Autor Tópico: [1º Conto Conjunto] :História  (Lida 8264 vezes)

0 Membros e 1 Visitante estão a ver este tópico.

Offline dhode

  • Leitor Inveterado
  • ***
  • Mensagens: 307
  • Release your inner killer
    • Ver Perfil
Re: [1º Conto Conjunto] :História
« Responder #15 em: Outubro 25, 2010, 21:28:21 pm »
Devo ter soado demasiado despreocupado, pois a expressão presente em todos os olhares que me fixavam denotava uma exclamação algo exagerada.
- Um espião?! – Ouvi alguém dizer.
- Impossível! – Proferiu outro.
E assim começou uma discussão entre todos os que iam a bordo, tornando o espaço, já de si pequeno, demasiado apertado para todos nós.
Saí para um corredor estreito por meio de vozes alteradas e solavancos intermináveis.
Inspirei o ar, com cada vez menos oxigénio, de modo a conseguir pensar com mais clareza.
Um espião. Essa nunca me tinha passado pela cabeça mas, vendo bem, até fazia sentido…
Quer dizer, de algum modo os Inomináveis estavam sempre à nossa frente, controlando todos os movimentos que dávamos. Haver um espião entre nós não era algo assim tão improvável. Mas quem?
A porta metálica por onde eu saí voltou a abrir-se. Era Dhode quem por ela passava, com uma expressão carregada e uma respiração ofegante.
- Não conseguia aguentar ali nem mais um minuto – disse, olhando para mim com alívio. Depois, com um semblante mais sério – Tens a certeza?
- Não posso ter a certeza de nada, já que não vi nem tenho vivido os últimos acontecimentos, mas parece-me que sim. Há alguém entre nós a jogar dos dois lados.
Dhode coçou a nuca.
- E fazes alguma ideia de quem possa ser?
Silêncio. Um silêncio que se prolongou por breves instantes, antes de eu abanar a cabeça em sinal de negação, para depois acrescentar:
- Esperava que fosses tu a dizer-me.
- Eu?! – Perguntou chocado.
- Sim, tu. Tens estado a par de todos os acontecimentos enquanto estive… ausente, por isso pensei que pudesses dizer-me se não tens nenhuma suspeita.
Dhode começou a coçar mais uma vez a nuca, tentando visivelmente lembrar-se de alguém. No entanto não conseguiu abrir a boca para incriminar fosse quem fosse.
De repente, olhou por cima do meu ombro e a sua expressão começou a alterar-se, passando a adoptar uma postura formal e respeitosa que se traduziu numa vénia ao som da palavra:
- Comandante.
Ao ouvi-lo, achei por bem demonstrar o mínimo respeito pelo comandante, pelo que dei meia volta e imitei-o… quase…
Ao aperceber-me que o comandante não me era de todo desconhecido, interrompi a minha vénia para ficar pasmado a olhar.
Era ela! A rapariga lobo, de olhos cor de safira e cabelo negro. Agora apresentava-se diante de mim com um traje típico de um comandante de uma nave: camisa azul, com as devidas insígnias e condecorações, e umas calças pretas, simples. Não que o traje fizesse dela alguém menos feminino, pois continuava bela como eu me lembrava.
Mas algo estava mal. Ao caminhar na nossa direcção, arrastava o corpo com dificuldade, como se estivesse muito pesada. E os olhos… Os seus olhos azuis brilhavam com as lágrimas que lhe escorriam pela face, dando-lhe uma aparência demasiado frágil para um comandante. Dando-me vontade de correr para ela e segurá-la contra mim, enquanto as memórias do que quer que fosse que lhe tinham feito se desvaneciam…
- Comandante – Dhode falou primeiro que eu, quebrando o silêncio. – Passa-se alguma coisa?
Ela limitou-se a caminhar na minha direcção…perdão, na nossa direcção, com soluços e fungadelas já bem audíveis.
Ao chegar suficientemente perto, deixou-se cair de joelhos, ficando a olhar para cima, como que a invocar ajuda divina… como que a rezar. O que seria ridículo, já que não havia deuses a quem o fazer.
- Miah! – Gritou Dhode, e acorreu a ajudá-la.
Então a sua expressão muda, e ela volta-se para Dhode, agarrando-lhe a cabeça com as duas mãos e fazendo-o fixar o seu olhar.
Por entre soluços, conseguiu fazer a declaração que eu nunca esperara ouvir… e que de certo matara Dhode por dentro:
- Márcia… ela… fugiu, traiu-nos.
- Quem é a Márcia? – Perguntei.
Ela virou-se para mim, dando a ideia de que só agora se apercebera da minha presença.
- Flavius! – Disparou. – És mesmo tu?
Pois, ainda não me tinha apercebido disso, mas a verdade é que não havia maneira de ela saber que eu já tinha acordado, a menos que alguém lhe tivesse dito alguma coisa.
Gostei do choque, e ajoelhei-me defronte dela.
- Sim, estou aqui – tentei confortá-la. – Mas tens de nos dizer o que se passa…
Não tinha reparado que Dhode fitava o vazio, com lágrimas nos olhos e a face desfigurada pela dor que sentia.
Estava a ficar farto, mas então comecei a juntar as peças: a loba de olhos azuis, convencida e altiva, aparece a chorar; diz que uma tal de Márcia nos traiu, o que faz Dhode ficar destroçado; apesar de nunca me terem sido dados a conhecer os nomes delas, acabei por compreender que a Márcia era a irmã da Miah, a outra loba… a mulher de Dhode…
Não tive tempo para aguentar o choque de tal verdade, pois a minha cabeça foi perfurada por milhões de agulhas que teimavam a entrar cada vez mais fundo na minha mente, levando-me de volta a algumas das minhas memórias…

Offline miah

  • Bibliófilo
  • ******
  • Mensagens: 12480
    • Ver Perfil
Re: [1º Conto Conjunto] :História
« Responder #16 em: Novembro 10, 2010, 05:45:05 am »
Tamanha notícia fez-me recordar os momentos que passáramos juntos.

