Autor Tópico: A Conspiração dos Antepassados  (Lida 11947 vezes)

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Offline RuiBaptista

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Re: A Conspiração dos Antepassados
« Responder #15 em: Junho 30, 2010, 20:16:05 pm »
Gosto imenso dos livros do David Soares e este, é para mim o meu favorito.

Offline ruiramos

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Re: A Conspiração dos Antepassados
« Responder #16 em: Junho 30, 2010, 20:21:55 pm »
Tenho curiosidade em relação ao resto da obra dele, em especial, o Evangelho do Enforcado. Vamos ver.

Offline RuiBaptista

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Re: A Conspiração dos Antepassados
« Responder #17 em: Junho 30, 2010, 20:23:23 pm »
Tenho curiosidade em relação ao resto da obra dele, em especial, o Evangelho do Enforcado. Vamos ver.

Apesar do que já referiste, vale mesmo a pena ler os outros dois romances (e outros furutos  ;))

Offline Inverno

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Re: A Conspiração dos Antepassados
« Responder #18 em: Julho 02, 2010, 00:02:27 am »

Do David Soares, primeiro li o Ossos... e gostei, depois passei para este.

Nota-se que há um grande trabalho de pesquisa por trás, e gostei das bizarrias que ele pôs na estória, como as peculariedades do Crowley e os louva-a-deus. Ah! E ler sobre o Pessoa é sempre um prazer.

Fiquei orgulhosa por um autor português se aventurar no domínio do fantástico, ser bem sucedido e ter o apoio de uma editora como a SdE; é um género que merece muito mais divulgação e edição, e sei que há muitos autores lusos que merecem ser descobertos.


 
A literatura é luxúria; a ficção é uma necessidade. (G.K. Chesterton)

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Offline Thanatos

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Re: A Conspiração dos Antepassados
« Responder #19 em: Outubro 02, 2010, 01:39:20 am »
Estou a chegar ao fim deste livro e que posso dizer? Parece-me existirem dois David Soares, o dos contos grand guignol de Os Ossos do Arco-Íris e outros avulso e o de contos como O Elefante e o Cavalo e este romance. Um David Soares erudito, denso, que nos obriga a entrar num universo que de tão real se torna palpável mas que, paradoxalmente a tempos assume contornos místicos como se espreitássemos para outra dimensão por um espelho mágico. Assim como um viver na fronteira entre o real e o onírico.

Acho lamentável que a sinopse da contra-capa remeta o romance para o entulho do comboio Dan Brown como termos como "thriller", "conspiração", "seita" e "terrível segredo para justificar tanto sangue". É uma sinopse extremamente redutora do gigantismo deste romance. Para quem tenha, mesmo que apenas de raspão, interesse pela filosofia, maçonaria, ocultismo, literatura, Pessoa, Magia, arcanismo, história, este romance é tudo isso e muito mais.

Apenas aqui e acolá algumas ligeiras imprecisões sobre ritos iniciáticos (talvez propositadas), algumas frases menos prováveis (aglutinação de matéria e anti-matéria, por exemplo), uma ou outra incorrecção na toponímia lisbonense da época e um alemão simplesmente abismal, mancham este romance mas nada que não passe de meros trívias.

Offline Thanatos

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Re: A Conspiração dos Antepassados
« Responder #20 em: Outubro 03, 2010, 21:57:01 pm »
Aqui deixo a minha derradeira opinião sobre o romance:

O tema principal deste romance é o mito do quinto-império e do sebastianismo, no entanto Soares não entra logo de cabeça no tema – tirando o prólogo alegórico que será quase incompreensível nessa altura do romance, condizendo com as suas características iniciáticas –  preferindo apresentar os protagonistas capítulo a capítulo. Assim o capítulo um, 'Pela Palavra Receberás a Luz', é dedicado a Fernando Pessoa, às suas neuroses, aos seus heterónimos, à sua compulsão ocultista e à não aceitação da recente morte da mãe, facto que o leva a entrar em contacto com uma figura que terá adiante um papel mais preponderante no mistério que ensombra o romance. Este capítulo fará as delícias de qualquer pessoano, quer pelo aturado trabalho de investigação sobre a figura e a Lisboa da década de 20, quer pela mescla de realidade e ficção que de tão bem entrosada nos acredita ler-mos uma biografia meticulosa da personagem. Embora eu não considere Pessoa a personagem principal deste romance, esse papel penso pertencer por completo a Aleister Crowley, não posso deixar de saudar Soares na forma erudita, competente e verosímil que imprime à época com apontamentos deliciosos como a vida boémia de cafés, restaurantes, ruas e travessas duma Lisboa que ainda hoje subsiste para quem a sabe olhar.

