Fórum da Colecção Bang!

DAVID SOARES => A Luz Miserável => Tópico iniciado por: Safaa_Dib em Novembro 16, 2010, 18:40:46 pm

Título: A Luz Miserável
Enviado por: Safaa_Dib em Novembro 16, 2010, 18:40:46 pm
(http://static.saidadeemergencia.com/images//products/thumbs/LuzMiseravel_150_229.jpg)


O horror está de volta.
Nestas três histórias, David Soares (O Evangelho do Enforcado, Lisboa Triunfante, A Conspiração dos Antepassados) apresenta imagens de luz e trevas que não deixarão ninguém indiferente. Do ambiente exótico de A Sombra Sem Ninguém, passando pelos interiores claustrofóbicos de A Luz Miserável, até à extravagância macabra de Rei Assobio, prepare-se para conhecer personagens inesquecíveis, como um homem "quase" invisível, três soldados amaldiçoados e um velhote mutilado e vingativo. Do suspense ao splatterpunk, A Luz Miserável é um livro de contos provocadores, diabólicos e literários. Uma viagem vertiginosa ao lado negríssimo da imaginação.


Já nas livrarias!

Quem teve a oportunidade de assistir à apresentação no Fórum Fantástico, sabe que é um livro que não pode perder! ;)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Fiacha em Novembro 16, 2010, 21:06:53 pm
(....)Já nas livrarias!

Quem teve a oportunidade de assistir à apresentação no Fórum Fantástico, sabe que é um livro que não pode perder! ;)

Por acaso gostei muito de assitir à apresentação do livro e deve ser muito interessante.

Apenas o achei pequeno :D
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Madahtahi em Novembro 19, 2010, 18:01:36 pm
O meu já chegou, e, apesar de o ter encomendado logo (mais ou menos) que foi colocado no site não veio autografado... Deve vender que nem ginjas.
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: RuiBaptista em Novembro 20, 2010, 19:36:04 pm
E aqui fica o link da crítica (muito interessante) da autoria da Alforat.

http://belalugosiisdead.blogspot.com/2010/11/critica-luz-miseravel.html


Eu comecei a ler há pouco o livro do Afonso Cruz, que está a deliciar-me, e depois então vou ler o do David. A crítica da Cláudia deixou-me ainda mais em pulgas :)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Alforat em Novembro 22, 2010, 03:02:21 am
E aqui fica o link da crítica (muito interessante) da autoria da Alforat.

http://belalugosiisdead.blogspot.com/2010/11/critica-luz-miseravel.html


Eu comecei a ler há pouco o livro do Afonso Cruz, que está a deliciar-me, e depois então vou ler o do David. A crítica da Cláudia deixou-me ainda mais em pulgas :)

O Rui já deixou o link, eu deixo o texto:

"A Luz Miserável é o novo livro de contos de autoria de David Soares, publicado pelas Edições Saída de Emergência. Esta publicação desafia o leitor a acompanhar três contos negros e provocadores, que conseguem prender e fazer ansiar pelo momento de terror final.

A Sombra Sem Ninguém surge no ambiente exótico da Austrália. Apresenta a história de um homem invisível e a de uma mulher com a capacidade de ver e revelar o que é oculto aos olhos comuns. As personagens debatem a existência de substância invisível, fantasma da matéria que é captada pela visão, assim como a importância que o ser humano tem de ser visto para realmente ser. Este conto faz ansiar e acreditar na resolução de algumas dificuldade, mas uma reviravolta rápida e forte relembra o teor tétrico do género literário em questão.

O conto A Luz Miserável revela a história de três veteranos fortemente marcados pelos tempos de guerra, que são perseguidos por acontecimentos do passado. Envolvidos num clima tenso, os três homens estão ligados não só pela camaradagem militar, mas sobretudo por uma história e uma maldição que os une e os leva a fazer parte de um terror mais assustador do que a própria morte. Neste conto é revivido o pesadelo da guerra colonial, os extremos a que o Homem consegue chegar quando no poder e a manifestação de sentimentos racistas.

O leitor acompanha os sentimentos mais manifestos das diferentes personagens, nomeadamente a aflição, pavor e claustrofobia do moribundo numa cama de hospital, a loucura e desespero de um homem que tenta todas as possibilidades de salvação, e, o adormecimento como evasão da realidade e terror de enfrentar o destino de um ex-combatente assombrado pela incompreensão dos seus actos passados.