Fez-me relembrar o dia em que as conhecera no gabinete do Doutor, quando o mesmo ainda se encontrava intacto. Do dia em que as vi pela primeira vez na minha nave e uma delas se transformou defronte de mim, deixando-me ainda com mais duvidas do que as que possuía até então.

Lembrava-me agora até dos momentos íntimos que passáramos juntos e das revelações que me haviam feito naquele mesmo dia.

Haviam sido tantos os momentos que partilháramos juntos, as experiencias vividas e todas estas memórias me faziam pensar na impossibilidade de tal revelação.

Como era possível que alguém que fizera tanto por mim e por toda a nossa comunidade, pudesse de alguma forma ter traído todo o nosso povo?

Era certo que não a conhecia suficientemente bem, nenhuma das lobas na realidade, mas custava-me profundamente acreditar que alguém que ajudara a humanidade, que descobrira os genes humanos e partilhara todos aqueles momentos que revivera, poderia ser hipoteticamente uma traidora.

Será que não passara tudo de um plano? De uma mentira? De uma forma de escapar de um destino mais que certo? Ou uma forma de se aliar a alguém que é seu pai?

São enumeras as questões e poucas as respostas às mesmas mas nada disto importa. Nada justifica tamanha traição.

Com todas estas dúvidas em mente decidi colocar as que mais me atormentavam.

- Como podes ter tantas certezas nas acusações que teces? O que a levaria a fazer tal coisa? Mesmo sendo filha de quem é, custa-me profundamente a crer que alguém que fez tanto por nós nos poderia trair desta forma. Melhor que tudo, quem nos garante que foi ela a traidora e não tu? Ou ambas? – Perguntei com a voz embargada com toda a raiva e receio que sentia.

Quando acabei de proferir todas estas dúvidas, notei que o azul dos seus olhos endureceu de raiva, tornando os mesmos quase pretos mas tamanho ódio rapidamente deu lugar à dor que tais afirmações proferidas por mim lhe faziam sentir.

Percebi enquanto a observava, o quanto a havia magoado com os meus receios e lamentava realmente tê-lo feito mas fora a forma de libertar a mágoa e as dúvidas que me corrompiam por dentro.

- Primeiro que tudo nunca dei razões para que duvidassem de mim. Sempre fui fiel ao meu povo e tal como disseste muitos dos feitos alcançados foram devidos à minha persistência e à da minha irmã. Seguidamente não te esqueças que sou tua superior e como tal, mereço algum respeito da tua parte. E por fim, pensas que também não me custam estas notícias?!

O choro incessante fez com que soluçasse de uma forma de cortar a respiração, a quem a pudesse estar a ouvir.

Passado alguns instantes continuou, olhando-me nos olhos, transparecendo toda a sinceridade espelhada nos mesmos.

- Não existe ninguém a quem custe mais estas notícias! Éramos mais do que irmãs, éramos amigas, confidentes. Portanto acredita que se te custa de alguma forma estas revelações, a mim ainda me custam mais. Sinto-me traída mas fundamentalmente triste com tudo isto! – Terminou com os olhos vermelhados pejados de lágrimas.

A sinceridade presente no seu discurso mas fundamentalmente no seu olhar fez-me puxá-la para o meu peito e reconfortá-la, dar-lhe o abrigo e conforto que ela tanto necessitava naquele momento.

Enquanto me encontrava subjugado no chão sentindo o bater do seu coração acalmar e a sua respiração estabilizar, tinha ainda mais certezas sobre a incongruência de todas estas dúvidas e sentia que teria de fazer de tudo para tentar perceber o que se passara na realidade.

Durante o tempo em que senti o seu corpo contra ao meu, percebi que mesmo estando ausente todos aqueles anos ainda conseguia sentir paixão e vontade de ajudar o próximo. Quando em tempos me via como um monstro, como alguém sem coração, por algumas atitudes que tomei, nunca pensei que pudesse ter sido tudo apenas uma ilusão ou uma mera fase da minha vida.

Ao passo que abraçava a loba sentia a minha humanidade mais viva que nunca.

Passado algum tempo, não sei precisar quanto, sentimos a nave estremecer e todos os alarmes soaram estridentes. Levantamo-nos os três aflitos sem saber bem o que fazer, nem tão pouco o que se passava.

- O que se passa? – Perguntei para Dhode, com receio de ouvir como resposta o meu maior receio.

- Não sei bem mas penso que estamos a ser atacados novamente. – Respondeu enquanto corria para a porta metálica por onde ambos havíamos saído.

Digitou o código de acesso rapidamente e dirigiu-se para junto dos nossos companheiros.

- O que aconteceu? Estamos a ser atacados? – Adiantou-se Dhode.

- Parece que é esse o caso. Não sei o que se passou! Num momento não conseguimos ver a aproximação de ninguém e no outro defrontámo-nos com este cenário. – Afirmou Jonathan apontando para o monitor que tinha defronte de si. Neste eram visíveis três naves inimigas.

- E agora o que fazemos? Conseguimos sair daqui? Conseguimos defender-nos? – Perguntou Dhode desesperado por boas notícias.

- Não conseguimos sair daqui. O nano - vírus incapacitou todos os nossos sistemas. Não nos é possível escapar, nem tão pouco defender-nos dos ataques que a frota Inominável possa enviar contra nós. – Respondeu com a voz embargada de desânimo Sveco.

- Então o que fazemos nós? Deixamo-nos ficar aqui à espera que eles nos ataquem e façam connosco aquilo que bem entenderem?! – Questionei todos eles de forma demasiado rude devido aos nervos que sentia.

Enquanto aguardava por respostas lembrei-me de algo.

- Sveco… – Afirmei com voz urgente. – Vai para junto do motor da nave. Dir-te-ei o que pretendo que faças pelo microfone. – Depois do mesmo sair pela porta metálica continuei. – Jonathan quando eu mandar irás fazer exactamente o que passo a explicar.

