Mostrar Mensagens

Esta secção permite-lhe ver todas as mensagens colocadas por este membro. De realçar que apenas pode ver as mensagens colocadas em zonas em que você tem acesso.


Tópicos - Manolete

Páginas: [1]
1
Escrita Criativa / A Flávia é minha amante... (conto)
« em: Julho 08, 2013, 02:46:14 am »
A Flávia é minha amante...


  Neste momento a Flávia é minha amante. Ainda me vejo ao lado dela como das primeiras vezes, rodeado pelos olhares de uma multidão. Oh! dizem entre si os tolos que há pouco falavam com ela embasbacados Oh! Aquele deve ser o namorado! E continuam a falar, olhos fixos em nós e comentários sussurrados. Para dizer a verdade, não é das fodas que me gabo. Como ouvi há tempos a um colega, a rata é toda igual e posso agora acrescentar que não há diferenças taxionómicas entre ratas bem-sucedidas e ratas mal sucedidas, entre ratas ricas e ratas pobres, para além das variedades de tratamento e cuidados de limpeza… e claro está, da autoestima de quem lá vai.
  Mas como estava a dizer, não é de a foder que me orgulho, não é de ouvir as suas palavras doces e muito menos de conhecer uma pessoa onde muitos outros veem uma figura. Não. É algo mais como isto: a Flávia é minha, pertence-me, o que logo faz de mim um grande guerreiro desta tribo…
  …E logo isso me remete para outro tempo. Foi para aí há vinte anos, muitos séculos e incontáveis sonhos despertos, quando eu era uma simples criança. Bem me lembro do João Ricardo, com um «R» recortado que intimidava os que o ouviam como o vilão charmoso de um desenho animado qualquer. Era um tipo tramado esse João Ricardo, temido pelos Colegas que não gostava e mesmo respeitado por alguns dos Mais-Velhos (pois bem, o tipo sabia levar a melhor). Assim como também me lembro da Joanita, aquela que todos desejavam mas ninguém tinha, ninguém excepto o João Rrrricardo, é claro. Muitos anos depois, Ela tornou-se lésbica e a personalidade Dele veio a apodrecer de maneirismos a milhares de quilómetros (reais e imaginários) dali. Flávia andava por perto, embora nessa época se enquadrasse no grupo dos Mais-Velhos, subclasse dos Muito-Mais-Velhos, espécie dos Que-João-Ricardo-Se-Estava-Nas-Tintas-Ou-Não-Lhe-Interessava-Conhecer e como tal nem vale a pena referi-la.
  Como já foi dito, João Ricardo foi para muito longe, onde os espécimes locais reclamavam da sua enorme «fixeza», Artigo 1 por causa de tamanha ousadia ser proibida aos de fora da terriola, Alínea A, apenas porque sim. Na altura pensei nesta idade das trevas da minha personalidade sob o título de um romance imaginário «Quando os Leões Viram Gatinhos!», pois de facto eu sou o João Ricardo. Enfim pareceu-me bem na altura, quando eu não sabia que um simples gatinho na vida selvagem se tornará um voraz predador. A vida sedentária, o acarinhamento da mãe, o rebaixamento do pai, levaram-me a não compreender muito os meus novos colegas. É tudo. Mas tal história não cuida aqui.
  Apesar disso, ainda me lembro de beijar a Ana num jogo de consequências… algo que não faria nos milénios seguintes. Como já disse, gozaram da supremacia aqueles que a força possibilitou e falando a sério, vivi quase uma década enfiado na toca, ou com o cu entre as pernas como diz a boa educação. Que pensarão eles, quando virem aquele instantâneo meu a beijar a Flávia, numa qualquer daquelas revistas parvas? Porventura lembrar-se-ão de mim? Penso que isso pouco me importa agora.
  Vieram outras com o tempo: Patrícia, com quem pudera ter a primeira experiência de cama se Jesus tivesse antes dito para nos fodermos uns aos outros, Marta com quem poderia ter sido feliz, se tivesse feito as coisas bem, Cláudia, uma boa rapariguinha para tudo, menos para namorar (tampouco o era eu na altura), mais três ou quatro casos isolados na discoteca.
  Fui para a faculdade para aprender… e aprendi de facto. Conheci a Daniela, a Belinha e a Ana Cláudia (não, devo antes dizer a Doutora Ana Cláudia, foi para isso que passou quarenta anos da sua vida sem conhecer um homem, apesar de pertencer à ordem das Boas-Como-O-Milho). Veio entretanto a Cátia e uma pausa para longas noites de carinho e amor. Até conhecer a Flávia.
A Flávia que move multidões. A Flávia cuja voz é ouvida por milhares de pessoas. A Flávia que… que tem uma cara que já tinha visto algures. Perdoem-me, eu não sou muito de ver televisão.
  Palestras imaginárias, convites para eventos inexistentes, jogos enredados em palavras inventadas a cada teclada, Muito obrigado por nada, agradecemos a sua solicitude, eu sei que sou uma merda e tu não vendes a tua imagem aos da ordem dos Merdas, subclasse dos Só-Eventualmente-Podem-Vir-A-Ser, espécie dos Que-Te-Dão-Piropos-Caros-Mas-Tu-Sabes-O-Que-Eles-Realmente-Querem, mas minha cara Flávia não tens por onde fugir, meu amor, minha deusa, a cada mensagem que respondes, sentes mais apertado o laço em redor do teu lindo pescoço e tenho uma proposta que não podes recusar. Agora! Enfim, agora já és minha.
  No início destas linhas julgo ter caído no erro de dizer que não existe a mais pequena diferença entre ratas. Permitam-me que reformule agora a minha opinião, pois uma Femnis Rattus Superstar é sempre uma Femnis Rattus Superstar, não devendo ser comparada com o seu parente vulgar, pois embora frequentemente estudada pelos cientistas da Discovery Channel, não é muito comum de avistar na região onde moro. Isso leva a uma enervante grande procura.
  Eu capturei uma, viva e em bom estado, passível de ser exibida em exposição. E para amigos nem é preciso bilhete.