O Rei Assobio é um conto que, não só retrata um horror sobrenatural, como também um social, uma vez que apresenta as dificuldades de quem é condenado pela diferença. O leitor acompanha o fim da infância de um rapaz que sofre de um pequeno problema físico que impossibilita uma integração saudável na sociedade. O repúdio da comunidade faz com que o jovem abandone de vez a inocência e fuja para um local onde vai encontrar criaturas sobrenaturais que o vão alterar para sempre.

Um conto com um final surpreendente que vai pôr em causa a verdadeira identidade do Rei Assobio, assim como o expor temas relativos à morte, à auto-rejeição e aos factores que provocam a desumanização.

O leitor que acompanha o trabalho de David Soares vai reparar na existência de referências a obras anteriores. O Rei Assobio é passado em Embraçadura, a terra natal de Nuno Gonçalves, pintor a quem é atribuída a autoria dos Painéis de São Vicente, presentes em O Evangelho do Enforcado (ler crítica), e, em A Luz Miserável existe uma alusão aos acontecimentos do conto Os Ossos do Arco-Íris (SdE), do livro homónimo, numa notícia de jornal, por exemplo.

David Soares é um construtor de cenários negros, soturnos e macabros envoltos em atmosferas tensas e, por vezes, sufocantes que prendem o leitor que é surpreendido com a capacidade que o autor tem de chocar.

O ambiente sombrio e misterioso não é vivido apenas na escrita: o próprio design do livro convida o terror. A capa vermelha com elementos simbólicos a negro vai agradar a quem se interessa pelo género, mas a maior surpresa acontece quando se abre o livro: todas as páginas são negras e os contos estão escritos a branco, numa inversão do que é natural nos livros e numa forma de realçar o suspense e o horror das histórias narradas.

David Soares continua a dar provas que é um mestre no género. Com uma imaginação admirável, possui uma grande capacidade de surpreender. O autor não tem qualquer pudor em apresentar os factos mais duros e crus e com uma linguagem forte e directa, o que pode não agradar os leitores mais sensíveis.

Este pequeno livro de contos apresenta temas que agarram a leitura e que, apesar de serem expostos de uma forma mais simples do que num romance, não deixam de provocar a reflexão em algumas das temáticas apresentadas.

A Luz Miserável é uma pequena delícia para quem aprecia histórias assustadoras com conteúdo. Aconselho a todos os que gostam de um bom susto. "
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: ruiramos em Dezembro 17, 2010, 01:17:21 am
Bela crítica Alforat. Graças à tua análise fiquei curioso relativamente ao livro.
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Fiacha em Dezembro 20, 2010, 21:55:34 pm
 Luz Miserável - Crítica no blogue Intergalacticrobot
 

David Soares volta às estantes com uma obra de contos com a sua inimitável marca tenebrosa. A Luz Miserável continua a sublinhar o estatuto deste autor, a melhor e mais prolífica voz do lado negro da literatura fantástica portuguesa com três contos cuidadosamente talhados. A Sombra sem Ninguém cruza uma medium capaz de tornar visíveis espíritos de luz e um homem que se tornou invisível, numa tentativa de consequências imprevisíveis de corporalizar o invisível. A Luz Miserável, conto que dá o título e o mote ao livro, mescla memórias de atrocidades da guerra colonial com o medo de envelhecer e bruxaria escatológica africana naquele que é o conto mais perturbante do livro pela mistura de situações perversas que mostram que os monstros não estão sempre onde pensamos que estão. Rei Assobio regressa à escatalogia de O Evangelho do Enforcado, trabalhando as frustrações individuais e a violência vinda da incompreensão das massas com horrores milenares na aldeia que Soares mitifica como a Dunwich portuguesa. Os três contos contidos neste livro socorrem-se de uma prosa pesada, quase gongórica, para estimular os sentidos numa mescla de registos surreais e tenebrosos, numa escatologia visceral tão própria deste autor. O obscurantismo intencional das palavras recorda-me a prosa de Lovecraft, também caracterizada por um registo trabalhoso que é um dos seus encantos. Ao ler A Luz Miserável dei por mim a comparar estes contos com os de J. G. Ballard, como dois lados da moeda que é o conto fantástico. Ballard era notório pela clareza brilhante das suas descrições surreais, geradora de imagens mentais precisas, e David Soares, com a sua linguagem trabalhada e rebuscada, traça imagens igualmente precisas na mente do leitor, apesar de imagens vindas das trevas. É um pouco como colocar lado a lado as cores e a luz brilhantes de Dali com o claro-escuro de Fuseli. A voz deste autor que nos continua a deslumbrar com as suas visões precisas e negras da imaginação está firmemente estabelecida no panorama literário português.