No segundo capítulo, 'O Feiticeiro da Terra das Sombras', somos apresentados a Aleister Crowley já na altura uma figura importante nos círculos de Magia da época. E encontramo-lo em La Marsa com o pequeno séquito de adoradores composto da mulher escarlate da altura, Olsen e Billy Barron, pleno de dúvidas e querendo recuperar o 'caminho mágico perdido'. Aleister é uma personagem bastante diferente do ensimesmado Pessoa. Maior que a vida, dado a acessos de fúria, em constante procura de atenuar o desejo sexual, enfim vivendo pela sua própria lei que se poderia resumir na frase 'faz aquilo que a tua vontade manda e que isso seja a súmula da lei', Crowley passa por vários percalços que o levam a cruzar destinos com Pessoa em Portugal. Soares adopta uma voz diferente neste capítulo conseguindo dessa forma a raro feito nas letras nacionais de imprimir características próprias a diferentes personagens. Este capítulo adensa um pouco mais o mistério por via das alucinações ou visões de Crowley usando Soares do estratagema de dar a saber mais ao leitor do que à personagem como são exemplo disso as várias menções à Íbis. É uma ferramenta literária que em mãos menos experientes poderia soar forçada mas que Soares domina na perfeição. Sem nunca martelar o leitor com ela vai semeando as pistas à boa maneira dum verdadeiro contador de histórias que espera da sua audiência uma participação maior do que a habitual passividade. Este capítulo acaba assim por ser um manancial de pistas e sinais a necessitar dum esforço suplementar do leitor para as descodificar, se assim quiser, ou apenas aceitar as revelações conforme elas ocorram. Ambas as posturas não deitam abaixo o cuidado edifício literário erguido por Soares.

O terceiro capítulo, 'Arcadia' é o capítulo do desvelar da verdadeira trama do romance. Nele assistimos ao encontro entre Crowley e Pessoa em que ao entusiasmo de Crowley se antepõe o cepticismo racional de Pessoa. Acaba por ser um capítulo transicional onde se misturam as vozes dos anteriores capítulos. Escrito num tom mais urgente o enredo adensa-se e o mistério surge revelado por interpostas acções das personagens. Excelente caracterizador da cidade de Lisboa, Soares imprime um potencial cinético ao romance que adivinha o clímax – quase orgiástico diria, à boa maneira crowleiana – que se seguirá.

No capítulo quatro, 'Ritos de Sangue', viajamos temporalmente para conhecermos uma outra personagem, Francisco d'Ollanda, o último dos Arquitectos, que dando seguimento à conspiração do título pratica um acto que terá repercussões no futuro. Sem querer estragar o prazer dos futuros leitores direi apenas que é neste início de capítulo que entendemos a génese do que, à falta de melhor termo, eu designaria pelo projecto Filho da Lua. Aqui começam a entrosar-se os mitos do quinto-império, do sebastianismo e da pretensa glória futura de Portugal. Adiante no capítulo somos introduzidos a uma deturpação doss ritos iniciáticos maçónica na figura Sociedade dos Trezentos, onde a já nossa conhecida figura do Barão de Teive do primeiro capítulo é confrontado com os verdadeiros Poderes. Soares termina o capítulo em grande forma com a descrição ficcional do conhecido 'suicídio' de Crowley na Boca do Inferno. Mais uma vez Soares adopta diferentes vozes para diferentes situações conseguindo um conjunto harmonioso quer estética, quer literáriamente falando sem cair no atabalhoamento de ideias, conceitos e descrições que por vezes enfermam alguma da sua matéria escrita que se pode encontrar na antologia 'Ossos do Arco-Íris', que curiosamente é aqui referida como ideia de ponte espiritual. Isto denota um real amadurecimento enquanto escritor de Soares, sendo que me parece que encontrou o seu estilo pessoal, mais moderado no gore e mais erudito no tratamento temático.

Na minha leitura é o capítulo cinco, 'O Buraco no Céu', o derradeiro capítulo onde Crowley, auto-exilado em Daath, compreende, finalmente, o absurdo que aguarda a Sociedade de Trezentos, na sua espera do Messias. A queda no Abismo, tema fulcral em quase toda a literatura é aqui tratada literalmente. Este capítulo-charneira estabelece a ponte definitiva com o prólogo sendo também ele escrito duma forma semi-alegórica que a mim teve o condão de me despertar memórias de três romances distintos no tema mas que à leitura deste capítulo de alguma forma se associaram no meu espírito, sendo eles Flatland de Edwin A. Abbott, The House on the Borderland de William Hope Hodgson e The Worm Ourobouros de E.R. Eddison. Sendo que nenhum deles tem grandes pontos de contacto é, contudo, a prova da capacidade exímia nas descrições doutras dimensões e planos de Soares. Um capítulo importantíssimo na compreensão do romance e que deve ser lido com atenção aos variados sinais simbólicos que nele se inscrevem duma forma tão subtil que podem até passar inconscientemente despercebidos.

