Autor Tópico: O Evangelho do Enforcado  (Lida 17242 vezes)

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Offline RuiBaptista

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #30 em: Junho 04, 2010, 17:24:21 pm »
Uma pequena chamada de atenção  :)

O (excelente) texto é da autoria da Cláudia Sérgio e tem mais parágrafos, do que o texto colocado aqui no fórum dá entender. Já mais publicaria uma massa de texto como aquelas...


Offline ruiramos

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #31 em: Junho 16, 2010, 07:24:52 am »

Só para te despertar interesse, gostei mais do livro A Conspiração dos Antepassados ;)

Podes dizer-me porquê?

Pois não achei grande graça à Conspiração e se este não é melhor, perco a curiosidade relativamente ao Evangelho.

Não me interpretes mal, o David tem um grande domínio da língua portuguesa e imensos conhecimentos esotéricos (temática que eu adoro), e acima de tudo um grande construtor de personagens, mas no meio de tanto exibicionismo cultural, linguístico/gramatical, perdeu-se o mais importante: a história que ele queria contar (estou a falar da Conspiração). As personagens estavam lá, mas não havia grande história para as motivar.

Senti que houve um desequilíbrio na narrativa, gastava demasiados recursos em pormenores (em particular nos escatológicos) ao ponto de perder o leitor quanto ao objectivo da história. Quantas vezes me questionei: afinal porque motivo comprei este livro? Acho que li duas vezes o resumo da contra-capa para me lembrar. E no final, senti que fui um tanto ou quanto enganado.

Perdeu imenso tempo a descrever Lisboa e quase nenhum a descrever a Quinta da Regaleira, ou mesmo a outra dimensão. Confesso que achei mesmo uma grande desilusão a passagem na Quinta, um dos sítio mais fenomenais de Portugal! Há quem vá a Fátima, eu vou à Quinta da Regaleira em busca de inspiração e algo mais. O David no mínimo podia ter feito jus aos encantos daquele lugar mágico.

Compreendo que ele goste de Lisboa, mas pronto, há mais terras no mundo que merecem os seus dotes descritivos. No mínimo mereciam igual atenção.


Senti que A Conspiração era um misto de enciclopédia esotérica, livro de receitas de culinárias, de masturbação e sexo e roteiro de Lisboa.

Esperava sinceramente que o Evangelho fosse melhor mas dizes que não.

Enfim, esta é só a minha humilde e controversa opinião. Faço-a agora, por que sei que o David já é um nome bem alicerçado no panorama nacional, por isso, em nada vou comprometer o seu sucesso. Espero sinceramente que ele continue a somar êxitos e que um dia eu possa vir a apreciar um dos seus livros.

Offline Fiacha

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #32 em: Junho 17, 2010, 01:32:58 am »
Rui,

É meramente uma opinião pessoal, talvez o Envangelho te encha mais as medidas ;)
Livro a ler: O Cavalo de Outubro de Collen McCuloough 6º volume da saga 1º Homem de Roma

Offline ruiramos

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #33 em: Junho 17, 2010, 01:44:08 am »
Rui,

É meramente uma opinião pessoal, talvez o Envangelho te encha mais as medidas ;)

É exactamente essa opinião pessoal que eu gostava de ler :)

Se me dissesses o que preferias num em relação ao outro: temática, história, escrita, sei lá, talvez pudesse ter uma ideia mais sólida quanto ao Evangelho.

Offline Fiacha

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #34 em: Junho 17, 2010, 01:54:40 am »
O tipo de escrita é o mesmo, nisso o David é excelente.

Agora achei muito original o enredo do livro anterior, ao acompanharmos as aventuras do Pessoa e do evoluir do personagem a Besta.

Depois gostei da parte fantástica, algo que neste volume não é tão bem explorado e não me cativou tanto como os elementos do livro anterior.

Este livro quanto a mim demorou um pouco a "arrancar" e só se torna uma leitura empolgante mais para o final do livro.

É verdade que com isso as personagens são melhor caracterizadas e exploradas mas perde-se muito tempo com isso.