Para seguir no blogue Intergalacticrobot.

http://intergalacticrobot.blogspot.com/2010/11/luz-miseravel.html
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Ser Land em Dezembro 21, 2010, 22:31:44 pm
Não li o livro ainda. Talvez ainda o compre e leia. Mas para já gostei muito do arranjo gráfico. Aquelas páginas negras....Muito interessante. :)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: tangerina em Dezembro 21, 2010, 23:31:31 pm
Não li o livro ainda. Talvez ainda o compre e leia. Mas para já gostei muito do arranjo gráfico. Aquelas páginas negras....Muito interessante. :)

Ainda não li o livro, mas sim, agrada-me muito o conceito das páginas negras. Pena é o cheiro que vem por acréscimo :P
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: ruiramos em Dezembro 21, 2010, 23:37:57 pm
Num tópico qualquer já apresentei uma explicação para esse cheiro... ;)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: tangerina em Dezembro 21, 2010, 23:39:33 pm
Num tópico qualquer já apresentei uma explicação para esse cheiro... ;)

:P
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Madahtahi em Dezembro 22, 2010, 18:15:46 pm
oh pah, mas será que só o meu livro é que não trazia cheiro nenhum especial? é que tenho-me fartado de cheirar aquilo e não me cheira a nada de especial...
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: ruiramos em Dezembro 22, 2010, 18:22:13 pm
oh pah, mas será que só o meu livro é que não trazia cheiro nenhum especial? é que tenho-me fartado de cheirar aquilo e não me cheira a nada de especial...

Três hipóteses:

Ou o teu livro está avariado (já alguém o inalou na loja e apanhou uma moca antes do o comprares).

Ou não tens olfacto (a minha avó não tinha olfacto, a casa podia estar a arder que ela não dava pelo cheiro do fumo).

Ou então já cheiraste tanta coisa da pesada que o livro te parece inodoro. ;)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: tangerina em Dezembro 22, 2010, 18:39:23 pm
Ou se calhar  o livro já arejou o suficiente ;D

opção 5: eu sou muito sensível a cheiros... quem sabe o odor nem é assim tão forte, eu é que sou esquisita ::)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: ruiramos em Dezembro 22, 2010, 18:47:56 pm
Ou se calhar  o livro já arejou o suficiente ;D

opção 5: eu sou muito sensível a cheiros... quem sabe o odor nem é assim tão forte, eu é que sou esquisita ::)

Nah companheira, muita gente se queixa do mesmo, não és a única.
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: tangerina em Dezembro 22, 2010, 19:02:39 pm
Ou se calhar  o livro já arejou o suficiente ;D

opção 5: eu sou muito sensível a cheiros... quem sabe o odor nem é assim tão forte, eu é que sou esquisita ::)

Nah companheira, muita gente se queixa do mesmo, não és a única.

Obrigada! Já fico mais descansada. Afinal não ando aqui a difamar o livro ;D
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: ruiramos em Dezembro 22, 2010, 19:15:18 pm
Não é difamação.

Não sabes que o David planeou tudo? O cheiro faz parte do livro.

Cheiro, páginas negras e leitura tenebrosa, quando te apercebes o texto materializa-se à tua frente e já não distingues fantasia da realidade.

É um conceito genial e inédito! ;)

Não é para todos, meus caros. ;D

Foi isso que tinha dito noutro tópico (mais ou menos, mas pelos vistos não leste).

