva temos uma sobremesa estragada na forma de Um Dia no Cárcere de João Henrique Pinto que, avaliando pela mini-biografia existente no final do livro foi já vencedor dum 1.º prémio de escrita criativa. Atrevo-me a dizer que a obra proposta a concurso não foi decerto esta que aqui se lê.

Martim está nas masmorras na véspera do auto-da-fé e recorda-se do avô que lhe contava estranhas histórias de outros tempos que vivera, no futuro e no passado distante. E para que não tenhamos dúvidas de que do futuro se trata temos até o avô a relatar-lhe os acontecimentos do ano 250012 d.C. A mim espanta-me sempre que neste tipo de contos e com a profusão de calendários que já houve no passado da cultura ocidental daqui a 250 mil anos ainda se use o bom velho sistema de numeração inaugurado pelo abade romano Dionysius Exiguus mas isto talvez seja uma picuinhice. O que já não é picuinhice é que João Pinto tem a subtileza do proverbial elefante na loja de porcelana. Compreendo perfeitamente que a Inquisição tivesse sido uma das páginas mais negras da religião cristão e também não morro de amores pelo clero mas a forma rude e oratória como Pinto expõe as ideias está ao nível do ateísmo mais primário expresso com a mesma eloquência do adolescente borbulhento que tenta convencer a colega de turma a ir lá a casa “para ver um filme.” Talvez não fosse má ideia ele ter procurado inspiração nos escritos do grande Voltaire. Quem sabe percebesse que muita vez uma farpa bem colocada provoca mais estragos que um martelo.

Torna-se cansativo ler passagem atrás de passagem a chamar de papões e monstros aos padres e complementar com uma secção em que se desculpabiliza os crimes nazis. Afinal de contas Hitler tem desculpa, apenas tentava impor a sua visão da Grande Raça, foi é por maus caminhos. Mas tudo acabou bem porque o avô do Martim até o matou no bunker. O controlo de João Pinto sobre o seu material é tal que no mesmo parágrafo Eva Braun passa de amante a esposa.

Assim e de cena expositória em cena expositória, no pior estilo de despejar informação vamos percebendo o quão importantes são todos os membros da família de Martim. Tão importantes até que todos os homens da família com mais de vinte anos foram já executados sob acusações de heresia. Que a família tenha resistido é prova ou de que os homens concebem cedo ou que as mulheres eram emancipadas e não se deixaram absorver pelos sobrenomes daqueles com quem casaram.

Claro está que o conto termina à boa moda dos contos de terror de há duas décadas atrás com o inevitável twist em que é dado a entender que a baixa pombalina conterá na sua traça a marca dos aliados da Grande Raça.

A perspectiva de Pinto em tornar os “monstros” os bons da fita seria até interessante, embora não original. Muito antes dele e até de David Soares já Clive Barker propunha uma outra visão sobre os arquétipos dos monstros literários, visão essa enformada da ideia de que seriam os perseguidos e as vítimas duma sociedade que não os aceita nem compreende, sendo um dos expoentes a noveleta Cabal. Tal facto não significa necessariamente que a mesma abordagem não possa e deva ser tentada por mais escritores. Mas como se costuma dizer, o Diabo está nos detalhes e, francamente, detalhes é o que mais falta neste conto. A prosa é sensaborona, cheia de lugares-comuns, as personagens são tratadas com a profundidade duma folha de papel e momentos há em que o diálogo é tão mau e caricatural que nem como uma má paródia anti-clero daquelas que costumavam passar no Parque Mayer seria desculpável. Com a subtileza dum José Vilhena nas piores épocas do Gaiola Aberta, João Pinto vai desenrolando o estendal do ateísta em modo religioso-terrorista tornando o conto descaracterizado, banal, vulgar, previsível, medíocre e pior do que tudo isso, duma indispensibilidade inútil. Valha-nos o Grande Cthulhu que logo a seguir vem David Soares repor a qualidade perdida momentaneamente e escrevo isto sem a menor das ironias.

De conto em conto Soares, que tem vindo a surgir regularmente nos escaparates nacionais, foi-me surpreendendo agradavelmente. Longe parecem estar os maus delírios de Os Ossos do Arco-Íris e com O Elefante e o Cavalo, Soares cria um clima oprimente como eu já não sentia desde a leitura de Song of Kali de Dan Simmons, só para estabelecer o paralelo com a temática e ambiência indiana.

Sente-se que na prosa de Soares há pesquisa e interesse pelos temas tratados e mesmo que ainda não refreie totalmente os impulsos para “despejar” informação enciclopédica vai conseguindo estabelecer um rapport comigo enquanto leitor pelo simples expediente de descrever as situações, locais e protagonistas/antagonistas duma forma vívida e fascinante. Neste conto temos a presença de Manuel da Maia que na Índia se sujeita voluntariamente a um bizarro ritual que é descrito em todo o seu escatológico pormenor.