  E neste preciso momento, estou junto à escrivaninha do quarto, inebriado e sem sono, escrevendo estas linhas enquanto seguro os genitais com a mão esquerda. A luz acesa do candeeiro fê-la acordar e agora Flávia chama-me docemente, batendo ao de leve no lençol amarrotado onde eu deveria estar. Os seus olhos cobrem-se de luxúria ao topar o meu corpo nu e então ela diz maliciosa Meu amor anda, vem-me foder! Outra vez!? Que seca, já me ando a fartar dela...

2
Escrita Criativa / Conto - A Estátua
« em: Junho 27, 2013, 02:05:57 am »
Bem, esta coisa foi criada no espaço temporal de um dia...


 Ao aproximar-se do desgracioso pardieiro, o velho soldado suspirou. Apesar de tudo, aquela mulher atemorizava-o. Prendeu o cavalo à entrada, desatou as babeiras do elmo e retirando-o pousou-o na sela. Desmontou de um salto e concertando a espada ao cinto, entrou no escuro tugúrio. Apenas uma tocha, colocada a um canto, iluminava todo o espaço, à luz tosca da qual pôde ver o corpo esbelto de Ninfarti, a bruxa egípcia.
- Fizeste-me esperar Alexandrus – redarguiu ela vendo-o entrar – Espero que o tempo te tenha clareado as ideias.
Por momentos estacou, tentando assimilar os comentários insolentes daquela mulher, que no fim de contas não passava de uma escrava. Haveria tempo para lidar com ela depois, por ora não a podia perder.
- Pedes-me que rapte a filha do pretor – respondeu -  Acaso acharás que não advirão consequências?
 - Deixa isso comigo – redarguiu ela, estoicamente – Se as coisas derem certo, Flávia não passará muito tempo fora de casa – e olhou-o nos olhos – Repara bem Alexandrus: é isso ou uma incursão nas bárbaras terras da Germânia. O pretor não tem dúvidas sobre o que fazer contigo. Ouço coisas interessantes sobre o que os homens de lá fazem aos soldados romanos que apanham. Ofereço-te uma hipótese de ficares aqui a troco de muito pouco, para além de te vingares de Muzena. O que queres mais?
 Alexandrus caminhou pela velha sala, olhando muito curiosamente os cantos escuros, enquanto meditava na situação.
- Se ao menos pudesse ter uma garantia – concluíu por fim – Como saberei que irás mudar a opinião do pretor a meu respeito?
- E acaso duvidas da minha palavra!? - redarguiu ela, bruscamente.
 Não podia confiar numa simples escrava. Muito menos em Ninfarti.   
- Muito bem – concluíu – Amanhã terás Flávia à tua disposição.