Por isso, cara Tangerina, descansa, ninguém vai pensar que tens olfacto sensível ou que promoves uma cabala difamatória contra este livro em particular.
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Madahtahi em Dezembro 22, 2010, 23:04:32 pm
acho que estou a perder grande parte da experiência... assim sendo, vou ver se dá para trocar o livro por um realmente fedorento...
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: ruiramos em Dezembro 23, 2010, 01:19:37 am
acho que estou a perder grande parte da experiência... assim sendo, vou ver se dá para trocar o livro por um realmente fedorento...

Força com isso companheiro! ;)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Safaa_Dib em Dezembro 23, 2010, 23:42:10 pm
oh pah, mas será que só o meu livro é que não trazia cheiro nenhum especial? é que tenho-me fartado de cheirar aquilo e não me cheira a nada de especial...

Quando o livro foi apresentado no Fórum Fantástico tinha saído muito recentemente da gráfica, daí o cheiro da tinta preta se destacar, uma característica que foi muito falada na altura da saída deste livro. E o próprio autor até brincou com isso na altura. ;)

Mas é natural que com a passagem do tempo, e já se passaram uns 2 meses, o cheiro se desvaneça. :)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Madahtahi em Dezembro 24, 2010, 02:07:33 am
ah afinal não era nenhuma inovação manhosa... era só cheiro da tinta...  Eu comprei logo na semana seguinte ao lançamento mas realmente não cheirou a nada especial.
 
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: ruiramos em Dezembro 24, 2010, 02:55:19 am
Desculpa se te induzi em erro, pensei que fosse óbvio que estava a brincar.

Simplesmente aproveitei uma menor valia do livro (o cheiro) para lhe dar uma componente mais... misteriosa. ;)

Um mundo sem mistérios não tem grande graça.

Como a explicação da tinta, não tem encanto nem mistério. ;)

Seja como for toda esta história da tinta, cheiro, e incapacidade tua de senti-lo deu-me uma ideia para um conto ;)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Fiacha em Dezembro 31, 2010, 22:11:03 pm
A Luz Miserável - Crítica no blogue O Papiro de Seshat


Classificar de "mestre" alguém cuja carreira está ainda no início (ou assim se espera), poderá parecer exagero, mas à medida que as suas linhas se multiplicam, a distância entre David Soares e Lovecraft, Machen ou Poe torna-se meramente cronológica. "A Luz Miserável" vê o regresso de David Soares aos contos curtos para nos dar mais uma dessas procissões do grotesco e do inesperado que o autor Liboeta tão bem sabe conduzir. No seu imaginário o mundo banal é povoado por criaturas que se assemelham a tratados de exobiologia, inusitadas e terríficas, cujo encontro com os incautos personagens tem frequentemente resultados de gelar o sangue. A capacidade de David Soares para tirar da sua cartola de horrores o surpreendente e assustador, tecendo-os com uma malha de credibilidade bastante coesa, está bem patente em "A Luz Miserável", que consegue tirar-nos o tapete de debaixo dos pés com admirável facilidade para nos manter constantemente em tensão. As surpreendentes bizarrias destas negras páginas têm sempre o realce acutilante do desprendimento, até frieza, com que são descritas, integrando o perfeitamente malévolo no que parece um inofensivo quotidiano. O modo de pensar de David Soares é claramente "fora da caixa", pouco convencional, imprevisível até, mas a narrativa nunca perde o norte e fantasia mescla-se perfeitamente com realidade, criando estes mundos improváveis mas nada irrealistas, habilmente tecidos e onde as escassas páginas nunca deixam de ter espaço para mais uma reviravolta no enredo. "A Luz Miserável" embebe o leitor em cenários de expressivo terror, para lhe deixar o cheiro a sangue fresco nas narinas e imagens de pesadelo na mente, afirmando-se como mais um expoente na literatura de horror de que David Soares se tem revelado um incontornável pilar. Excelente.