Orabona é um derviche e o seu mestre iniciático dando-lhe a conhecer a voz do Removedor de Obstáculos, que obviamente não é outro senão um dos omnipresentes anciões de Lovecraft que eternamente preparam o caminho para o regresso da sua raça à Terra. Como arquitecto que é Manuel procura incessantemente e tenta em vão reconstruir R’Lyeh e com a chegada a Lisboa de Orabona que lhe fala do livro Al Azif, apenas mais um dos nomes para o maligno Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred, essa busca parece na iminência de terminar mas para tal é necessário preparar a vinda de Cthulhu e fazer de Lisboa tabula rasa. Corre o ano de 1755.

Soares consegue na cena penúltima onde se menciona o elefante e o cavalo numa conhecida estátua lisboeta provocar um arrepio agradável, já que momentos depois essa mesma simbologia é magistralmente entrelaçada com os mitos lovecraftianos duma forma tão indelével e num dénouement tão perfeito e duma beleza tão rara que se diria que vivemos num pesadelo em que o real imita a ficção e vice-versa. Este é o grande dom de Soares, este é o grande prazer que se retira deste conto. Um dos momentos máximos da antologia.

Com As Sombras sobre Lisboa João Seixas estabelece uma espécie de ponte temática com a noveleta de Luís Filipe Silva e de David Soares ao voltar a colocar no centro nevrálgico do enredo a presença do Necronomicon em terras lusas. O início não é muito auspicioso, “Chuva copiosa, ventos furibundos, relâmpagos que rasgam a noite (…)” seguindo-se uma secção em que Francisco Perry se vê, aparentemente, traído por Martine, a esposa.

A noveleta após este pequeno intróito abre-se como uma flor desabrochando, dando-nos um magnífico retrato das afectações dandy dum jovem Eça de Queiroz, seguido de perto pelo fiel amigo Antero de Quental. Numa prosa magnificamente bem estruturada e pesquisada, Seixas vai adensando o mistério das mortes macabras que lançaram vários corpos no lodo das margens do Tejo e das motivações do Comissário Wadington que a pouco e pouco de personagem secundária vai adquirindo os contornos de antagonista, para finalmente tudo se resolver num clímax literalmente a ferro-e-fogo entre o couraçado norte-americano Miantonomah e Cthulhu, que finalmente desperta apenas para sucumbir a uma terceira agência que permanecerá incógnita. Os planos da emergência dos anciões mais uma vez ficam adiados.

Se acima referi que a prosa de Seixas é dum admirável fulgor deverei aqui abrir um parênteses e referir que por vezes um certo recuo no uso e abuso de referenciais não seria de todo prejudicial ao conjunto. Um pequeno exemplo surge logo na página 209: “O quadro desenhado à luz dos relâmpagos é digno de Doré. É absurdo, irreal, próprio das elucubrações byronianas ou dos pesadelos românticos de Baudelaire ou Põe.” No seu extremo invoca-me à memória as passagens mais enjoativamente enciclopédicas do ciclo barroco de Stephenson. Antes ainda de fechar o parênteses refiro numa nota muito pessoal que as secções finais em que Eça se torna um homem de “acção” puxaram, no meu entender, um pouco demais a credibilidade, mas no fundo talvez com o devido estímulo todos nós sejamos capazes de heroísmos e note-se que a ideia que eu faço de Eça poderá até, em última análise, ser incorrecta e estar longe da realidade do homem que ele foi.

Com esta noveleta impecavelmente pesquisada, narrativamente viva e lúcida e estilisticamente bem conseguida, Seixas tem a terceira melhor entrada da antologia.

Segue-se um veterano das lides da escrita que colocado aqui lado a lado com o semi-profissionalismo de Seixas fica a perder. A Dama do Espelho Negro de António de Macedo simplesmente empalidece perante o fulgor do texto de Seixas e mais ainda já que ambas retratam uma época bem próxima da nossa história.

Como já por outras ocasiões referi Macedo escreve inegavelmente bem no entanto a estrutura dos seus textos é uma questão de gosto adquirido e sinceramente esse gosto nunca cheguei a ter. Em termos de criação de ambiente e ouvido para o diálogo Macedo está na posse das ferramentas certas. O meu problema é que vez atrás de vez os seus protagonistas são membros da alta sociedade e por mais que eu queira não consigo deixar de sentir um leve cheiro a mofo emanando daquelas descrições de salões e bailes e horas de chá e dos membros da nobreza e aristocracia com tiques de altivez. No entanto, diga-se em abono da verdade que neste conto, Macedo consegue construir uma protagonista credível e que até me mereceu alguma simpatia.