Depois o enredo até é bem pensado, mas o da Conspiração dos Antepassados cativou-me mais.



Livro a ler: O Cavalo de Outubro de Collen McCuloough 6º volume da saga 1º Homem de Roma

Offline ruiramos

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #35 em: Junho 17, 2010, 03:16:05 am »
O tipo de escrita é o mesmo, nisso o David é excelente.

Agora achei muito original o enredo do livro anterior, ao acompanharmos as aventuras do Pessoa e do evoluir do personagem a Besta.

Depois gostei da parte fantástica, algo que neste volume não é tão bem explorado e não me cativou tanto como os elementos do livro anterior.

Este livro quanto a mim demorou um pouco a "arrancar" e só se torna uma leitura empolgante mais para o final do livro.

É verdade que com isso as personagens são melhor caracterizadas e exploradas mas perde-se muito tempo com isso.

Depois o enredo até é bem pensado, mas o da Conspiração dos Antepassados cativou-me mais.

Obrigado pela tua opinião, meu caro. :)

Esclareceste-me plenamente e confirmaste as minhas suspeitas.

Basicamente o que descreves para o Evangelho é o que eu senti com a Conspiração:

extensa caracterização das personagens,
escrita excelente (de fazer inveja a muitos :) ),
demora a arrancar com a história, perdendo tempo com pormenores que nem sempre contribuem para o seu desenvolvimento e depois despacha as revelações e o final.

De todos os livros que li onde a Besta era personagem, a Conspiração é o que apresenta a versão mais credível, pelo menos a mais fascinante. :)

A Conspiração tem tudo para ser um excelente livro, a ideia é boa, as personagens também, mas a história ficou aquém (pelo seu desequilíbrio e rumo dos acontecimentos), pelo menos para mim.

Estava à espera de mais. :/

Parti com expectativas muito altas após ter lido o resumo.

 Como já disse: Quinta da Regaleira, conspirações, esoterismo, são temáticas que alimentam o meu imaginário. A minha imaginação antecipou-se, construindo outras possibilidades.
Quando acabei o livro fiquei desiludido com o rumo que ele seguiu, para além de ser diferente do que esperava, a surpresa guardada na Conspiração não foi suficientemente fascinante.
No final, senti-me enganado pelo resumo do livro.

Acho que podemos resumir essa desilusão a uma diferença de sensibilidades entre nós, entre aquilo que achamos que deve ser uma história e aquilo que a torna apelativa.

A coisa boa do livro foi ter-me despertado o interesse por Fernando Pessoa.

Agora que sei como são as regras de construção de histórias do David Soares, não voltarei a ficar desiludido com os seus livros.

Mais uma vez, obrigado pelo esclarecimento Fiacha.

Offline Fiacha

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #36 em: Junho 17, 2010, 03:37:21 am »
(...)
Mais uma vez, obrigado pelo esclarecimento Fiacha.

Nada de agradecimentos Rui, apenas te dei o que me pediste e da melhor maneira que sei.... ;)
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Offline Fiacha

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #37 em: Julho 29, 2010, 05:36:09 am »
O Evangelho do Enforcado - Crítica no blogue OF Blog of the Fallen

http://ofblog.blogspot.com/2010/07/david-soares-o-evangelho-do-endorcado.html
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Offline ruiramos

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #38 em: Julho 29, 2010, 18:02:45 pm »
Boa crítica, fiquei mais inclinado a ler esta obra. :)

Offline RuiBaptista

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #39 em: Julho 29, 2010, 19:06:41 pm »
Boa crítica, fiquei mais inclinado a ler esta obra. :)

Já devias ter lido   ;)

Offline ruiramos

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #40 em: Julho 29, 2010, 19:20:13 pm »
Boa crítica, fiquei mais inclinado a ler esta obra. :)

Já devias ter lido   ;)

:)

Tenho muita coisa na lista de espera. Esse terá que esperar mais uns tempos.