Para seguir no blogue O Papiro de Seshat.

http://opapirodeseshat.blogspot.com/2010/12/luz-miseravel-david-soares.html
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Fiacha em Março 01, 2011, 05:00:37 am
A Luz Miserável - Crítica no blogue Porta viii

 

A hora ou a altura do dia é indiferente. Onde reina a música da perpétua escuridão e o tempo não corre esses artifícios humanos são uma natural anedota. O local é uma gruta que possuía uma viscosidade agradável e que transpirava uma doce podridão admirada por muitos, mas que exigia um laborioso trabalho de manutenção. E nem todos os horrores estavam com disposição para comer humanos numa dieta regular, expelir excrementos de alma e cuidar durante séculos desse perpétuo jardim de bosta anímica. A maior parte deles degustavam um humano por diversas décadas enquanto palitavam animais. Por isso quando foram liminarmente convocados por #$%&$%# (nome impronunciável, mas que pode ser chamado de ‘o portador da luz’) ocorreram de bom grado para beberem dos seculares, bafientos, abomináveis cheiros da sua residência.

“Obrigado pela vossa pestilenta presença”, disse #$%&$%# – ditatorial líder dos mundos horrendos – sem qualquer esforço verbal para a massa amorfa de horrendos que enchia a enorme gruta; a sua enorme bocarra possuidora de uma garganta afunilada facilitava o arrojar de palavras, de gritos sibilinos a longas distâncias, e a sucção de qualquer corpo etéreo ou carnal para um dos seus 32 estômagos – o VIII estômago era o seu preferido; aí a maceração de qualquer alma permitia obter um excremento baunilhado. “O motivo que me levou a solicitar a vossa presença de forma tão inusitada é o atrevimento do David Soares em lançar um inclassificável livro de horror? demasiado real. Ele inocentemente rotula-o de horror, mas todos nós sabemos o quanto ele se aproximou da nossa verdade. Ele não tem apenas uma imaginação fértil, tem uma perspicácia para o fantástico realmente assustadora.”

“ABAIXO O DAVID SOARES”, gritaram em divina unidade os horrendos. #$%&$%# deixou apenas por breves instantes que a massa pensasse que tinha uma opinião relevante enquanto um dos seus braços – tentáculos? – usava um coto de um homem para coçar o seu sexo sempre tumescente porque logo entoou um “BASTAAAAAAAAAAA” que silenciou os horrendos. “Com os zombies, os anjos, os vampiros e outras vulgares bichezas ainda temos tido paciência porque nos divertem – um pouco – e permitem manter afastadas as atenções dos nossos macabros, mas necessários, propósitos. O que seria a humanidade sem um pouco de saudável horror. Agora este David Soares com estes contos está a substituir-se a nós. O horror é apenas nosso. Só nosso. Mas em apenas três contos, em 122 páginas, temos histórias que nos tratam fielmente. Alguns poderão pensar ‘ah! 122 páginas, isso não é nada’, mas eu em boa verdade vos digo que ele em 122 páginas faz mais estragos que muito dito escritor em 956 páginas. São histórias visuais que se desenrolam sem gaguejos. Não deixa pontas soltas. Assuntos inacabados? Nem pensar. As personagens e os ambientes claustrofóbicos incomodam pela crueza do horror retratado. E quando se incomoda, também se fascina; ele faz-nos sentir atraídos pelo horror. NÃO QUERO QUE AS PESSOAS SEJAM MARIPOSAS PERANTE O HORROR ESCRITO PELO DAVID SOARES.” Nesta fase do discurso #$%&$%# parou para avaliar o resultado das suas palavras. Ameaças soltas começaram a ser ouvidas aqui e acolá. “Eu fico com um braço.” “Para mim a língua.” “Para mim o resto.”

#$%&$%# decidido a acalmar os horrendos sequiosos por um pedaço do escritor arrotou um sonoro e bafiento “CALEEEM-SE.” “O que mais me aborrece é que quando nós sairmos à rua o que sobra? NADA! Depois de 122 páginas nada será como antes. Nós deixaremos de ser o horror porque as palavras de ‘David Soares’ serão a nova bitola para o definir. O que mais me aborrece é que ele ainda tem a presunção de oferecer a cada novo halloween um novo livro de horror. O que me aborrece é que ele não deixou nada ao acaso…”

“VAMOS A ELE”, interrompeu a turba ignorante. #$%&$%# aborrecido por mais uma interrupção sorveu e arrotou sem dificuldade um horrendo perto de si e as hostes transformaram-se magicamente num mar de tranquilidade. “Até o grafismo do livro foi cuidadosamente pensado”, continuou #$%&$%#, “Cor vermelha – sangue – na capa. As letras a branco sobre um fundo totalmente preto – escuridão – dão ao livro um cheiro característico. O livro vive com uma identidade própria na mão dos leitores; mais uma cuspidela inconsciente ou não, para mim isso é irrelevante, nos defensores dos ebooks. A originalidade do ‘Rei Assobio’ é tão saudavelmente doentia que não deixará ninguém apático – se alguém ficar apático é de choque.”