A baronesa Camila D’Ayres descobre acidentalmente que é a herdeira dum terrível segredo passado em código, muito ao gosto maçónico, para si através dum espelho onde lhe surge a figura da avó. De peripécia em peripécia Camila, co-adjuvada pelo amante major Gustavo de Sotto e Abreu lá descobre que o seu passado era uma manta de mentiras e encobrimentos.

No momento mais mal conseguido do conto Camila e Gustavo são transportados às dez da noite duma viela por detrás da rua da Alcaçaria em plena Alfama para uma sinagoga onde entre tétricos cânticos de invocação, esferas de cristal, pergaminhos e monstros, cenário esse que de imediato relembra o filme Os Abismos da Meia-noite, dá-se o clímax de desfecho feliz após o que retornam novamente a Alfama vá-se lá perceber porque artes e como é hábito na prosa de Macedo ambos os protagonistas, cinco minutos após terem enfrentado demónios-dragões e pervertido os planos de dominação de Cthulhu, estão a discutir a ceia de Natal e as virtudes do pudim de laranja e fatias da China da D. Engrácia. Noblesse oblige.

Rhys Hughes é o único autor estrangeiro presente na antologia e curiosamente não se destaca pela positiva em relação a nomes como Luís F. Silva, João Seixas ou João Barreiros. E escrevo curiosamente porque geralmente e talvez por força das imposições do mercado anglo-saxónico, muito mais concorrencial que o nosso, os autores internacionais quando colocados lado a lado com autores nacionais eclipsam-nos com a força duma efeméride solar. Talvez porque não sejam os temas lovecraftianos do seu inteiro agrado, talvez por qualquer outra razão a verdade é que Arroz de Abominação, para além de revelar logo no título o desfecho é um conto morno e by the numbers e apenas aqui e acolá, como no caso das embaixadas secretas a funcionarem dentro das embaixadas secretas inimigas, se tem um vislumbre da capacidade satírica e mordaz de Rhys Hughes.

A trama desenrola-se em plena II Guerra Mundial quando Lisboa era o centro das actividades de espionagem e contra-espionagem dos Aliados e do Eixo. Harris é um velho professor de Oxford que a convite de um antigo aluno acede visitar Portugal para descodificar um estranho manuscrito forrado a pele de camelo que o leitor mais astuto já percebeu não ser outro senão o Necronomicom que insiste em reaparecer na capital lusa. Harris ao perceber que terá de entrar numa corrida contra-relógio com os criptógrafos e linguistas alemães pela descodificação do texto empenha-se de alma e coração na tarefa, enquanto ao seu redor várias bizarras circunstâncias se vão desenvolvendo.

Rhys mostra-nos uma Lisboa vista pelos olhos dum estrangeiro, com o seu misto de rusticidade e urbanidade, com o peso da história vergando-a eternamente e com as suas gentes entre o acolhedor, o festivo e o sorumbático. É uma perspectiva fresca embora em certa medida toldada pelo cariz tonal demasiado “postal ilustrado” que se pressente na voz narrativa. Além disso as pistas para o desfecho são em demasia incorrendo-se assim no risco de o leitor poder estar mais interessado em confrontar a sua ideia do que está realmente a acontecer do que a desfrutar do prazer da leitura. Ainda assim e não sendo dos melhores contos do livro está a quilómetros do amadorismo já atrás referido e que, infelizmente, ainda adiante se encontrará.

José Manuel Lopes é professor universitário e responsável pela coordenação da tradução da obra de Lovecraft cujo primeiro volume já foi publicado pela Saída de Emergência em 2005. Com estas credenciais seria de esperar que As Confissões de Walter Reis fossem um momento alto na antologia, mais que não fosse pelo conhecimento íntimo da prosa de Lovecraft. Infelizmente nada disso sucede e mais uma vez sou confrontado com um texto de nível amador cuja raiz parece estar mais perto da trama de A Metamorfose de Kafka à mistura com O Inquilino de Polanski do que propriamente da mitologia lovecraftiana.

Walter Reis, cujos pais estão cometidos num hospício sem qualquer possibilidade de contacto, regressa à casa em Lisboa onde quase de imediato vê a sua solidão ser invadida pela presença de duas estranhas mulheres que à guisa de ajudarem na lida da casa o vão orientando nos passos duma bizarra transformação. O leitor menos ingénuo já descortinou por esta altura o teor dessa transformação e qual o previsível desfecho de toda a situação. De facto a mão de Lopes não consegue em vez alguma esconder o aparente tédio que terá sentido e que se revela na construção do enredo feito duma forma linear e quase em diálogo com o leitor como que a querer despachar o assunto duma assentada. Fica assim cumprido o plano cronológico com mais uma entrada perfeitamente descartável.