Offline Fiacha

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #41 em: Agosto 16, 2010, 17:07:16 pm »
Mais uma critica ao livro:

 O Evangelho do Enforcado é a simbiose perfeita do romance histórico com o Fantástico! O início da leitura foi atribulado.Caí na Idade Média portuguesa e fui atingida pela sua brutalidade, pela ignorância das gentes, pela superstição reinante e pela vida paupérrima. As cores e os cheiros do século XV causam estranheza e até repulsa porém, houve algo que me impeliu a continuar. O estilo muito próprio de David Soares. Uma escrita fabulosa que narra a história do provável autor dos chamados Painéis de S. Vicente, Nuno Gonçalves. O pintor é retratado como um psicopata. Maravilha-se com a morte e com tudo o que a rodeia desde da infância. Todavia, um encontro com uma identidade "sobrenatural" enchê-lo-á de terror. Abandona Embraçadura, a aldeia onde nasceu e segue para Lisboa. Além de Nuno Gonçalves, outras figuras históricas da época são abordadas de maneira pouco convencional como por exemplo, a Ínclita Geração composta por Eduarte, Pedro, Henrique, Isabel e Fernando. David Soares destrói a imagem ideal e torna-os mais humanos, cruéis, ávidos, são desnudados de tudo o que é perfeito na realeza. A transformação do infante D. Henrique num homem preverso e manipulador pode chocar e revoltar alguns.Porém, esta dinâmica crua é estranhamente cativante. No centro, continua a estar o famoso painel que influenciará o rumo da História. A arte é a única coisa que é capaz de vencer de morte. Capaz de vencer a morte e de imortalizar o autor, Nuno Gonçalves. A par desta famosa obra, ele dedica-se a outro trabalho que acredita ser o seu melhor. É um livro duro que quebra as linhas outrora, certas da História. Dogmas, previamente estabelecidos, são estilhaçados e tudo o que julgávamos ser verdade, é mentira. Aquela repugnância inicial que senti, desapareceu à medida que avançava e acabei por adorar este registo diferente do Evangelho do Enforcado. Até na última página do romance, foi surpreendida com o surgir de um rapazinho chamado Diogo Boytac que Nuno Gonçalves aconselha.Um encontro entre dois personagens que ficaram imortalizados pela sua arte!


Para seguir no blogue Os Devaneios da Jojo.:

http://devaneiosdajojo.blogspot.com/2010/08/o-evangelho-do-enforcado-de-david.html
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Offline canochinha

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #42 em: Outubro 08, 2010, 03:01:21 am »
Aqui fica a minha opinião, publicada originalmente aqui: http://www.estantedelivros.com/2010/10/o-evangelho-do-enforcado.html

Do escri­tor por­tu­guês David Soa­res, já tinha lido o Lis­boa Triun­fante, de que na altura gos­tei bas­tante. O seu romance seguinte, O Evan­ge­lho do Enfor­cado, tem tido crí­ti­cas muito posi­ti­vas em vários blogs que con­sulto e por isso foi com as expec­ta­ti­vas em alta que parti para esta leitura.

Em linhas gerais, trata-​se de um livro que pre­tende des­ven­dar um pouco do que esteve por trás da exe­cu­ção e con­cep­ção dos famo­sos Pai­néis de S. Vicente, com data de pin­tura esti­mada para mea­dos do século XV, na época pré-​Descobrimentos, e onde figu­ram as três prin­ci­pais clas­ses: povo, clero e nobreza. Actu­al­mente, os Pai­néis encontram-​se no Museu Naci­o­nal de Arte Antiga e sem dúvida que a minha curi­o­si­dade em vê-​los aumen­tou bas­tante após a lei­tura deste livro.