“Só temos uma saída de emergência e não é traga-lo”, prosseguiu #$%&$%#, “porque quem domina o horror com aquela mestria está imune a qualquer um de nós. Por isso só nos resta uma alternativa comprar todo e qualquer exemplar d ‘A Luz Miserável’ antes que mais humanos o comprem. O HORROR TEM DE SER NOSSO MAIS UMA VEZ”, terminou #$%&$%#. “Sabem o que têm a fazer.”

Magicamente uns – o sempre delicioso efeito ‘puf’ -, outros aos tropeções, os horrendos foram esvaziando a gruta em direcção às livrarias. E pela primeira vez em séculos os horrorosos horrendos deixaram de ser o horror no halloween.

Para seguir no blogue Porta viii.

 http://blog.paulobrito.info/a-luz-miseravel/
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Magnus em Abril 05, 2011, 07:38:18 am
Li o livro este fim de semana, num "tirinho" e com apenas 122 paginas não será difícil perceber porquê.
Este livro marca o regresso do David aos contos depois de quase 5 anos.
O livro em si é um objecto que revela um grande cuidado com a imagem, com as suas folhas negras e letras brancas, ao contrario do que é normal, o que faz com o livro tenha uma aura maior, mas vamos lá a minha opinião do seu conteúdo:


A Sombra sem Ninguém

O primeiro conto é para mim o mais fraco deste trio. Passado na Austrália, numa cenário apelidado de exótico, um exotismo que nunca consegui sentir, este conto peca por não conseguir uma união coerente de todos os elementos que o compõem. Nunca cheguei a entender onde queria chegar e no final fiquei com a sensação de que faltava alguma coisa para dar sentido ao que tinha lido. Faltou uma reviravolta final que lhe desse sentido.


A Luz Miserável

O melhor conto, por alguma razão se costuma dizer que a virtude está no meio. Neste conto o David mostra estar no seu meio. Tem todos os elementos que levaram o David a ser reconhecido como hoje o é. É um conto como deve ser, conciso, sem ponta soltas ou palha para encher espaço, apenas a historia e nada mais que possa eventualmente distrair. Deu-me verdadeiro prazer lê-lo.   


Rei Assobio

O ultimo fica a meio do pódio, poderia ter sido melhor, os elementos estão lá todos, mas...
O inicio é auspicioso, mas lá para o meio parece que o David  divaga para de repente retomar o fio a meada de um modo em que não se entende o objectivo pois não trás nada de novo à historia, quase que parece que está só a encher.
Salva-se o final novamente digo de quem o escreveu e em que o autor volta a mostrar porque é o incontestável Rei da Fantasia e Horror em Portugal.


Em resumo um bom livro, especialmente se, como eu, gostaram dos outro livros de contos do David, apesar de apenas com três contos saber a pouco, mas como ele já afirmou que pretende passar a escrever um livro de contos por ano, pelo sabemos que não teremos de esperar tanto tempo como da ultimas vez.
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Fiacha em Abril 07, 2011, 03:40:55 am
A Luz Miserável- Crítica no blogue Páginas Desfolhadas

 

Antes de submergir na escuridão dos contos de "A Luz Miserável", justifica-se um breve comentário sobre a apresentação do livro.

Em cima, podem ver a ilustração escolhida para a capa, que não deixa dúvidas em relação ao interior do livro e que está carregada de um magnetismo semelhante ao que nos cola ao sofá durante um filme de terror. Outro pormenor: o livro foi impresso em páginas pretas. Apesar de me ter parecido desnecessário à primeira vista, rendi-me ao efeito causado. As cenas que fui construindo na minha mente já nasciam sobre um fundo negro, despertando as trevas sobre a narrativa!

Relutantemente, mergulhei na infernal e pormenorizada imaginação de David Soares...