O texto de Fernando Ribeiro, Mastodon, é mais um daqueles momentos “que raios é isto?” Por mais que me esforce em criar uma súmula aproveitável a verdade é que o texto resiste a qualquer tipo de aproximação e interpretação. Talvez tenha, algures, feito sentido como letra de canção doom metal ou seja lá o que for mas a verdade é que aqui no papel tem toda a arrogância e inconsequência dum qualquer poema de adolescente com mais cabimento no extinto DN-Jovem do que numa publicação profissional, sem desmérito para os muitos e bons autores que já passaram pelas páginas do extinto suplemento.

Para mim o único ponto positivo do arrazoado delirante e sem nexo de Ribeiro é o facto de ser misericordiosamente curto. Todo o suplício não ocupa mais de sete páginas. Ao menos dou graças por estes pequenos favores.

Yves Robert estreia-se na escrita com A Ameaça Rastejante e para um não profissional pode-se dizer que tem um começo auspicioso. Embora ainda não isento de algumas falhas, nomeadamente ao nível do ritmo que tanto balanceia entre o mero arrastar como debita freneticamente sequências de acção, a verdade é que o conto lê-se com prazer, mais que não seja porque se sente por detrás da narrativa a presença de uma estória com pés e cabeça, princípio, meio e fim que é mais do que a grande maioria dos outros textos desta antologia se podem gabar.

A trama abre em Moçambique no ano de 1964. Está-se em plena guerra colonial e Emídio Vicente é um fuzileiro que de alguma forma se viu separado dos camaradas e tenta agora a custo regressar à base. Atormentado por bizarros pesadelos a sua mente estala quando testemunha um ritual na profundeza da selva. Vinte anos mais tarde, já em Lisboa, é um taxista semi-alcoólico que tenta esquecer o pesadelo vivido em Moçambique mas a pouco e pouco o passado parece ressurgir numa série de violentos e macabros acontecimentos que o vão encaminhar para o confronto final com os seus terrores numa caverna algures em Almoçageme.

Robert tem um bom domínio sobre o diálogo, uma capacidade inata de construir personagens credíveis e, mais importante ainda, uma estória para contar e uma forma interessante de a contar. Com mais alguns contos no currículo e se conseguir afastar a maldição da grande maioria dos escritores portugueses do género que parecem emergir para logo desaparecerem sem deixar rastro, poderá ser um nome a ter em conta no futuro.

Para os leitores habituais do género o nome de Vasco Curado é conhecido por via do conto O Povo do Mar publicado no primeiro número da revista Bang!.

Dadas as semelhanças temáticas com o conto de José Manuel Lopes penso que foi acertada a inclusão de outro conto de Curado nesta antologia. A Hora é uma breve vinheta que serve de ponte entre os contos que ficaram para trás e o que se segue.

Contado na primeira pessoa e com um notável contimento, sem fazer uma alusão sequer passageira ao panteão de monstros lovecraftianos, paradoxalmente Curado é, contudo, dos poucos autores nesta antologia a conseguir capturar o clima que se desprende dos contos de Lovecraft muito por força do expediente de deixar mais à imaginação do leitor do que enveredar pela via do didactismo exaustivo. De negativo apenas a assinalar uma secção em que o narrador encontra uma velha que alimenta ratos. O encontro e o confronto posterior de nada adiantam à ideia base do conto.

Este termina algo abruptamente deixando o palco aberto para João Ventura que com Num Túnel em Lisboa fecha a ideia que já se vinha desenvolvendo desde a noveleta de Luís Filipe Silva de que Cthulhu habita nos subterrâneos que percorrem as fundações de Lisboa.

Tiago Lourenço é um jornalista estagiário e logo ao seu primeiro dia recebe como trabalho a elaboração duma peça sobre a interrupção das obras do Metropolitano de Lisboa na Praça do Comércio. O que parecia uma peça de enchimento perfeitamente banal vem a revelar-se um enigma quando tentativa após tentativa de contactar os responsáveis pela obra Tiago depara com um muro de silêncios, objecções e desinformação. Rapidamente o seu faro jornalístico percebe que algo de maior do que transpareceu nas notícias de então esteve na origem do encerramento das obras e, determinado, segue todas as pistas até que é misteriosamente contactado por Alexandre Gama que lhe oferece um CD com entradas de um diário onde em pequenos excertos se desenrola uma trama que envolve o Necronomicon, a Polícia Judiciária, a GNR, o Conselho Nacional de Segurança e o Primeiro-ministro.