Sveco

  • Visitante
Re: [1º Conto Conjunto] :História
« Responder #17 em: Novembro 15, 2010, 23:50:10 pm »
 E em particular disse-lhe:
 - Comunica ao comandante do Septaliamnus que eu sei onde se localiza a toca dos ditos cujos que não têm nome. Peço a providência de uma nave de rastreio, assim como do material necessário a uma abordagem terrestre... uma companhia de cinco homens e claro, o comando da operação - olhou para mim com uma cara espantada, não sabendo o que dizer, até que eu o despachei - Toca a andar! Se for preciso fazer uma petição, trouxe caneta e papel...
 - Não sei do que falas capitão Flavius... - e fez tenção de me virar as costas - mas recuso-me a obedecer a essa ordem. Não colocarei em risco tamanha operação para ceder aos seus caprichos, que por ironia do destino, podem frustrar a nossa causa.
 - Acaso pensas que sou movido por objectivos pessoais? - perguntei-lhe com olhos penetrantes - Acaso pensas que pretendo algo mais para além da destruição desses vermes?
 - Não sei o que pensar dum gajo que passou tempos e tempos a dormir sob a influência dos Inomináveis - desta vez virou-se para a porta eléctrica, pegou no cartão e fez tenção de sair.
 Agarrei-o pelo colarinho, anda cá pá!, e puxei-lhe a cara de encontro à minha.  - Há uma guerra lá fora, nos próximos cinco minutos podemos mesmo explodir com uma bomba nos cornos. - sorri-lhe sarcasticamente - E tu com falinhas mansas e seguindo o protocolo pretendes enfrentar cem naves a mando desses que tu tanto temes... - calei-me e respirei três golfadas de ar - Neste momento podia ser um dom condestável dum rei há muito morto num mundo que nem conheço bem, ou comandar um importante batalhão de formigas gigantescas devoradoras de carne humana, partilhando ao mesmo tempo o leito de uma deusa; tive a compaixão de vos ajudar neste momento e tudo o que vejo é uma idiotice pegada.
 Boom, algo explodiu de encontro ao casco do Septaliamnus, causando um grande impacto que fez estremecer toda a sala e nos derrubou aos dois.
 - Eu apresento a tua petição ao comandante Fiacha, desde já - disse o grumete Jonhatan, levantando-se - duvido fazê-lo sem ser no mínimo ridicularizado. - sorriu-se - Faço questão de sublinhar que nada tenho que ver com os teus intentos, portanto meu caro Capitão, se estes forem contrários ao nosso serviço e a tua cabeça rolar, faço questão de que ao menos a minha fique bem assente no pescoço.
 E então saiu um pouco apressado, embora o dissimulasse. Bom cumpridor do seu papel, se cedeu, fê-lo pela ansiedade daquela situação.

****

 A gigantesca Septaliamnus tentou por mais duas horas cobrir o máximo de distância possível do batalhão inimigo, por uma ou duas vezes tentou circundá-lo ou flanqueá-lo por estibordo, mas todas as manobras de diversão, apenas atrasavam o progresso daquelas assustadoras máquinas que se moviam a uma velocidade bastante superior. Por muito possante que o nosso aparelho pudesse ser e mostrasse ser contra os frequentes bombardeios, verdade era de que aos poucos e poucos dava mostras de cedência.
 Logo depois de ter aquela discussão com o grumete Jonhatan, dirigi-me aos meus aposentos e comuniquei em alta voz ao Sveco, que me informou que o primeiro grande abalo causou alguns estragos significativos na sala das máquinas. Nada que a equipa de manutenção não pudesse resolver, ou pelo menos minimizar, mas de longe isso iria servir por muito tempo. Para nada já havia tempo.
 Fleugmar, o meu camareiro-mor, veio meia hora mais tarde a informar-me que o comandante Fiacha havia recusado a minha petição, alegando o perigo e a pouca credencia da mesma. Falei novamente com o segundo-estelar Sveco, pedindo-lhe pela graça de Deus e dos Homens, que me arranjasse um transporte e me dispensasse alguns dos seus homens. Os homens eram precisos e o transporte fazia falta.
 Tentei comunicar com a Miah, apelando aos bons momentos que passámos. Mas a resposta que obtive, foi que estava ocupada e a não ser que tivesse uma boa razão para lhe roubar tempo com outras questões, havia assuntos mais importantes a resolver na área dela.
 Já estava prestes a cruzar os braços quando mandei o criado chamar Fleugmar a pedir-lhe que reunisse toda minha mesnada de subalternos. Como castelão rebelde, faria a minha guerra sem autorização régia!!!
 Mas tal nunca foi preciso. Quase no mesmo instante, o comandante Fiacha mandou um dos seus criados buscar-me, e quando me reuni com ele, deu-me autorização para usar um dos transportes validos, fornecendo-me ainda mais dois dos seus homens e a liberdade de poder levar mais três dos meus. Entre os quais eu escolhi Fleugmar, pela confiança que passei a depositar nele num tão curto espaço de tempo.
 Entrámos no transporte, conduzido por Hubyerto, soldado inexperiente no campo de batalha mas bom comandante de máquinas e com uma boa dose de humor, que passou toda a viagem contando piadas jocosas, grande parte das quais acerca do nosso comandante. Foi esta a atitude dele quando, com uma rapidez surpreendente, nos fez flanquear o exército inimigo sem que nenhuma nave se dignasse a seguir-nos.
 - Mas afinal para onde vamos? - perguntou Cipaio, um dos meus homens, que ia sentado na última fila.
 - Para a medina de Faíz-hib-Jayir, - respondi-lhe - onde a tua mãe nunca te levou a passear.
 - "When it's fiesta time in Guadalajááára, then I long to biback once agaiin... in Old Méqsico..." - começou a trotear Hubyerto quase sem voz de tanto se rir.
 - Que rai'dmerda é essa? - perguntou Fleugmar, que se havia esquecido das formalidades, entrando na amena cavaqueira geral.
 - Muito boa música - respondeu-lhe o primeiro -, pa te d'zer a verdade não sei. É uma daquelas que foram descobertas naquelas cápsulas velhas da Terra Antiga e que recentemente foram restauradas.
 E fizemos o resto da viagem neste divertido ambiente musical…