****

 Quando a pá de um dos homens desenterrou uma coluna quase intacta, o feitor não se surpreendeu. Na sua vida de trabalho já vira desenterrar dois esqueletos com restos de joalharia, assim como cerâmica de todo o tipo e ocasionais moedas de cobre e prata. Sem que o Dr. Raimundo soubesse, guardava algumas das últimas em casa. Mas quando a coluna foi desenterrada e uma parede se ergueu por detrás daquela, resolveu logo chamar o patrão, a fim de tomar uma resolução.
- Espetacular – disse aquele, espantado, quando viu parte do edifício desenterrado – Quero que continuem, dá dispensa aos homens da quinta por dois dias e manda-os continuar a desenterrá-lo – e feito isto, subiu para o cavalo e abandonou o local.
 Mas quando o trabalho estava praticamente acabado, mandou expulsar praticamente toda a gente, levando-os a guardar segredo de tudo o que haviam visto. Durante alguns dias a estranha descoberta causou alarido na vila, onde entre outras coisas se ouviu dizer que uma comitiva do Governo iria chegar.
- E consegues mostrar-me isso, Francisco? - perguntou o Dr. Morais, médico e estudante de História – Dou-te cem escudos se essa estátua estiver em bom estado.
 Francisco suspirou, retirando a boina e coçando a cabeleira desgrenhada.
- É claro, senhor doutor – continuou ao fim de um bocado – Pode crer que está. O Doutor Raimundo nem sabe que ela existe. Encontrei-a enterrada a alguns metros fora do edifício. Poderei passar por sua casa esta noite, se o senhor doutor não se importar.
- Faz isso, Francisco – terminou o médico, colocando o chapéu – E tenta que não te vejam. Se alguém te perguntar, diz que é um ataque de tosse que te traz a mim.
 Francisco assentiu, abandonando apressadamente o local.
 Era já bastante perto da meia-noite quando o médico ouviu a sua aldraba bater. Abrindo a porta, encontrou Francisco arrastando um pesado fardo. Vendo a rua deserta, mandou-o entrar sobre o hall da sua casa.
- O Sr. Doutor nem sabe as voltas que tive de dar – prosseguiu Francisco, pendurando a boina no cabide à entrada -, quase ia sendo apanhado.
O médico concordou com um aceno. Impaciente, ordenou que o feitor abrisse a caixa e mostrasse o seu conteúdo. Pasmou ante o que viu.
Lá estava a pristina beldade de mármore de traços graciosos. Tinha as mãos vazias, numa posição de calma com um olhar penetrante a dar um passo na direcção do observador. Nunca o médico pudera contemplar uma obra de arte tão bela.
- Lá nisso os mouros eram engenhosos – prosseguiu Francisco, vendo a sua admiração.
- Mouros não, isto é coisa de romanos que andaram muito antes por estas terras – redarguiu o doutor com brusquidão – para começar, os mouros não representavam figuras humanas – concluíu, esquecendo-se que falava com um iletrado. Francisco encolheu os ombros, desprezando o comentário. Muito ansiosamente, esperou que o outro parasse a sua contemplação da velha estátua e o recompensasse pelo trabalho.
 Pegou na nota quando o outro lha estendeu e desejando uma obsequiosa bênção ao doutor, retirou-se pela porta. Uma vez mais o discipulo de Esculápio olhou para a mulher de pedra, indagando que figura representaria. Hera, Vénus, ou simplesmente a mulher de um patrício? Não tinha aderessos visiveis que a demarcassem como uma divindade, nem a sóbria posição e característico vestuário de uma figura do quotidiano. Por momentos pensou em ter sido tão facilmente burlado por um bruto como Francisco, mas depressa rejeitou essa hipótese. Nada disso interessava agora, apenas a incrivel beleza daquela mulher de pedra, tão maravilhosamente esculpida. Pegou numa lupa e observou-lhe os detalhes, surpreendendo-se por não encontrar visiveis marcas de cinzel. Observou-lhe a cabeça, e o seu espanto foi tanto maior, ao conseguir entrevir até o mais fino cabelo.
 Apesar dos seus conhecimentos bastante rudimentares de escultura, não tardou a reconhecer aquela figura como a obra de um mestre. Miguel Ângelo ficaria envergonhado diante de tão esplendoroso trabalho. Pegou num cigarro e acendeu-o, sem perder de vista tão magestosa figura.
 Talvez a Universidade ou o museu lhe dessem uma quantia por ela que envergonharia os cem escudos que dera a Francisco, mas agora que a possuia, não conseguia desfazer-se de tão insólito objecto. Aqueles brancos olhos de pedra em sua frente, mesmerizavam-no com o calor de uma entididade viva.
Quem quer que fosse a modelo para aquela estátua deveria ter sido linda. Infelizmente, pensou com tristeza, separava-os um abismo de dois mil anos. Apagou o cigarro e cobriu-a de novo com um pano. Subiu as escadas e foi-se deitar.