O conto continua previsivelmente com os habituais desenlaces de mortes súbitas, mensagens deixadas a terceiros com tantalizantes fragmentos e o clímax esperado que tem início nos subterrâneos lisboetas extravasando para a superfície num regresso tantas vezes defraudado e agora finalmente tornado realidade.

Ventura é um dos autores mais prolíficos dentro do género de surrealismo/fantástico nacional, conhecido sobretudo pelos micro contos e mini-narrativas que aparecem amiúde quer em publicações nacionais, quer internacionais. Dono dum estilo narrativo muito próprio, entrecortado, de parágrafos curtos e secos, com descrições esparsas e alicerçado principalmente numa cinética vontade de prosseguir a narrativa até à conclusão é evidente que em obras de maior fôlego esse estilo fica aquém do que se poderia desejar sendo desadequado para estabelecer um fundo de ambiência onde os protagonistas e os antagonistas se poderiam mover como actores num palco tridimensional.

Dos três textos que nesta antologia estabelecem os alicerces para a ideia duma Lisboa berço do regresso de Cthulhu por via da existência dum exemplar do livro maldito e dum culto adorador dos Anciões, este é possivelmente o menos inspirado deles, muito por culpa de soluções fáceis e clichés - o CD entregue à boa maneira de James Bond; o assassinato invisível no aeroporto; o envelope providencialmente deixado no restaurante - e por um final demasiado apressado em que surgem do nada vários militares com tempo limitadíssimo de exposição. Existem aqui apenas para dar ordem de fogo e de seguida, subentende-se, morrer. Deve ser este o verdadeiro significado da expressão “morte súbita.”

Antes de terminar falando da noveleta de João Barreiros tempo ainda para referir as ilustrações interiores da autoria de Miguel Vieira. Estas oscilam entre o bom, principalmente nas folhas de título dos variados textos, e o medíocre, geralmente nas que ilustram momentos particulares de cada texto, sendo que nalguns casos não passam de meros esboços incompletos. Aliada a esta qualidade periclitante está uma distribuição desequilibrada das ilustrações, sendo que há textos longos, caso da noveleta de Luís F. Silva, que não merecem uma única ilustração e outros bem menos extensos que contam com uma ou duas. Este facto possivelmente deve-se ao Miguel Vieira não ter tido igual contacto com todos os textos, o que não invalida que o editor fizesse uma selecção e optasse por equilibrar a distribuição das mesmas ao longo da antologia.

E para terminar esta opinião, que já vai longa, resta falar de Por Detrás da Luz de João Barreiros.

Se a antologia teve um começo muito fraco com os contos de Rogério Ribeiro e Safaa Dib, redime-se nas páginas finais com a soberba mestria incomparável de Barreiros. Esta noveleta é o equivalente nacional de Roadside Picnic dos mestres russos Arkady e Boris Strugatsky, mas não se pense que é um pastiche sensaborão.

Barreiros parece incapaz de escrever algo que se possa considerar de todo desinteressante. Mesmo nos seus momentos menos inspirados consegue cativar-nos por força duma escrita furiosa de qualidade cinética, injectada duma ferocidade amarga e dum olhar desencantado mas ainda assim ironicamente humorado, eivado de neologismos, sobre as contradições e paradoxos do ser humano e particularmente do português.

Ultimamente tem-nos presenteado com uma série de noveletas, contos e novelas de qualidade superior. Como apreciador da sua escrita espero que as recentes publicações sejam o regresso há tanto esperado e que praticamente desde Terrarium só foi quebrado ocasionalmente com um conto aqui e acolá e mais recentemente a publicação pela Editorial Presença dum díptico de homenagem a H.G. Wells, A Verdadeira Invasão dos Marcianos. Essa travessia do deserto parece estar no fim com a publicação quase seguida de uma noveleta que até à data apenas existia em formato digital, dois contos em colectâneas nacionais, um deles original, esta noveleta que aqui se aprecia, e a primeira parte duma trilogia escrita a seis mãos, O Projecto Candy-Man, só para falar das publicações nacionais, visto que também marca presença na antologia SFWA European Hall of Fame: Sixteen Contemporary Science Fiction Classics from the Continent, editada por James Morrow e Kathryn Morrow, precisamente com o conto que se pode ler na antologia Ficções Científicas & Fantásticas.

