Autor Tópico: CONTO - Somos Aquilo que Comemos (Distopia)  (Lida 368 vezes)

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Offline Viriato93

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CONTO - Somos Aquilo que Comemos (Distopia)
« em: Janeiro 16, 2018, 10:42:52 am »


Como já se provou uma e outra vez, os modelos matemáticos moldam-se na perfeição às leis da natureza. É do saber comum as quatro forças fundamentais do Universo: o porquê dos objectos caírem em vez de se elevarem na atmosfera; ou a forma como os nossos cabelos se despenteiam na presença de um campo electromagnético forte o suficiente. Sabemos muito, mas não sabemos tudo. Tão importante como conhecer as leis fundamentais, é saber a sua origem. E foi neste sentido, durante décadas de trabalho, que o Doutor Martin Shulz procurou desvendar o mistério. No entanto, tais esforços desaguaram na descoberta de uma outra lei – Esta fundamenta-se, para surpresa de todos, naquilo a que o doutor apelidou por Lei Universal da Nutrição. Aquilo que sempre esteve mesmo por baixo dos nossos narizes, desde os primórdios da humanidade, há mais de dois milhões de anos, é também a quinta força universal, constante no tecido do espaço-tempo. Ora daqui surgiu um impasse, pois depressa os humanos depreenderam que tudo o que faziam, desde a primeira palpitação cardíaca até à cova, se regia pelo factor mais inesperado – a alimentação. Como é lógico, e por certo o próprio leitor terá já concluído, após esta descoberta, depressa a expressão “somos aquilo que comemos” adquiriu um novo sentido, tão literal como a famosa frase de Isaac Newton “what goes up, must come down”.

Foi publicado o primeiro artigo, divulgando ao publico a nova Força Fundamental. Os estados de todos os países do planeta apressaram-se a criar as suas próprias leis em concordância com a descoberta. Tal veio alertar a humanidade para um facto de extrema importância e que desafiava os sentidos tridimensionais. O primeiro caso a confirmar as suspeitas surgiu na primeira página de todos os jornais do mundo no dia seguinte com a mesma imagem: um feijão em cima de uma cadeira. Não fosse a legenda com letras gordas tão alarmante, talvez esta tivesse arrancado sorrisos e gargalhadas de muitos leitores. Mas o caso não era para brincar.

CRIANÇA TRANSFORMA-SE NUM FEIJÃO

Assim, tão simples que quase podia tratar-se de uma anedota. Mas após uma leitura mais detalhada, verificava-se o seu contrário. Nas palavras da própria mãe da criança, transcritas para o jornal “Num segundo ele estava ali, a seguir já não estava”. As greves de fome multiplicaram-se exponencialmente, quase como se tambem estas seguissem uma Lei Natural. O que, de certa forma, não andava muito longe da verdade – era a Lei da Sobrevivencia a entrar em campo. Tal desencadeou comunicados por parte das instituições de saude, cada vez mais paradoxais: Num dia afirmavam a necessidade de uma alimentação rica em nutrientes para o corpo; no dia seguinte (por vezes na própria tarde do mesmo dia) renunciavam o conselho dado anteriormente. No site oficial da OMS chegou mesmo a ler-se “É importante para o ser Humano que este não se alimente”. Tal gerou o panico no mundo inteiro. As noticias de novas transformações sucediam-se de forma vertiginosa e não havia solução à vista para o problema.

Foi aliás, de forma bastante peculiar, que a família Moriarty lidou com a situação. Reunidos em torno da mesa da sala, a mesma mesa onde haviam comido as refeições desde que havia memória, olhava cada um para o prato que tinham à frente. Por aquela altura, qualquer peça de roupa lhes ficava larga e os ossos dos ombros pareciam cabides. As palavras do avô, o mais velho, e por isso o mais experiente, eram suseranas:

- É preciso que haja um sacríficio.

E todos acenaram com as cabeças pois não havia ninguém cujo estômago pudesse discordar. Era sabido por quase toda a família de que sacrifício falava o avô: o assunto havia sido discutido vezes sem conta e agora, o assunto seria literalmente posto em cima da mesa.

E foi rápida a forma como tudo se desenrolou. O senhor Colin ergueu-se de uma só vez, com determinação espelhada no olhar, e do cinto produziu uma faca de cortar carne, daquelas que só se viam nos talhos ( quando as pessoas ainda comiam, e os talhos ainda estavam abertos). A lamina brilhou à luz das velas colocadas ordeiramente sobre o tampo da mesa e James, o pequeno e único filho do casal Moriarty, desatou a chorar; porque tinha fome ou pela ressaca evolutiva de ver alguém com uma arma bem erguida por cima da sua cabeça, ninguém sabe dizer. A faca desceu tão depressa sobre o braço de James que o corte não deixou margem para duvidas do que tinha acontecido. Não houve necessidade de uma segunda golpada para que o bracinho se separasse do corpo. Os gritos intensificaram-se. A mãe do menino baixou os olhos, chorou muito, mas a fome era maior. A faca voltou a subir e a descer em diferentes partes do pequeno James. Ao terceiro golpe os gritos morreram. As partes foram divididas pelos pratos – O avô, o mais velho, e por isso o primeiro a ser servido, colocou um guardanapo por cima da camisola e após uma breve oração, abriu os olhos e disse a todos os presentes:

- Bom apetite.