La Fiesta Inominável

 Circundámos o planeta Escota, onde o nosso condutor inseriu as coordenadas que lhe ditei, até que visualizámos a estranha cidade apinhada de gente, aterrando aquele por entre a turba. Homens horríveis, que chamar-lhes de humanos era como chamar bípede a um quadrúpede, magros, enrolados em farrapos de cores escuras e debutadas constituíam esta multidão.
 Perto via-se um emaranhado de pardieiros, unidos entre si por meio de arcos que formavam ruas estreitas, cobertas por panais que lhes ocultam grande parte da luz solar. E uma mulher enrrolada em trapos, debruçando-se sobre uma das inúmeras açoteias, cantarolando um horrível pranto...
 Vários miúdos brincavam nus e cobertos de poeira na rua, correndo atrás de uma bola sebosa feita de um bocado de cortiça, ou atiçando um velho cão, velho mais pelo aspecto que pela idade, ou tentando apanhar os restos que o velho carniceiro lançava na rua - este, resguardado por dois homens musculosos, exercia o seu cruel oficio rasgando carne e peixe com o seu cutelo ferrugento, num turbilhão de varejeiras.
 Era ali que a morte era barata, onde os assassinos ao invés de grandes quantias de ouro, pedem apenas que lhes encham a barriga. Onde jovens esqueléticas vendem a já gasta formosura, pelo mais pequeno pedaço de cobre. Onde os homens reagem como animais, na presença de qualquer objecto estranho que possam conseguir vender por qualquer reles valor - tal acontecia sobretudo com qualquer objecto espacial que não pertencesse a nenhum dos seus senhores, isto é, aqueles a que chamamos Inomináveis. E tudo o que levávamos não era abrangido por esta excepção.
 Investiram contra nós feitas feras, agarraram dois dos meus homens, três nem sei bem. Saquei da minha metralhadora e abati uns quantos, isto assustou-os momentaneamente e pôs alguns em debandada, Fleugmar fez o mesmo mas com menos sorte e pouco depois deixei de o ver e ouvir os seus disparos. Hubyerto, que nem chegou a sair do transporte, logo o tentou reactivar a fim de fugir sozinho, mas muitas mãos o puxaram para fora e o estrangularam contra o chão. Nem o transporte sobreviveu muito tempo, pois logo grande número deles, se abateram a destroçá-lo.
 Corri na direcção do emaranhado de casas, - era a única saída -, disparando contra quem se aproximasse bastante de mim. As perguntas ficariam para depois... Entrei num mundo escuro e turbulento, onde o cheiro a mil aromas extasiantes que me toldavam o cérebro, ocultava outros mais pungentes como o do mijo e da merda, para não falar do da decomposição. Corri sem saber para onde, perdido naquele turbilhão - os outros já nem me molestavam, miravam-me à distância, com o olhar com que o leão mira a gazela ferida. Com a curiosidade com que uma criança travessa, observa uma formiga encurralada dentro dum frasco de vidro. Esperavam pelo momento, ou pela iniciativa de qualquer um mais audaz que fosse beneficiado em cravar-me um punhal nas costas, para que depois todos despojassem o cadáver.
 A minha cabeça começava a ser transportada para um universo mil vezes mais macabro em favor daquele pungente cheiro e as minhas forças começavam a ceder de tanto correr com todo o armamento.
 Então saíram três homens do meio daquela turba, a sua presença fazia afastar os restantes. Reconheci o primeiro: o tabelião de Dom Giraldo, o homem que presenciou a minha tortura nas Terras Morfenses, ou melhor será dizer o próprio Doutor.
 - Pois então Faribole, por aqui? - saudou-me. - Estávamos mesmo à tua espera. Mas porque não avisaste, ter-te-íamos recebido com uma escolta.
 Apontei-lhe a arma e apertei o gatilho, mas, mais rápido que qualquer movimento humano, ele segurou-me o cano, desviando-o na direcção dos espectadores e causando algumas baixas que foram logo esbulhadas pelos que estavam nas filas seguintes; arrancou-me a arma da mão e deitou-me por terra com uma joelhada forte.
 - Ah, ah! É assim que retribuis a cortesia que sempre te demos… pois mil maraninhos, mil maranhões, dois parafitas e quatro chantões... Não sabes o que é, pois não meu caro? Em breve o saberás melhor que ninguém, foi esse o espectáculo que nós reservámos a todos aqueles que recusam a nossa mão amiga...
 E os outros dois homens pegaram-me um em cada braço e levaram-me de rojo por meio da imundície daqueles bairros esquisitos. Virei os olhos no chão e, sem me aperceber, comecei a chorar…