Já em diversos locais escrevi e falei da necessidade que existe na FC nacional duma característica que penso indispensável para a formação dum legado capaz de marcar presença além-fronteiras. Essa característica é o tratamento de temas caros à alma lusitana, a marcação pela voz genuinamente nacional daquilo que nos transforma em portugueses. É a inflexão dialogante, a postura mental do típico Zé Povinho já tão bem definido anteriormente por Rafael, é a nossa tão conhecida característica e técnica do desenrascanço, enfim é todo o conjunto de traços nacionais que fazem de nós portugueses inconfundíveis. Raramente esses traços, essa voz, se assim quisermos definir, está patente na FC e Fantasia nacional pelo que na maior parte das vezes o que lemos são émulos de outras vozes, a maioria delas de tradição anglo-saxónica que pouco ou nada acrescentam ao nosso corpo literário de FC.

Barreiros tem essa voz mais que não seja no humor negro, na mordaz crítica social, nos maneirismos fraseados, quase sempre usando e abusando dos diminutivos, numa linguagem a um tempo paternal e a outro subversiva. É afinal de contas a boa velha alma lusitana sempre pessimista mas sempre pronta a dar a volta por cima, a encontrar no pior dos piores tempos uma oportunidade de se safar, de ir em frente, de fazer pela vidinha mesmo enquanto resmunga e se queixa de tudo e todos. Por Detrás da Luz é um exemplo perfeito dessa capacidade inata de Barreiros e uma oportunidade de ouro para arrasar Lisboa com “o máximo de prejuízo.”

A história é enganadoramente simples numa primeira leitura mas como uma cebola a cada nova leitura mais e mais subtextos se vão revelando ao leitor interessado em ver para além das aparências. Onde antes tínhamos uma história de amor, podemos agora ler a história duma obsessão. Onde tínhamos um velhote inocente, temos um pedófilo. Onde tínhamos um ajudante, temos um oportunista. E assim por diante num verdadeiro oceano de interpretações subjectivas e objectivas. Cada leitor constrói o seu livro e Barreiros dá-lhe a oportunidade de construir mais do que um em apenas uma história.

Carlos, o típico português desenrascado consegue, graças a um fragmento membranoso de Shoggoth recuperado duma antiga base da NATO em território nacional por Sousa o seu ajudante, viajar no tempo e recuperar duma Lisboa segundos antes da explosão atómica, produtos e memorabilia que se vendem a peso de ouro no presente, nosso futuro próximo. Mas as constantes viagens ao passado onde o portal dos Invasores foi fechado numa singularidade estão a provocar-lhe a degradação física e mental e quando numa das viagens uma goula lhe oferece uma planta do El Corte Inglês precipita uma série de acontecimentos que irão utilizá-lo como ferramenta na concretização dum plano com trinta anos de gestação.

Convencido que a ex-mulher pode ser salva, Carlos arrisca tudo para recuar no tempo e resgatá-la da explosão que ceifou a vida de milhares em Lisboa, enquanto o portal que paira na singularidade aguarda o resgate do tempo circular para de novo se abrir dando passagem a Yog-Sothoth que se abaterá sobre os destinos da Humanidade. Apenas precisa dum arauto, um veículo que seja o disseminador da Horda…

Num ritmo alucinante, frenético, flamejante e angustiado, Barreiros descreve sublimemente o desespero das viagens temporais, a angústia dos últimos momentos vividos vezes e vezes sem conta, a inevitabilidade do destino, frio e calculista, que por estranhos desígnios e manipulando, qual titereiro mórbido, os almejos do coração humano prossegue inexorável e decididamente na marcha para o desfecho fatal.

Mas será esse desfecho tão horrível assim ou não será antes e doutra perspectiva um belo início de algo apenas e simplesmente diferente? É este o paradigma/dilema que nos fica da prosa de Barreiros, em que tudo é fluir, tudo é devir e apenas na mudança e no caos se encontra o progresso mesmo que ele seja contrário aos interiores desejos humanos.

É o encerrar com chave de ouro da antologia e por si só razão mais do que suficiente para a adquirir.

Contas feitas esta antologia teria ficado como referência futura no fantástico nacional se pudesse pôr de lado alguns textos e apostar unicamente nos melhores deles. Nomes a reter seriam o de Luís Filipe Silva, David Soares, João Seixas e João Barreiros. Com um pouco mais de boa-vontade juntar-se-iam ainda os nomes de António de Macedo, mais pela qualidade da escrita do que propriamente pelo tratamento do tema, Yves Robert, como representante da novissíma geração de autores a singrar no panorama nacional e João Ventura, pela ponte entre os textos de Luís Silva, Seixas e Barreiros.

Ainda assim e das três colectâneas do género fantástico surgidas entre 2006 e 2007 esta é inegavelmente a mais forte e bem elaborada, quer pela linha temática vincada, quer pelo equilíbrio geral, a tender principalmente para o bom, quer pela extensão de alguns dos textos que eventualmente são também as melhores participações.