 Acordou com o restolhar de passos durante a noite, o que ele prontamente descartou como produto da imaginação. O grande casarão onde vivia, era propicio à criação de sons e a sua vida solitária e repleta de leituras, a ideal para a imaginção de histórias. Voltou-se para o outro lado.
 Um enorme estrondo. Algo tombou estilhaçando-se no chão.
Ficou inquieto. Olhando para a escopeta ao seu lado, tomou uma resolução de lhe pegar. Acendeu uma vela e encaminhou-se para as escadas. Não precisou de andar muito até encontrar vários estilhaços espalhados pelo chão, notando que boa parte do seu conjunto de copos estava destruido. Inicialmente pensando tratar-se de um assaltante, esteve prestes a descartar tal hipótese ao encontrar as janelas fechadas e nenhum indicio de a enorme porta ter sido forçada. Pensou na vaga hipótese de um gato se ter infiltrado por qualquer buraco, como o causador dos estragos e só então por casualidade, reparou que no lugar da estátua, restava apenas o resto de farrapo que a cobria.
 Então, ficou perplexo, ao virar-se, encontrando a mulher mais linda que se lembrava. Vestia uma túnica branca e de cabelos loiros, aquela era a personificação de Afrodite.
- Qui estis vos, domine? - perguntou algo receosa. Não teve dificuldade em reconhecer as palavras, e por uma vez foi como se se abrisse uma brecha na História, transportando-o a um passado remoto. Ela tinha um sotaque muito diferente dos vários lentes universitários que ouvira até então...


Spoiler:  Leiam só depois... (click to show/hide)

3
Escrita Criativa / Primeiras linhas de um novo projecto...
« em: Abril 26, 2013, 19:38:39 pm »
VELHO MANUSCRITO ENCONTRADO NA FENDA DE UMA ROCHA


  Vi as magníficas cidades dos Iambuz-inn debaixo do chão. Uma única vez. Desde então foi tudo escuro, igualmente escuro nos últimos vinte anos. Cada dia que passa, cada intervalo de tempo que julgo ser um dia, olho para o céu ao abandonar a minha gruta, numa tentativa vã de olhar as estrelas. O meu espírito inquieto recusa esquecer-se das três léguas de rocha que o separam delas.
  Pertenço aos últimos que nasceram no mundo em cima, pois as capturas terminaram aquando da minha chegada e a maioria dos que comigo se cruzam nasceram escravos, foram criados nos Viveiros e educados para obedecer laconicamente aos seus amos. Tomaram-me por doido desde que lhes falei da superfície e já perdi as esperanças de os convencer de tal coisa. Uma vasta galeria sem tecto, em parte do tempo iluminada por um gigantesco candil, onde por vezes a água corre em torrentes e gigantescas plantas se erguem muito acima das nossas cabeças, fácilmente se enquadra nas descrições do Inferno dos iambuz-inn.
  Evidentemente devo estar mesmo louco por pensar em tais coisas, cuja lembrança me esmaga o coração. Resta-me apenas a luz mortiça destes estranhos lampiões que não necessitam de óleo e se apagam por ordem dos nossos amos, mas que ainda me vão permitindo escrever estes caracteres. Resta-me o picão que todos os dias carrego, dando-me a sensação de proximidade do meu antigo mundo distante. Que falta sinto da minha terra! Longas tardes passadas com o meu irmão e ternos abraços daquela mulher que fora mais que minha mãe, quando regressava à noite.
  Agora olho por mim abaixo e sinto nojo do meu corpo nu, repleto de cicatrizes, de pó de pedra e de ferro, da minha juba desgrenhada, sebosa, cheia de piolhos, do calo dos meus pés sujos, desabituados de calçado, dos dedos pétreos da minha mão que mal seguram este pedaço de grafite.
  Entristece-me olhar para a minha companheira e ver a dor naqueles olhos, outrora cheios de vida, a dureza daquele rosto sujo, outrora tão níveo e mimoso, os velhos sacos vazios onde conheci dois seios firmes, a corcunda que se arredonda sob baldes e sacadas de rocha, num corpo que se erguia tão esguio. Traída pelo destino, foi pelo ódio de uma rival que veio parar à mina. Sofro por não lhe poder mostrar o mundo de que falo, que fora o dos seus pais e dos meus, onde poderíamos ter sido felizes em tardes soalheiras. Ainda mais me magoa por ser a minha defunta irmã que vejo naqueles olhos.
  Terei feito a escolha certa naquele dia longiquo? Essa hipótese já nem se afigura como possível no momento. Já passou muito o tempo dessa escolha… talvez sempre assim devesse ser. Assim. Escuro.
  O fim dos meus dias chegará para breve e com eles o fim do interminável dilema. As forças abandonam-me e a cada dia que passa sinto o picão mais pesado. Depressa chegará aquele em que não o conseguirei erguer. Aí, restar-me-á apenas a negridão das profundezas do lago, onde serpentes enormes, luminosas, disformes, devoram os restos mortais dos escravos.