****

 Mil maraninhos, mil maranhões, dois parafitas e eu preso por cabrões. A Praça Grande era enorme, fazendo jus ao nome, com perto de vinte a trinta fileiras de bancadas de homens que aplaudiram de expectativa a minha saída para o areal, constituindo uma altura colossal de uns cinquenta metros que se destacava largamente de todas as construções em redor. Num camarote de pedra ao fundo, desancando-se da plebe, lá estava ela, a Rainha do Formigueiro que eu pessoalmente havia morto com a minha espada encantada, que não era outra pessoa se não… a Márcia, a miúda que eu tive nos meus braços e que matei em desvario… nem mesmo aqui traindo a sua pose sensual Mas será que esta gaja não morre, caramba… ou será que também estou morto e no Hades, sendo meu castigo matá-la mil vezes e mil vezes ela se me deparar, viva como no dia em que nasceu. No cadeirão ao lado sentava-se o Doutor, queixo encostado ao punho e sorriso sardónico na cara.
 Nem um cristão nos tempos do imperador Nero seria tão desgraçado!.
 Ela levantou-se, braços abertos para a multidão:
 - Meus irmãos, trouxemos hoje diante de vós mais um dos nossos que renegou a nossa mão carinhosa, e aceitou as garras do destino. Só os deuses saberão o que fazer desta alma penosa, que não encontrou o caminho certo… - continuou – A fim de provar a nossa boa fé, dar-lhe-emos mais uma oportunidade de abraçar a nossa causa, beijando o chão da arena e pedindo perdão por todas as vezes que foi contrário ao nosso serviço. –dirigiu-se a mim – Aceitas a mão caritativa que te lançamos, procedendo do seguinte modo, mon coeur.
 Enchi os pulmões de ar – Não!!! De todos os juramentos que fiz, apenas a um me manti fiel… e esse foi acabar com a vossa raça.
 - Pois então libertem as cortinas, mostrem-lhe as regras do jogo – gritou ela, sendo prontamente obedecida. Grandes panais de veludo se levantaram, mostrando uma grande concavidade num espaço por entre as fileiras de bancadas, onde à primeira vista se deslumbravam nove estacas com nove corpos amarrados sobre fardos de palha. À segunda, reconheci serem estes os meus nove irmãos das Terras Morfenses, sobreviventes do assalto acometido pelo Doutor - na estaca do meio encontrava-se Marina a ervoeira, irradiando formosura da sua parca roupa esfarrapada, e destacando-se dos restantes por ser a única mulher e pela altitude do tronco em relação aos restantes, claramente iria fazer parte do espectáculo final.
 - O jogo é o seguinte – prosseguiu Márcia – Irás mostrar a tua dignidade perante uma besta e sempre que ela te colher, um dos teus queridos irmãos tornar-se-á carvão… Se te esconderes por um período de tempo superior a três minutos, serás abatido… Tanto desta forma como sendo a besta a matar-te e os teus irmãos irão desejar pelo resto dos seus dias, terem virado churrasco de receita medieval… Se acaso fores colhido vezes suficientes para que todos eles sejam consumidos pelas chamas e serás abatido. Mata o touro e serás livre!!! – gritou esta ultima frase.
 Tum tururum, tururum tururum tururum, tururu-ru-rum, tururu-ru-rum, tururu-tru-rururum…
 O curro abriu-se, mostrando a gigantesca besta branca. Nunca tinha visto nada assim, o tamanho dos chifres era descomunal, os músculos das patas gigantescos, e o peito erguia-se bafejante, enquanto os beiços salivavam por mais carne humana.
 Um homem chamou-me e lançou-me duas farpas, que eu agarrei incredulamente, olhei para o touro que acabava de raspar a terra com uma das gâmbias dianteiras e lançava-se na minha direcção, disposto a dar-me cabo do canastro. Felizmente desviei-me e o animal vem chocar com o muro da arena. ‘Péra aí quê já t’fodo mê cabrão! Quers’me picar, vamos ver quem é que pica quem!
 E então corri feito louco na direcção do bicho, saltei ao eixo num salto descomunal, sobrevoando a parelha, espetando-lhe os ferros mesmo na garupa (Iolééé – gritou a plateia) até que aterrei pelo dorso e escorreguei estatelando-me no chão.

Sveco

  • Visitante
Re: [1º Conto Conjunto] :História
« Responder #18 em: Novembro 15, 2010, 23:50:48 pm »
Rapidamente o monstro vira-se e crava-me um ferro por debaixo do pescoço, levantando-me ao ar, mas – ao que até me pareceu propositadamente – sem causar-me grande dano. E uma fogueira ateou-se, gritos de pânico abafados por um murmúrio da plateia Ooooh!
 Quando aterrei, pé assente, logo fugi na direcção do burladeiro mais próximo, onde me atiraram mais dois ferros. Saltei do meu esconderijo – o meu inimigo mais parecia esperar -, quando ele investe, cruzo o passo, enganando-o, e cravo-lhe mais dois ferros no dorso (desta vez também o disse com a malta: Ioléé – já ‘tás bem enfeitadinho com essas cores todas!), fugindo logo para o esconderijo do lado contrário.

 De uma bancada nas primeiras filas, um homem de óculos de sol, bafeja o seu cigarro calmamente, gritando depois:
 - Vai a pé até Fátima c’o boi às costas! – virou-se então para os seus convivas - O gajo não se safa com um bicho daqueles, mais a mais sem a ajuda de bandarilheiros! Mais uma ou duas e é catado.
 - Tens alguma coisa em mente, Sveco? – respondeu-lhe Fiacha, levando uma mão cheia de pipocas à boca.
 E burrrg! Acendeu-se mais uma fogueira.
 - Tchii… o gajo é me’mo cego… paguei 15 yubris para ver o boi a tourear o Flavius. – disse o primeiro, mandando mais uma passa no cigarro – Claro que tenho um plano em mente: vocês vão arranjar capotes e vão dar assistência lá em baixo como bandarilheiros até eu chegar.
 - Então e tu? – disse-lhe um técnico de artilharia pesada de nome Rui Ramos, que também se encontrava no grupo – decerto que não o vais deixar morrer lá em baixo.
 - Claro que não – levantou-se e deu dois passos, lançando o cigarro para o chão e pisando-o. – Meus avós, se bem que de fracos rendimentos, tinham estirpe… marchavam para as sangrentas batalhas a cavalo ao lado dos seus reis. Não quero que a tradição se quebre neste dia tão prazenteiro.
 - Que dizes, marau? – gritou-lhe Jonhtam – De que é que falas?
 - Daquilo que aqui ficou gravado. O vosso sistema apagador de memórias passadas, nunca deu bons resultados – e dirigiu-se para o portão de saída, virando-lhes as costas.
 Estes entreolharam-se, pouco cientes do que foi dito.