Offline pendragon

  • Leitor Inveterado
  • ***
  • Mensagens: 213
    • Ver Perfil
A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #1 em: Abril 21, 2008, 12:47:38 pm »
e lecas fez doer as manitas nao than? :twisted:
"ALIAS JACTA ES"///VENI,VIDI,VICI

Offline Ray_of_Darkness

  • Leitor compulsivo
  • ****
  • Mensagens: 537
    • Ver Perfil
    • http://madebynatercia.blogspot.com
A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #2 em: Abril 21, 2008, 13:12:25 pm »
Já tenho este livro aqui na estante à espera de ser lido. Só não sei para quando...
De qualquer forma, um dia (ou mês) destes dou a minha opinião. Não que seja para ter em conta, mas sempre vou participando.

Bye

Offline Fiacha

  • Bibliófilo
  • ******
  • Mensagens: 15386
  • Corvo Negro
    • Ver Perfil
A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #3 em: Abril 21, 2008, 13:19:44 pm »
Thanatos,

Antes demais os meus parabens, que grande trabalho...penso que apartir do teu post, muito pode e deve ser debatido...

Seria inclusivamente interessante ver o ponto de vista dos próprios escritores ao teu comentário...

Ficam-me na retina alguns nomes para aquisições futuras...

Pedragon,

Segundo entendo o "trabalho" estava feito, foi "só" reduzir um pouco :wink:
Livro a ler: O Cavalo de Outubro de Collen McCuloough 6º volume da saga 1º Homem de Roma

Offline emperium

  • Leitor Inveterado
  • ***
  • Mensagens: 477
    • Ver Perfil
A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #4 em: Maio 02, 2008, 15:33:48 pm »
Tenho lá o Livro, mas ainda não o li :S
shame on me  :oops:

Offline Faria

  • Rato de biblioteca
  • *****
  • Mensagens: 1070
    • Ver Perfil
A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #5 em: Julho 17, 2008, 21:48:52 pm »
ainda me estou a debater com garras com o livro. consegui que o fernando ribeiro mo assina.s e tudo (eheh). ate agora tou a adorar ta mesmo brutal.
"E em poucas palavras Maldoror foi bom, nos seus primeiros anos, em que viveu feliz. Está dito"

Where shadows meet art:
http://coxixocorner.deviantart.com/
http://fariacorner.daportfolio.com/

Offline RuiBaptista

  • Bibliófilo
  • ******
  • Mensagens: 2214
    • Ver Perfil
    • Bela Lugos is Dead
A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #6 em: Julho 23, 2008, 22:24:48 pm »
Não quero criticar o teu trabalho, Thanatos, mas este texto para poder ser publicado teria de ser reduzido a 1/10. De outra forma serão poucas as pessoas com pachorra para o ler.

De qualquer forma, é uma opinião interessante.

Offline jnewton

  • Leitor Inveterado
  • ***
  • Mensagens: 217
    • Ver Perfil
A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #7 em: Outubro 17, 2008, 17:53:11 pm »
Uma obra inspirada na obra de Lovecraft e que tenta trazer os montros e mitos do grande autor de Providence para a cidade de Lisboa.

Esta foi a minha primeira abordagem a uma antologia dentro da coleção Bang. Fiquei com duas impressões enquanto estava a ler este livro. A primeira foi que se tornava monótono por tantas vezes se falar em Cthulhu e tantas vezes o monstro morrer nas últimas frases das diversas histórias. A segunda, e sempre que havia autores que não falavam no polvo gigante tão abundantemente, foi que por vezes se tornava um livro diferente e muito cativante com boas histórias e que me faziam lembrar o génio de Lovecraft - embora ainda tenha muito para ler deste autor.
Pelo menos a antologia que li continha muitas histórias em que não intervia directamente Cthulhu, e penso que isso foi o que mais falhou neste livro. Mas também não deve ser fácil fazer uma antologia e ter contos muito variados.
Não me parece um livro fácil de ler nem daqueles que se lêm num fólego. Demorei quase duas semanas para ler este livro e tive de intercalar com outros. Recomendo uma leitura pausada e espaçada.

Quanto aos autores gostei bastante dos contos de David Soares, António de Macedo, Rhys Hughes, João Ventura e João Barreiros.

O conto de João Seixas não figura nos meus preferidos porque a escrita muito sofisticada e complicada fez com que não entrasse no enredo com facilidade e que tivesse de andar à luta com a primeira parte da história, em que as comparações não permitem um melhor fluir de muito boas ideias.