 Quando o encontrou, a pequena criatura imunda não se deteve mais que breves instantes a olhar para os estranhos rabiscos do pedaço de tecido. Os seus olhos estúpidos brilhavam de curiosidade e com a dentadura podre mordiscou a estranha textura. Logo a cuspiu quando aquela lhe arranhou a garganta.
 E olhando uma vez mais para o estranho achado, resolveu lançá-lo para o canto fétido da cela, onde era costume fazer as suas necessidades.

---//----//----//---

É uma espécie de prólogo do meu novo conto. Nada ficam a saber sobre ele pois a história nada tem que ver com este trecho, mas suponho aguça a curiosidade.

4
Um Projecto novo...

Sempre achei que a fantasia está dentro de cada um de nós e existe em cada lugar, sendo Portugal um bom exemplo disso. Desta vez tenho um novo projecto: escrever fantasia de há muito tempo, baseada em ditos, lendas, tradições orais e toda aquela mistica das histórias que a avózinha nos contava à lareira, formatada aos gostos do leitor moderno. Quem tem estado a par das ultimas novidades no campo da literatura fantástica em Portugal, tem visto que se tem reinventado a nossa História, que se criou pulp fiction de outrora que nunca existiu, que se tem reinventado uma mitica sociedade portuguesa através de alguns projectos steampunk e agora até nos surge um novo projecto de revista tentando captar o amago do espírito fantástico lusitano.

Contudo, tenho visto que as nossas tradições rurais têm passado muito despercebidas, talvez porque caracterizem um género de cultura que está condenada a desaparecer, mácula de um país largos anos atrasado, mas que agora se apressa a corrigir... e a esquecer (por vezes injustamente).

Mas porque não explorar este espírito? Para os da minha geração que cresceram em ambiente rural, saberão decerto que estes lugares se encontram repletos de fantasia, e para os citadinos, que nunca tiveram uma avó presente com os deveneios "do que se dizia no seu tempo" decerto não andaram muito longe delas quer através de livros infantis, desenhos animados, ou programas televisivos sobre alguns locais mais remotos. De qualquer modo será um exemplo interessante, sendo pena que esteja ainda pouco explorado comercialmente.


Mas mais do que um desafio a possíveis interessados, gostaria de mostrar o projecto de um conto que tenho desenvolvido neste últimos tempos... e de como um projecto desta envergadura não deverá nascer ex nihilo sem uma arte conceptual que lhe faça jus, apresento-o sobretudo através dos primeiros esboços para os seus personagens. Não sou grande desenhador e por isso delego essas funções em quem sabe mais do que eu, contudo lá consigo rabiscar qualquer coisita se tiver bons modelos por perto.

Não faltarão bruxas, maldições de séculos, lugares remotos com a sua história macabra, diabos escondidos a cada encruzilhada, procissões de mortos (que por estes dias de Novembro deveriam abundar), mas também... trajes regionais.


Modelos Visuais:

Esta é a minha personagem feminina, sobre ela rondará toda a história. Veste saia longa, mas de submissa nada tem, sendo até uma feminista antes do tempo. Sobre ela racai um grande mistério, assim o amor de muitos, mas como irão ver cortejá-la será coisa impossível e não desprovida de consequencias pouco mundanas para o incauto que o tente fazer. Um homem ergue-se sobre os demais para o tentar, aceitando um desafio que outros recusam, mas mesmo ele chegará a concluir que certas forças permanecerão melhor entregues a si próprias.


Modelos Visuais:

Então ergue-se um gigante, um Conan lusitano, acompanhado pelo melhor amigo, disposto a acalcar pelas botas a mesquinha fé cristiana, ao enfrentar o maior medo da vila que o viu nascer. Consegui-lo-á? Por vezes as coisas não são bem o que parecem.
(Eu sei, o herói não pode ter assim grande ar de labrego. Nesse aspecto temos de mentir um pouco e fazer um principe perfeito. Mas pronto, como já disse não sou grande coisa como ilustrador).