A per­so­na­gem cen­tral da his­tó­ria é o pre­su­mí­vel pin­tor dos Pai­néis, Nuno Gon­çal­ves. Acom­pa­nha­mos o seu cres­ci­mento e desen­vol­vi­mento, até se tor­nar pin­tor do reino e ter exe­cu­tado a sua obra mais conhe­cida. Como existe muito pouca infor­ma­ção sobre a sua vida, o autor apro­vei­tou para “con­tar” a sua ver­são, sem­pre tendo em aten­ção o con­texto his­tó­rico em que o enredo se desen­volve. E é tam­bém na carac­te­ri­za­ção e na nar­ra­ção dos acon­te­ci­men­tos que acom­pa­nham a vida de Nuno Gon­çal­ves que o romance adquire con­tor­nos fantásticos/​de hor­ror. Nuno demons­tra desde cedo ten­dên­cias necró­fi­las, o que dá azo a vários momen­tos gore, que pode­rão impres­si­o­nar os mais sen­sí­veis. Sem­pre pre­sente tam­bém é a morte, ele­mento enca­rado com uma certa natu­ra­li­dade na época descrita.

Ao mesmo tempo que segui­mos Nuno, vamos tam­bém acom­pa­nhando as vicis­si­tu­des que rodeiam as prin­ci­pais figu­ras do Reino, a Ínclita Gera­ção, que ganhou este epí­teto pela (suposta) grande con­tri­bui­ção para o desen­vol­vi­mento da nação e da sua visi­bi­li­dade mun­dial. Digo suposta por­que o livro mostra-​nos estas per­so­na­gens de forma bas­tante dife­rente da per­cep­ção geral — prin­ci­pal­mente D. Duarte I (no livro cha­mado Edu­arte; des­co­nheço se Duarte é uma actu­a­li­za­ção desse nome) e o Infante D. Hen­ri­que. Este último é apre­sen­tado como um homem ambi­ci­oso, irres­pon­sá­vel e com ten­dên­cias homos­se­xu­ais. De uma forma resu­mida, deparamo-​nos com esta parte da His­tó­ria de Por­tu­gal con­tada de uma forma bem dife­rente daquilo que nos ensi­nam na escola, o que me agra­dou par­ti­cu­lar­mente por­que sou da opi­nião que as fac­tos his­tó­ri­cos que nos são trans­mi­ti­dos enquanto cres­ce­mos estão algo detur­pa­dos e sofrem do mal do unilateralismo.

Tenho a dizer que fiquei impres­si­o­nada pelo nível de deta­lhe his­tó­rico e do notó­rio tra­ba­lho de pes­quisa que ser­vem de base à his­tó­ria que o livro nos apre­senta. O autor mos­tra um domí­nio quase per­feito sobre as carac­te­rís­ti­cas da soci­e­dade por­tu­guesa do final da Idade Média, o que empresta ao livro uma sen­sa­ção de vero­si­mi­lhança notá­vel, pelo nível de rigor neces­sá­rio para o alcan­çar. Os Apon­ta­men­tos Finais são muito inte­res­san­tes e mos­tram ao lei­tor um pouco da pes­quisa efec­tu­ada e vários deta­lhes his­tó­ri­cos e outros rela­ci­o­na­dos com a cons­tru­ção do enredo.

Para mim, o único senão deste livro foram as des­cri­ções dema­si­ado grá­fi­cas dos ele­men­tos de hor­ror, que con­fesso me terem dei­xado des­con­for­tá­vel algu­mas vezes, mas já com­pre­endi, até pela lei­tura ante­rior, que é este o estilo do autor. Fora isso, considerei-​o uma exce­lente lei­tura.

4/​5 — Gos­tei Bastante

Offline Fiacha

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #43 em: Dezembro 16, 2010, 00:06:57 am »
O Evangelho do Enforcado - Crítica no blogue The Tale of the Bamboo Cutter
 