O romance encerra-se com os destinos finais (?) de algumas personagens que o marcaram, Pessoa, Teive, e, naturalmente, Crowley, deixando na sua esteira uma miríade de reflexões por quem deseje aprofundar o tema das conspirações, dos mitos, do ocultismo, dos rituais maçónicos e do que move a alma lusitana no seu tão arreigado complexo de saudosismo inerte. Uma obra-prima de investigação e erudição, plasmada duma forma ficcional para melhor aceitação das moles, não tenho problemas em recomendar altamente este romance extraordinário, que penso será recordado no futuro das nossas letras como um dos marcos do início deste milénio. Assim o queiram as vontades.

Offline Fiacha

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Re: A Conspiração dos Antepassados
« Responder #21 em: Outubro 06, 2010, 19:43:26 pm »
A Conspiração dos Antepassados - Crítica no blogue Morrighan
 
David Soares traz-nos neste romance uma perspectiva fundamentada por um estóico trabalho de investigação, ainda que com um toque subjectivo e pessoal, sobre a vida de duas personalidades e personagens que marcaram o século vinte: Fernando Pessoa e Aleister Crowley (diz-se cráuli!), fabricando no caldeirão da palavra um livro que se sabe envolver e desenvolver e que nos sabe entreter, pelo seu ritmo, pelos pormenores deliciosos e pela qualidade da escrita e da narrativa, na qual são misturados elementos mágicos, mitologia de vária índole (sempre com o Quinto-Império como ponto comum), lenda e factos históricos. Deixando de parte o Prólogo, que dá o mote para o desenvolvimento e que só é compreendido numa fase avançada, nos dois primeiros capítulos o autor caracteriza primeiro Pessoa e depois Crowley, respectivamente. Entre fetiches macabros, onanismo, traumas maternais, rituais mágicos bastante anais, coprofagia e abusos físicos e psicológicos, somos levados numa viagem sensorial bastante intensa. Com uma escrita rica, diversificada e bastante descritiva (crua e sem eufemismos), são-nos mostradas as motivações e o íntimo de cada protagonista. A partir do terceiro capítulo o livro embala definitivamente, ganhando um novo andamento com o encontro entre Pessoa e Crowley e o desenvolvimento da trama, que se baseia em interesses comuns entre os dois protagonistas e que tem a sua génese num... Horóscopo. A narrativa é bastante fluida, o conteúdo histórico é relevante e interessante (e aplicado em doses q.b.) e, no geral, o livro tem um ritmo bom, embora por vezes demasiado constante, que, no entanto, é compensado pelos vários one liners geniais, de um humor negro subtil e inteligente. No geral, uma boa mensagem, da qual podemos desconfiar um pouco ao início, mas que nos compensa (e muito) com o virar de cada página.

Para seguir no blogue Morrighan.
 
http://branmorrighan.blogspot.com/2010/09/opiniao-conspiracao-dos-antepassados-de.html
Livro a ler: O Cavalo de Outubro de Collen McCuloough 6º volume da saga 1º Homem de Roma

Offline Fernando Pinheiro

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Re: A Conspiração dos Antepassados
« Responder #22 em: Maio 30, 2011, 15:15:42 pm »
Gosto muito deste Aleister Crowley de David Soares.Bastante semelhante ao verdadeiro.  Incrível.  Está escrito com muita Vontade.
Brevemente Diábolos, o Rapaz-Diabo.

Silent Hill 2 é o melhor videojogo de Fantástico.

Dentro de cada um de nós existe um animal prestes a ser despertado.

Salazarismo e Extrema-direita Sucks -.-'

Offline umbrae

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Re: A Conspiração dos Antepassados
« Responder #23 em: Julho 18, 2012, 22:52:50 pm »
O romance prendeu-me logo nas primeiras páginas com um retrato vivo de Fernando Pessoa.

Todo o mundo está muito bem reconstruído historicamente, no entanto, é quando entramos na fantasia que o livro perde parte da sua força.

A conspiração é demasiado dispersa e parece mais apenas uma desculpa para falar em temas que encaixam bem na história. Não satisfaz a resolução. :-\

No entanto, gostei muito da razão especulada para D. Sebastião perder a batalha tão facilmente.