ARRRH!!! Assim está um pouco melhor.

E como uma boa lenda deverá ter monstros. Assim como um monstro a segurar-lhe o título.

Assustador não é?!

O principio é brincar com todo aquele zeitgueist das lendas portuguesas, dando-lhes novo lustro e apresentando-as a um público que despreze o que é velho, mas que goste de uma boa imaginação... ou re-imaginação.

5
  Bem não coloco o conto na íntegra, pois ainda sonho em o ver publicado algures. Todos os meus amigos que o leram adoraram, contudo gostaria de umas críticas de um grupo mais eclético.


  Ahhh… trás… ahh… trás
  Gritos de aflição ecoavam a toda a minha volta, ritmados por uma cadência de látegos agudos… uma voz feminina chorava e pedia misericórdia, sem que aparentemente obtivesse resposta. Não parava a torrente de trás e agora duas vozes masculinas, que num tom de satisfação iam proferindo palavras… indistintas para os meus sentidos embotados.
  Ahhh… trás… ahh… trás
  Então, o efeito do narcótico começou a desvanecer-se e os gritos iam-se tornando mais reais. Mas com eles veio o frio. O frio e dores agudas nos pulsos e nos tornozelos. Algo se interpunha entre os meus maxilares, forçando-os a abrir… Não conseguia mexer a boca. Ou melhor, quase nem a sentia como fazendo parte do meu corpo.
  Continuava a sentir o frio. Os meus ossos enregelavam-se. Estava completamente nu sobre uma superfície fria que se recusava a aceitar o calor do meu corpo. Tentei mover-me, debalde, pois comecei a descair para um lado.
  Os meus pulsos estavam solidamente seguros atrás das costas e os meus pés unidos firmemente com qualquer tipo de amarra, de tal forma que nem conseguia sentir ambas as pernas como partes isoladas. Das amarras metálicas que me bloqueavam os pulsos, partia uma outra corda que se enrolava ao meu pescoço, tornando impossível usar as pernas para qualquer tentativa de colocar as mãos à frente do corpo.
  E novamente o mesmo grito feminino, pedidos de piedade nessa voz doce que eu não estava a conseguir identificar… e outra vez o mesmo trás. Sempre o mesmo trás.
  Abri os olhos. Mesmo à minha frente discerni três vultos. O do meio era um corpo feminino completamente despido – o corpo de Marisa –, membros comodamente amarrados num único laço atrás das costas. Os restantes eram dois homens trajados de negro, um que segurava os ombros da vítima, mantendo-a assim numa posição vertical, enquanto o outro lhe arrancava gritos de dor por meio de um chicote negro. Do pescoço da mulher pendia uma bola vermelha presa por correias, espécie de mordaça, que no ímpeto sádico dos seus captores, lhe havia sido retirada da boca para que os seus gritos não se reduzissem a bramidos.
  E mais uma vez esta cadencia: trás… aii-i-i-i, seguido de mais choro por parte de Marisa, que a este ponto já lhe havia rubescido as feições mimosas.
  Gritos surdos e soluçares no meu lado esquerdo fizeram com que virasse o pescoço nessa direcção. Aí estavam mais uma dezena de corpos nus, aprisionados em posições semelhantes à minha, tentando gritar através dos fortes açaimos de tecido que lhes oprimiam a expressão oral. Reconheci-lhes as caras. Não me eram estranhas as duas ou três que consegui entrever, contudo também elas pertenciam a uma realidade distante, que a minha memória não estava a conseguir invocar.
  Todos eles se concentravam no bizarro espectáculo no centro da sala. Os seus corpos estremeciam e as suas bocas gemiam sempre que o chicote acariciava a pálida nudez de Marisa, juntando-se choros e uma dezena de ruídos onomatopaicos, aos gritos de aflição da mulher.
  Clareei a visão com rápidos pestanejares e olhei a toda a minha volta: mesmo atrás das três figuras, discerni umas quantas janelas rectangulares, comodamente tapadas por cortinas negras. No tecto, mesmo por cima da cabeça de Marisa, pendia num gancho um enorme mosquetão de ferro, e a escassos dois metros dos pés do seu atormentador, um Campingaz azul aquecia uma pequena chapa de zinco. Toda esta zona era limitada por paredes de madeira que se erguiam até meia altura da sala.