Este é um daqueles livros que não pode ser comprado nem lido por engano. Se o forem ler pensando que estão perante algo que não é e forem avessos a "novas experiências", o mais certo será nem passarem das primeiras páginas. Nota-se que David Soares tem prazer em escrever e que o faz para quem gosta de o ler - alicerçando assim um estilo muito sui generis (pouco avesso a aspectos comerciais) e uma relação especial com os leitores. Prova disso é a escrita meticulosa (um crivo, portanto) e características como as passagens em latim - neste caso atrevo-me a extrapolar: o latim surge como um "código restritivo" usado pelo autor de forma consciente e que não é meramente justificado pela época retratada. Pretende-se que seja realmente uma barreira que apenas alguns poderão transpor - é para eles o livro e não para os que não entendem o "código". Para ler David Soares também é preciso algum background que permita uma interpretação menos óbvia da simbologia que, caso contrário, não passará de um incompreensível acessório. O livro O Evangelho do Enforcado mergulha com mestria no mundo que ilustra, revelando as sombras que as personagens ocultam no vulgar imaginário. No entanto, talvez para alguns essa "ânsia de negra e bruta autenticidade", acabe por transbordar, mediante a sensibilidade individual de cada leitor. Aqui teremos de recordar o estilo da obra e a época retratada. Atenção que não sou apologista de realismos excessivamente "negros" apenas para chocar (ou estar na moda) ou de meras dicotomias bicolores. É preciso recordar que, ao contrário do que (em especial) o cinema nos tenta convencer, a Idade Média não foi nenhum estendal de virtudes cavalheirescas. E se o papel das mulheres neste livro afronta os meus ideais, isso é plenamente natural e justificável - detesto a Idade Média e o papel de "vergonhosa Eva/Madalena fornicadora - mero sub-produto da mitologia patriarcal" que quase todas as mulheres carregavam. Anne de Beaujou e Joana d'Arc foram algumas das poucas excepções e veja-se como a última acabou! Era assim e não há como contornar essa realidade. As personagens e os cenários são bastante credíveis. Existe um omnipresente gosto pelo detalhe que faz a obra transpirar um realismo pulsante, sempre muito bem combinado com os elementos do Fantástico. Pessoalmente preferi as temáticas dos livros anteriores, mas isso não me impede de constatar que este é um excelente livro, um elixir que (mesmo sendo agridoce) alguns deviam tomar para variar, pelo menos por uma vez, da dieta lollypop.

Para seguir no blogue The Tale of the Bamboo Cutter.

http://andreiatorres.wordpress.com/2010/12/14/curtas-por-andreia-torres-o-evangelho-do-enforcado/
Livro a ler: O Cavalo de Outubro de Collen McCuloough 6º volume da saga 1º Homem de Roma

Offline Fiacha

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Re: O Evangelho do Enforcado
« Responder #44 em: Março 04, 2011, 04:35:37 am »
O Evangelho do Enforcado - Crítica no blogue bué de livros
 

O Evangelho do Enforcado combina habilmente História e fantasia. Tendo como pano de fundo as circunstâncias em que foram criados os Painéis de S. Vicente de Fora, começa por acompanhar a vida do pintor que lhes deu vida, Nuno Gonçalves, e entrecruza-se com o período que marcou o início dos Descobrimentos portugueses.

Permitindo-se inúmeras liberdades criativas (ser-me-á impossível voltar a olhar a figura do Infante D. Henrique - votado como o 7.º dos Grandes Portugueses - e de toda a ínclita geração da mesma forma depois desta leitura), David Soares retrata as gentes e a Lisboa do século XV com bastante crueza e não menos erudição.

O início da leitura não é fácil, sendo que a narrativa desperta alguma repulsa, mas quebrada essa barreira, o virar de páginas torna-se compulsivo, ao que ajuda a galeria de personagens verdadeiramente rica e electrizante, com vários nossos conhecidos dos livros do preparatório: Mestre d'Avis, Filipa de Lencastre, Infante D. Henrique, D. Afonso V, etc.

As anotações finais do autor são bastante úteis, permitindo perceber melhor algumas nuances introduzidas (o pão roxo, por exemplo) e confirmando o imenso trabalho de pesquisa por detrás do romance.

Uma leitura recomendadíssima, não só por ser de um autor português mas porque é um bom livro dentro do género e do melhor que se faz (escreve) em Portugal.

Não leva mais estrelas porque achei que a acção acabou algo abrupta, sem um real remate.

Para seguir no blogue bué de livros
   
http://a-minha-estante.blogspot.com/2011/02/o-evangelho-do-enforcado.html
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