 O animal estudava-me, firme, de olhos postos no mais pequeno movimento de pernas que eu fizesse. Anotava qualquer hesitação. Estudava as minhas emoções, enquanto eu o encarava, a uma distância de trinta metros, com um ferro em cada mão. Esta arena seria a minha tumba… mas ao que parecia ele não estava disposto a matar-me. Pelo menos para já.
 Outro grande alarido da multidão, que eu a principio supus ser da inactividade (mas não eles gostam de momentos de tenção). Arrisquei-me a desviar os olhos e tive as melhores visões que estes me poderiam dar: os tripulantes da nave Fiacha, Dhode, Rui e Jonhatam – todos eles munidos de capas vermelhas, acabavam de saltar o muro do recinto. Quando os virei novamente para a frente já era tarde, o touro vinha já em corrida a escassos passos de mim e só consegui ter tempo de largar os ferros e tentar, sem êxito, agarrar-lhe a cornadura. Caí. Acendeu-se mais uma fogueira – mais um dos meus irmãos que foi desta para melhor. Mas o touro não me tentou atacar enquanto estava no chão, o que me pareceu estranho.
 - Pois então peões de brega, hein?! – gritou Márcia do seu palanquim lá em cima – Vejo que melhor ainda vou ter a tripulação do Septaliamnus toda de mão beijada. Cada cornada em qualquer um vale sempre uma fogueira não se esqueçam.
 Circundaram o cornúpeto, cada um de seu lado, este correu a um e correu a outro, mas à hora do impacto, cada um deles se escondeu por detrás do respectivo burladeiro.
 E tocaram as trombetas tum tum, ta ta ta, tarara. Abriu-se a porta do cavalo e de lá saiu magnifico corcel feito em aço, encimado por Sveco, qual justador da corte arturiana de lança no antebraço, olhava a besta sem pavor.
 - Quê?! – gritou Márcia – Como te atreves a fazer isso? É contra as regras que estabeleci.
 - Reclamo o meu direito como homem-bom de usar cavalo e armadura para o combate. – bradou alto para que o ouvissem - Não sou reles vilão que mereça morrer em pé, antes sou cavaleiro, e como tal enfrentarei a besta sentado.
 - Jamais! – gritou ela – Guardas, abatam-no!
 - Não! – contrariou o Doutor. Vendo um pedido de explicações na cara da Rainha, continuou – Deixa-o lutar tal como quer. Fizemos as nossas regras por nossa medida, deixemo-lo lutar pelas dele. Ao fim e ao cabo pouco pode fazer.
 - Mas… Estás louco?!
 - Cala-te miúda, vê e desfruta o espectáculo. Foi para isso que aqui viemos.
 Márcia cruzou os braços, contrariada. Deu a ordem de retomar a partida e sentou-se, amuada pela desautorização do seu mestre em frente de toda a plateia.
 O ânimo geral reavivou-se, todos mostravam curiosidade pelo misterioso cavaleiro, enquanto ele corria em círculos espicaçando o quadrúpede, ao que parecia sem lhe causar grande dano, para além de pequenas feridas.
 Mas como é esperto o touro, vejam como ele corre por dentro tendo sempre na mira a barriga da besta metálica e nunca a traseira… espero que venhas a partir os cornos seu filho da puta.
 A besta esteve por várias vezes prestes a roçar as parafitas no bojo do misterioso cavalo de ferro, vezes essas que eram deflectidas por um puxão de rédeas de Sveco ou por um golpe com o pampilho. Mas o demónio não era burro, estudava os movimentos do cavaleiro como um jogador profissional de xadrez estuda táctica do adversário e não tardou até que simulasse falsas investidas, mudanças de direcção e… por uma ou duas vezes, fez soltar algumas faíscas dos quadris do equídeo ao roça-los com as pontas dos chifres. Então que num ataque, fingiu-se burlado, provocando um descuido de Sveco que lhe deu o flanco do cavalo, o touro rapidamente se virou e correu na direcção contrária (o que não costuma ser habitual numa besta estúpida), conseguindo enganchar a cornadura por debaixo do ventre do animal, derrubando-o e ao cavaleiro com uma força astronómica. Felizmente Sveco, mesmo no chão, nunca largou o pampilho, agora quebrado em dois, e quando o touro investiu sobre ele, cravando-o ao chão com um dos chifres, tal não aconteceu sem que ele lhe espetasse por entre as veias do pescoço, a metade da lança que tinha na mão.
 O cheiro a carne carbonizada era intenso, provocando náuseas nos espectadores, já se fazia notar cá em baixo. Restava, após todo este espectáculo, arder apenas a fogueira, em que Marina desesperava em suores frios para que o seu sofrimento terminasse.
 O touro, trôpego de dor, afastava-se calmamente do local onde executara o nosso companheiro, babando-se e libertando um rasto de sangue que demarcava o seu trilho pela areia da liça. Do cavalo de ferro, não havia o mínimo sinal de vida.
 - Morreu o galante cavaleiro – riu-se Márcia – ficou o horrível dragão. Mais uma investida com êxito e as suas chamas vos consumirão a todos. Vá lá, se não estiver alguém para lidar com a besta nos próximos três minutos, vão todos para o abate.
 Ouvi tudo isso com certo pânico e algum ressentimento de ter colocado camaradas meus naquela situação. Atrás da placa de madeira a que chamam de burladeiro, olhei para Dhode, o meu companheiro daquela ocasião. Os olhos dele eram o reflexo do meu alvoroço.
 - Anda lá – animei-o – o touro está ferido e pouco já pode fazer. Basta que o cansemos e podemos matá-lo à vontade, mesmo assim eu duvido que o consigamos fazer. Aquele boi não é um animal comum…
 - Repara bem – disse este – tal como está agora, o Jonhatam pode sair do seu esconderijo e segurar-lhe no rabo enquanto o distraímos. O touro vai tentar ripostar, mas nessa posição vai ser difícil e se não lhe tocar com os chavelhos, não conta como marrada (acho eu). Depois disso ele vai ficar lento, e furioso por se livrar do penduricalho que lhe prende o rabo, é então a nossa oportunidade de investir pelos lados e imobilizá-lo. Estando bem preso, é a questão de um de nós arranjar forma de o matar.
 - Pois bem o tempo urge! Todos vocês têm comunicadores, comunica tudo isso a eles.
 Dhode assim o fez, respondendo a algumas questões (mais do que estava à espera), sendo recebido com respostas indecisas e especulativas. – Não temos tempo para isso porra, é este o plano, cumpram-no se querem ter alguma hipótese.
 E a musica no ar ou na minha cabeça: Entram guizos, chocas e capotes… e mantilhas pretas…
 E logo correu para o meio da arena, provocando o animal com os seus urros. Fui atrás dele com algum receio, bastava um deslize e íamos todos pelos ares. O gigante olhou-nos com os seus olhos, menos intimidantes agora que há momentos atrás. Sabia que ia morrer, mais tarde ou mais cedo dos ferimentos, só nos queria levar também antes de o fazer. Ainda pensei em esconder-nos por mais algum tempo até que isso acontecesse, só não o transmiti por recear que isso demorasse e eu não queria aborrecer mais a Rainha Márcia.
 Então vi o Jonhatam esgueirar-se por detrás do animal, avançando calmamente sem que este parecesse reparar. A três passos da cauda do bicho, lançou-se para a frente agarrando-a.
 Este entrou num frenesi, correu em círculos tentando alcançá-lo e foi então que todos nós investimos. Dhode e Rui agarraram-se cada um a seu corno, Fiacha segurou-lhe o flanco direito e Jonhatam torceu-lhe a cauda de encontro ao esquerdo. Ficou quieto, não tinha mais hipótese. O matadouro estava pronto.
 E foi nesse momento que a primeira coisa estranha aconteceu. Rodopiando pelo ar e libertando guinchos ao vento, uma espada vem cravar-se a meus pés. Peguei-lhe e li na lâmina uma inscrição que já me era familiar - «Dominus Faribulus», dizia. A espada que me fora roubada aquando da minha captura pelos capangas do Doutor. Não faço a mínima ideia de como aqui veio parar.
 Com ela cortei as goelas à agonizante besta, que logo caiu por terra, transformando-se repentinamente numa massa de ossos esquelética, na forma de um velho de barbas brancas.
 - Parabéns mon coeur – gritou Márcia do seu assento – tu que tanto te esforçaste por eliminar os Inomináveis, acabaste de matar o seu líder. O touro era o meu pai – e levantou-se grande espanto de entre a multidão – que um dia se transformou em besta por minha vontade e que eu usei os meus conhecimentos para que não voltasse à sua anterior forma. De onde pensas tu que vem o nosso poder de nos metamorfosearmos se não que isso é algo comum a qualquer um dos nossos? (Haha!) Mas a má noticia é que agora sou incontestavelmente a nova rainha e não vos perdoo o facto de terem morto o meu pai. Guardas! – comandou – fuzilem-nos!
 - Não! – intercedeu novamente o Doutor – Haverá melhores alturas para isso, não violemos a lei da hospitalidade. Eles passaram o nosso jogo. Libertem-nos.
 - Cala-te idiota! – e apontou para os dois soldados que guardavam o camarote – Matem-no a ele…!
« Última modificação: Novembro 16, 2010, 00:16:15 am por Sveco »