  Não, não eram paredes, eram bancos: conseguia ver os assentos na correnteza oposta. Eram bancos de comboio e o local onde me encontrava parecia uma carruagem. Não uma carruagem moderna com assentos estufados e revestimentos de plástico. Mas um qualquer modelo antigo, com interiores e assentos em madeira.
  Era então num grande intervalo entre estas fileiras de bancos, no centro de toda essa área, que se desenrolava a cena, com os corpos nus dos prisioneiros amontoados a um canto numa parafernália de caras amordaçadas por tecido, troncos nus, pernas peludas, seios femininos e pés amarrados por cordas.
  Um intervalo nos gritos. Marisa agora só chorava. O homem do chicote dobrou a sua arma e lançou-a algures para um assento atrás das suas costas. Abeirou-se do Campingaz e com todo o cuidado de quem se evita queimar, retirou de cima da placa de zinco, uma agulha com dez centímetros de largo e meio milímetro de grossura, com um pequeno cabo de madeira por onde segurou.
  - N-Não! – gritava Marisa ao ter-se apercebido do que sucedia – P-Por Favor N-Não!
  O homem sorriu, ajoelhando-se de fronte dela. Os olhos de Marina abriram-se de rompante, dando ênfase aos seus pedidos de misericórdia, mas o seu captor permanecia imperturbável. Fez-lhe uma festa na cara. Desceu a mão pelo seu pescoço e massajou-lhe o seio direito com ternura, parecendo seu amante por breves momentos. Então segurou-lhe o mamilo entre o polegar e o indicador.
  - Na-Na-Não – continuava Marisa, abanando convulsivamente a cabeça. Mas a agulha aproximou-se e com o cuidado e a segurança de um cirurgião, o homem fê-la introduzir-se na parte rosada do mamilo, de modo a atravessá-lo e a que a ponta pudesse sair pelo lado oposto juntamente com algumas gotas de sangue – NÃAAAO – foi tudo o que a sua vítima disse, antes de iniciar um choro convulso.
  O homem fez um esgar malicioso para o seu parceiro, voltou a levantar-se e a dirigir-se à botija de gás, tornando a regressar com outro espigão metálico para repetir todo o moroso processo.
  Não havia pressas. Os gritos de agonia da vítima vieram a ecoar pela sala durante o que me pareceu uma longa meia hora.
  Eu tinha conhecido a Marisa há pouco tempo. Eu na verdade tinha conhecido toda a gente cativa naquela sala. Éramos os membros da equipa vencedora do casting para um novo programa televisivo a estrear dentro de dias, «Uma Casa Portuguesa». Em boa verdade nunca entrara nos meus planos tornar-me famoso como estrela televisiva, papel que até há pouco considerara reservado para pessoas fúteis movidas por com sonhos de vida banais.
  Todavia, o mundo que atravessamos não nos dá muitas escolhas, mesmo para um engenheiro civil acabadinho de formar. Quando naquele dia de Agosto, vi casualmente o anuncio na revista, acabada já a minha tese, não pude dispensar juntar esse, à minha lista de currículos para mandar. Certo é que nunca desprezei a minha aparência e presença de espírito, predicados sobremodo importantes no mundo televisivo, contudo nunca me achei tão especial que pudesse ser dos poucos eleitos, sobre os milhares de restantes… isso até cerca de uma semana atrás, quando recebi o telefonema da agência Castelo Mágico, a confirmar a minha participação no programa.
  Cinco dias depois dirigia-me novamente aos estúdios a fim de conhecer toda a equipa técnica do projecto, assim como os restantes finalistas (os mesmos que agora jazem impotentes ao meu lado, literalmente de pés e mãos atadas). A última coisa que me lembro desse dia, ou seja, a última coisa que me lembro antes de tudo isto, foi de um jantar em grupo num pomposo restaurante do Bairro Alto.