O primeiro conto prepara-nos para os seguintes, decorrendo num ritmo mais calmo, apresenta-nos um caso curioso de forma bem credível e com um final brilhante.
No segundo, que dá título ao livro, já precisarão de um pouco mais de preparação mental. Preparem-se para cenas de violência e terror, descritas com uma precisão que nunca seria atingível num ecrã, apenas a fértil imaginação do leitor guiada pela mão hábil de David Soares é capaz de tornar tão vivas (mortas) as palavras. Mais uma vez, o conto culmina de forma perfeita.
E sobra o conto mais longo para o final. Antes dos monstros fantasiosos que surgirão na história, iremos descobrir como pode ser assombrada toda uma vida por simples episódios da infância. O horror em carne e osso mistura-se com a fantasia, enquanto o sangue é lenta e brutalmente derramado pelas páginas.

"A Luz Miserável", muito mais do que um livro de contos, é uma experiência visceral, emoções em bruto que se soltam com o virar das páginas.

Para seguir no blogue Páginas Desfolhadas
http://paginasdesfolhadas.blogspot.com/2011/04/luz-miseravel.html
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Puky em Maio 04, 2011, 08:11:50 am
oh pah, mas será que só o meu livro é que não trazia cheiro nenhum especial? é que tenho-me fartado de cheirar aquilo e não me cheira a nada de especial...

Quando o livro foi apresentado no Fórum Fantástico tinha saído muito recentemente da gráfica, daí o cheiro da tinta preta se destacar, uma característica que foi muito falada na altura da saída deste livro. E o próprio autor até brincou com isso na altura. ;)

Mas é natural que com a passagem do tempo, e já se passaram uns 2 meses, o cheiro se desvaneça. :)

Comprei o meu ontem, e senti logo o cheirinho mal o abri nos transportes para o ler . Fiquei maravilhada  ::)
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: tangerina em Maio 04, 2011, 20:08:10 pm
Maravilhada com cheiro a tinta?   :o
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Puky em Maio 04, 2011, 21:10:29 pm
Maravilhada com cheiro a tinta?   :o

Tão maravilhada que nos dois dias que o li fiquei com enormes dores de cabeça  :-\
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: seifer em Outubro 21, 2011, 17:52:28 pm
Encontrei mais uma crítica deste livro e decidi partilhar porque achei interessante.

http://lerycriticar.blogspot.com/2011/10/luz-miseravel.html

Estou a pensar ler o livro.
Título: Re: A Luz Miserável
Enviado por: Thanatos em Julho 04, 2012, 19:56:49 pm
A minha modestíssima apreciação do livro (gostaria de ter tido tempo para divagar sobre o conto que lhe dá o nome mas...):


Este livro, composto por 3 contos, consegue oscilar entre o medíocre (A Sombra sem Ninguém) e o excelente (Rei Assobio). Pelo meio fica o conto A Luz Miserável que embora tenha passagens sofríveis, ainda assim tem bons momentos de gore (não que um conto seja bom ou mau pela quantidade debitada de gore, à moda dos videos nasties da década de 80, mas vocês percebem o que eu quero dizer) e um final que pelo menos não fere a lógica do conto.

O que me leva a considerar A Sombra sem Ninguém medíocre? Acima de tudo a rigidez e, diria, falsidade dos diálogos que soam demasiado forçados, quase estéreis de emotividade, como se debitados por autómatos. A ideia em si é interessante e quase a conseguia ver tornada em episódio duma série de macabro para passar em TV de sinal fechado a altas horas da madrugada mas a execução é rígida, sem chama e a lembrar-me o conto Um Erro do Sol  (Brinca Comigo! e outras estórias fantásticas com Brinquedos, escritório editora, 2009) onde também David Soares padece da mesma rigidez e, arrisco, falta de imaginação para dar o golpe de asa que insuflasse de vida as personagens.

Já Rei Assobio é uma lenda moralista (se assim a quisermos entender) que demonstra como de pequenos enganos e pequenos erros se vai acumulando a maldade e a insanidade num mundo que foge à racionalidade e à lógica que a custo o Homem lhe tenta impor. Um excelente pedaço de prosa, do tamanho certo, contado com uma dinâmica invejável e a um ritmo que em nada ficar a dever à grande tradição das lendas nacionais.