Offline JonathanStrange

  • Bibliófilo
  • ******
  • Mensagens: 8971
  • "The fight isn't over until you win." Robin Hobb
    • Ver Perfil
Re: [1º Conto Conjunto] :História
« Responder #19 em: Novembro 26, 2010, 08:28:10 am »
Vários tiros tornaram todo o ambiente, ainda, mais surreal. Como se vivesse uma experiência fora de corpo, daquelas que se contam histórias de luzes brancas e paraísos há muito prometidos, vi toda a alarmante confusão que me rodeava.

Tudo se movia mais devagar, como se o tempo precisasse de um segundo para recuperar o folgo, vi o corpo ensanguentado do Doutor a cair. O seu esgar de dor, traição, desilusão e, por fim, do perceber o seu próprio fim.

Os gritos à minha volta não me despertavam para a urgência necessária, estava confuso. O coração batia a um ritmo desconcertante, nada similar com o ponto morto que o meu pensamento demonstrava. Vi duas explosões. Vi o rosto de Márcia mudar de pura loucura para puro medo.

A poeira que se levantou cegou-me, tal como a luz cega após a longa escuridão, ergui a mão esquerda, instintivamente, para cobrir os olhos já fechados e lacrimosos. Senti o peso da espada na mão direita. O mundo voltou à velocidade normal.

- Flavius – gritava Dhode – Ela está a fugir! – Esbracejava, desesperado, ao ver a sua mulher, aquela que o traiu, a trepar os degraus que davam para a segurança da arena.

Corri. Vários homens vieram em minha direcção, uns tentando fugir, outros, mais fortes de espírito, tentando ceifar a minha vida. Todos, os prudentes e os corajosos, foram abatidos como troncos doentes de uma árvore centenária.

O sabor metálico do sangue, misturado com o odor a morte, teria revolvido as entranhas a um soldado mais fraco, mas provocou o efeito contrário em mim. Como se de uma corrida se tratasse, os meus músculos responderam com redobrado vigor com este estímulo macabro. Ao longe, as naves da resistência atacavam o planeta. Era o fim.

Enquanto corria pensava na vontade que tinha de matar Márcia. Ela, filha do líder, tinha sido a primeira a instalar o medo, pânico sobre os inomináveis. Mas, como o Sveco provou, até o líder dos inomináveis morre. Inomináveis, era este a fonte de seu poder. Era este o nosso terror. O desconhecido assusta mais do que tudo o que possamos ver e tocar. Para mim, para todos nós, deixaram de ser inomináveis, passaram a ser bárbaros. Nada mais.

Senti uma variação no ar, um raspão no ombro. A explosão de dor que se seguiu foi inexplicável. Um punhal de titânio tinha sido, certeiramente, arremessado contra o meu desprotegido ombro. O tendão cedeu e o braço ficou inutilizado. Os devaneios que me assolaram enquanto corria poderiam ter sido os últimos aos quais teria direito.

Um riso, estridente, louco. Márcia, com o olhar envolto numa malícia desconcertante, segurava dois punhais de titânio.