(Continua... hahaha)

PS: Não, não é um romance pornográfico, é mesmo de terror.

6
Sugestões à Editora / The Lost Continent - Cutcliffe Hyne
« em: Maio 04, 2012, 20:25:39 pm »
Cutcliffe Hyne foi um escritor de fantasia com relativa popularidade entre a última década de oitocentos e os anos 30 do século passado, quando estava na moda a temática fascinante da possível descoberta dos locais mitológicos. A descoberta de Tróia e Micenas pelo arqueólogo Schliemann era ainda motivo de fortes debates na comunidade científica, resvalando em interessantes especulações na cultura popular, onde Hyne parece ter sido dos primeiros e talvez dos melhores. Entre a panóplia de lugares mitológicos, Atlântida guarda sempre o seu lugar de destaque.

Infelizmente, Hyne abriu as portas para uma corrente literária que depressa o submergiu, não ficando da sua vasta panóplia, mais do que uma obra como pequeno marco, que diga-se de passagem a produção cultural deste último século muito bem assimilou - The Lost Continent (1900). A sua obra é considerada a ligação perdida entre Henry Rider Haggard e Edgar Rice Burroughs. Duvido que alguma vez a SdE venha a publicar este livro a menos que venha aí algum blockbuster, que aliás já não trazia sempre nada de novo; mas de qualquer das formas, fica aqui o post para quem nunca tenha ouvido falar mas que sinta curiosidade em dar uma olhada.


Sinopse: His novel's main character is Deucalion, a member of Atlantis ruling priestly elite who returns to his homeland after two decades as an imperial viceroy in an Atlantean colony in Central America. In his absence, much has changed. Atlantis is now governed by Phorenice, a beautiful empress who is determined to overtrow the old religion and establish herself as a godess. Deucalion is first courted by the empress but eventually, driven by his devotion to the older gods and by his love for a young woman named Nais, he becomes the leader of the revolt against Phorenice. In the titanic struggle that ensues, the entire Atlantean civilisation comes crashing around their ears.

Enfim, nada de especial à partida. O tema em si já foi bastante explorado a posteriori, mas os pioneiros atraem-me e é por isso que deixo aqui uns rabiscos sobre este livro

7
Literatura / David Gemmell
« em: Janeiro 24, 2012, 00:04:26 am »
É um nome que já vejo há muito associado à fantasia heróica (juntamente com os quase homónimos Neil Gaiman e Fritz Leiber, fazia-me uma enorme confusão pois nunca sabia quem era quem), contudo hoje que já conheço os outros dois, deparo-me novamente com esse nome e sinto curiosidade em saber se valerá a pena partir para ele.


Depois de Edgar Rice Burroughs, Robert E. Howard, Fritz Leiber, Clark Ashton Smith, Michael Moorcock e por aí fora apetecia-me ler mais sobre este tipo de fantasia, mas já experimentei no processo autores tão maus que não queria correr novamente esse risco de iniciar a leitura de uma porcaria. O que acham sobre o Gemmell, vale a pena ou é só mais um nome, perfeitamente descartável.

8
Literatura / William Morris - alguém conhece?
« em: Janeiro 18, 2012, 06:02:51 am »
William Morris (1834-1896), um homem dos sete oficios que entre as várias artes, coleccionava a pintura, a escrita, a tradução de poemas antigos e um interesse pela épica medieval, sendo um dos membros da Irmandade Pré-Rafaelita (a pintura "The Tempest" no avatar da Safaa, serve para demonstrar aos leitores este movimento artístico).
Morris foi talvez (entre nomes como Lorde Dunsany) o verdadeiro pai da fantasia medievalesca moderna, aquele que não se limitou a traduzir poemas, mas também a criar as suas próprias histórias recriando aqueles imaginários. Tolkien foi tão somente o seu maior discipulo que acabou ocultando-o.


Estou curioso. Alguém já leu alguma coisa deste tipo? Valerá a pena pelos conteudos, ou somente prevalece o interesse histórico (pois a pena vale sempre).

Será que o nosso camarada algarvio tem alguma revelação importante a acrescentar?

9
Depois do livro "Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa", renasceu o meu interesse por este território tão obscuro e tão familiar da fantasia - o pulp fiction. Do pulp português pouco mais tive direito a conhecer do que Roussado Pinto, esse ilustre que deu voz à maior ninfomaniaca (e demoniaca) da fantasia. Não satisfeito parti logo para o pulp americano: pesquisei as Weird Tales, (uma das mais famosas revistas e a que deu voz ao lendario Conan), e surgiram-me logo nomes como:

  • Seabury Quinn
  • Jack Williamson
  • Edmond Hamilton
  • Robert Bloch
  • Verne Chute
  • Ray Cummings
  • etc



















Qual ninfomaniaco literário que só por olhar estas belas capas, sente um desejo incontornável de ler o seu conteudo, eu aqui me coloco na busca dos autores que lhes deram voz. Peço ajuda. Qualquer um com mais experiencia que eu nos mundos da net e da cultura para reviver tão afamados contos.

Pesquiso no Amazon e pouco encontro? Haverá por ai alguem mais sortudo?

10
Apresentações / Olé!!!
« em: Setembro 25, 2011, 03:20:47 am »
Olé!!! Sou o Manolete em espiríto, e o Gonçalo Pereira na realidade. Apresento-me diante de vós com os meus cordiais cumprimentos...

Quanto ao resto: viva a festa!

Páginas: [1]