Os outros contos também achei que não sendo tão bons como os atrás referidos, também tinham algum do misticismo de Lovecraft e do seu mundo.

Sou fã de moonspell e de Fernando Ribeiro mas confesso que o que li até agora do autor - que por sinal não foi muito, apenas as introduções do 2º vol de contos de Lovecraft e o conto Mostodon contido nesta antologia me deixaram sempre às cegas e sem perceber práticamente nada. Espero futuramente vir a compreender e a gostar da sua obra.

Vou agora passar à opinião do thanatos
(LIDO) - O senhor da guerra dos céus - M. Moorcock
(A LER) - Forças do mercado - R. Morgan

Offline jnewton

  • Leitor Inveterado
  • ***
  • Mensagens: 217
    • Ver Perfil
A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #8 em: Outubro 17, 2008, 18:30:39 pm »
Acabei agora mesmo de ler a crítica do thanatos.

 Acho que este post é de uma riqueza extrema e que deveria ser lido por todas as pessoas que já leram a antologia e pelas que nunca vão ler. Simplesmente fabuloso. Um dia gostava de ter opiniões assim  :oops:

 
Citar
O texto de Fernando Ribeiro, Mastodon, é mais um daqueles momentos “que raios é isto?” Por mais que me esforce em criar uma súmula aproveitável a verdade é que o texto resiste a qualquer tipo de aproximação e interpretação. Talvez tenha, algures, feito sentido como letra de canção doom metal ou seja lá o que for mas a verdade é que aqui no papel tem toda a arrogância e inconsequência dum qualquer poema de adolescente com mais cabimento no extinto DN-Jovem do que numa publicação profissional, sem desmérito para os muitos e bons autores que já passaram pelas páginas do extinto suplemento.

Para mim o único ponto positivo do arrazoado delirante e sem nexo de Ribeiro é o facto de ser misericordiosamente curto. Todo o suplício não ocupa mais de sete páginas. Ao menos dou graças por estes pequenos favores.


 O fernando tb tem q fazer um companion para os seus contos.
(LIDO) - O senhor da guerra dos céus - M. Moorcock
(A LER) - Forças do mercado - R. Morgan

Offline Smirlah

  • Administrator
  • Bibliófilo
  • *****
  • Mensagens: 16630
    • Ver Perfil
Re: A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #9 em: Maio 19, 2010, 00:10:33 am »
Adquiri este livro há já algum tempo mas só lhe dei, uma vez, uma rápida vista de olhos.
Ao ler isto fiquei um bocado ''à beira de cair'' pois esperava que fosse no geral, ou tivesse uma crítica,  de um nível melhor do que o descrito.

Fiquei com vontade de ler apenas alguns contos e ir saltando, por assim dizer.

Valerá a pena dedicar-lhe, a todo o livro, um tempo exclusivo? Ou será aquele género de livro que se lê melhor ''aos solavancos'', por assim dizer?

Offline tangerina

  • Global Moderator
  • Bibliófilo
  • *****
  • Mensagens: 4851
    • Ver Perfil
    • goodreads
Re: A Sombra Sobre Lisboa - uma opinião
« Responder #10 em: Maio 31, 2010, 11:50:13 am »

 
Citar
O texto de Fernando Ribeiro, Mastodon, é mais um daqueles momentos “que raios é isto?” Por mais que me esforce em criar uma súmula aproveitável a verdade é que o texto resiste a qualquer tipo de aproximação e interpretação. Talvez tenha, algures, feito sentido como letra de canção doom metal ou seja lá o que for mas a verdade é que aqui no papel tem toda a arrogância e inconsequência dum qualquer poema de adolescente com mais cabimento no extinto DN-Jovem do que numa publicação profissional, sem desmérito para os muitos e bons autores que já passaram pelas páginas do extinto suplemento.

Para mim o único ponto positivo do arrazoado delirante e sem nexo de Ribeiro é o facto de ser misericordiosamente curto. Todo o suplício não ocupa mais de sete páginas. Ao menos dou graças por estes pequenos favores.


Todos os textos que leio do senhor deixam-se esse sentimento. Mais propriamente uma sensação de "wtf?"
Acho que, claramente, ele tenta escrever de forma complexa e elaborada, mas não o faz de forma elegante , de todo. Tornando o texto um discorrer de palavras tentativamente caras sem articulação, no que parece procurar ser um conjunto de ideias alternativas e "esotéricas".  ::)
Lido: Aristides de Sousa Mendes, Um Herói Português, José-Alain Fralon
A ler: 1808, Laurentino Gomes
         A Game of Thrones, G. R. R. Martin
        

http://abibliofila.blogspot.com/

http://www.goodreads.com/catsadiablo