Lá fora as explosões aumentavam de ritmo. O fumo envolvia todas as janelas, entrando sem ser convidada, roubando esgares e ataques de tosse a todos os que passavam.

- Porquê? – Perguntei, mais para ganhar tempo do que para ouvir uma resposta honesta que explicasse tudo. Não, essa resposta estava bem à vista no olhar demente daquela mulher com a qual tinha partilhado um ideal, refeições, amigos e, até, um orgasmo ou dois.

- Não há descanso para os fracos, Flavius – Ergueu os punhais e correu em minha direcção.

“Maldita” foi a única palavra que pensei enquanto amparava golpes ágeis e rápidos com uma espada pesada e um braço inútil. A morte estava perto. Podia sentir o seu bafo quente à volta do meu pescoço, como quem promete uma noite quente a um sem-abrigo sem esperança.

A forma como o seu cabelo se movimentava tornava a cena digna de uma espécie de sensualidade macabra que apenas os que sabem estar condenados podem disfrutar. O seu corpo, firme, suava ao longo de uma verdadeira dança perigosa e mortal.

Um corte no rosto. Um corte no peito. Sangue, sangue e ainda mais sangue. Todo meu.

Mais uma explosão, bem mais perto, fez com que ambos caíssemos. Para minha sorte, um dos punhais, voou para longe dela, equilibrando um pouco as contas.

Ataquei, pela primeira vez, arrancando uma gotas de sangue, insuficientes, para equilibrar as contas pendentes entre os dois.

Várias explosões roubaram-me o equilíbrio. Durante a queda reparei que as palavras inscritas ao longo da lâmina da espada brilhavam com o sangue de Márcia.

Sem tirar os olhos do chão soube que ela também tinha caído, aproveitei e passei um pouco do meu sangue na lâmina. Sedenta, brilhou, ficando como que mais leve, rápida e, acima de tudo, mortal.

O som dos passos fez-me tirar os olhos da lâmina e ver a traidora a correr em minha direcção. Um combate sem palavras, apenas a procura incessante da morte, nada ao estilo dos antigos filmes de Hollywood onde as palavras a mais traiam sempre o vilão.

Ergui a espada a uma velocidade surpreendente. Vi medo no seu olhar. Ataquei, uma e outra vez, como se o sangue na espada me tivesse dado as forças que o braço pendurado tinha roubado.

Uma escorregadela era tudo o que eu precisava. Com isso poderia mata-la. Era tudo o que tinha na cabeça quando a espada voltou ao peso habitual. Estava sedenta novamente, reclamando o que era seu por direito. Esta mudança foi uma brecha bem aproveitada pela loba. Uma estocada certeira perfurou-me o tronco. Desisti.

O cheiro a destruição que o ar emanava era consistente com os gritos loucos que vinham de todas as direcções. O mundo, o universo, estava perdido. Fosse quem fosse o vencedor.

Já de joelhos no chão larguei a espada. Ouvi o tilintar da lâmina no chão enquanto olhava nos olhos loucos e cruéis daquela mulher.

- Deste luta – sorriu, como se aquelas palavras fossem um prémio que eu tivesse de receber antes de ela colher o seu.

Fechei os olhos e várias imagens percorreram a minha mente. Desde o início com o Doutor ao momento em que me recordei do meu nome. Quando descobri que não passava de uma experiência nas mãos de outros. Quando fui várias coisas diferentes que não um homem, apenas para descobrir que estava a ser torturado. Tudo num flash contínuo, a morte a chegar.

Um arfar de cortar a respiração. Um jorro de sangue quente embateu na minha cara tal tinta magenta numa tela branca. Uma visão surreal.

Era como estar a ver a dobrar. Uma gémea morta por outra. O esgar louco desaparecia para dar lugar a um olhar vazio, eterno.

Apesar das dores, agravadas pela queda do corpo pesado com a morte, rastejei até à beira da Miah.

- Obrigado – sussurrei o agradecimento mais agridoce da minha vida.

Vi o seu corpo tremer, como que entrando em estado de choque. Fez o necessário, mas não deixava de estar a morrer por dentro. Primeiro ficou órfã e depois matou a irmã. Tudo em nome de uma guerra sem sentido.

Abracei o seu corpo gelado. Juntos ouvimos as explosões, os gritos, as mortes o pânico e o terror que preenchia o coração dos homens com a facilidade que o fumo intoxicava os pulmões naquele mundo à beira da destruição.

***

Olhei para a lua. A mão esquerda tremia ao segurar a caneca com o café. As dores eram horríveis, mas, sem dúvida, era um treino para restaurar alguma sensibilidade ao tendão mal tratado e mutilado. Uma lembrança de um dia que para sempre irá marcar a história do universo.

Não sabia quem tinha ganho, se alguém tinha ganho. Os sobreviventes e os mortos. Era o passado.

Virei-me para trás e vi, através da luz acesa no quarto, o corpo desnudo da loba sobrevivente. Tinha morto a própria irmã por mim. A única forma que tive de lhe agradecer foi leva-la para longe.

A nave roubada tinha aguentado o caminho e, escondidos neste pequeno planeta, teremos uma hipótese.

Voltei costas à imagem e ao que ela me fez pensar. Como seria a vida de agora em diante, não o podia saber, mas, que neste pequeno planeta verde, com uma lua avermelhada, tinha tudo o que precisava, disso tinha a certeza.

Fiquei talvez um pouco mais de uma hora a olhar pela janela. À espreita, atento, a ver se alguém nos tinha descoberto.

Senti as suas mãos a percorrer o meu peito, evitando uma das cicatrizes que recentes, senti a sua cara encostada às minhas costas, dando-me uma sensação de conforto que apenas o toque da mulher amada pode oferecer.

- Anda – disse num sussurro – Eles não vêm esta noite. – Pegou-me pela mão e levou-me até à cama. Beijou-me e deitou-se a meu lado. Adormecemos. Sonhamos, ou acordamos, nunca o saberei.
"Great minds have purposes, little minds have wishes."
– Washington Irving

 “The people who stay put don’t trust the people who don’t,” - Jedediah Berry