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Tópicos - JonathanStrange

Páginas: [1]
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Escrita Criativa / À conversa com um Idiota
« em: Novembro 05, 2014, 12:16:45 pm »
Boas malta... Espero...não ofender ninguém!

Se estás a ler isto, honestamente, é porque não tens nada melhor para fazer. Não faz mal, eu compreendo. Eu também não tinha nada melhor para fazer quando o escrevi. Queres saber a minha história, tudo bem, posso contar-te.

Se estás à espera de um final feliz, desiste já, não existem. É tudo treta.

Quando a conheci o mundo parou, sim eu sei que soa lamechas, mas foi o que me aconteceu. Se não tens paciência para textos meio lamechas, vai para o Facebook ver as fotos dos jantares para os quais não foste convidado.

Sim, parou. Porquê? Não sei. Não sei mesmo e olha que é difícil admitir isto, tenho a mania que sei tudo.

Foram meses de conversa, piadas, sorrisos, toques escondidos, sei lá. O habitual. Se para ti não é habitual, faz-me um favor, larga o texto e vai conhecer pessoas.

Beijos carinhosos que rapidamente se tornaram perversos e agitados. As mãos que não são capazes de ficar quietas. Suspiros. Gemidos. Tudo isso.

Nunca me vou esquecer a primeira vez que fizemos amor. Não foi romântico, nada disso, foi selvagem. Foi alucinante. Foi Sexo! Do bom, daquele que nunca esqueces. Eu nunca esqueci pelo menos.

Agora questionas-te porque acabou mal? Não tenhas pressa, tens algo melhor para fazer?

Mas vá, eu tenho, acabou porque sou um idiota. Já deves ter percebido isso, certo? Não faz mal, eu sei que o sou.

Há pessoas que passam na tua vida por momentos e permanecem nos teus pensamentos para sempre. É o caso dela. Não me digas que nunca te aconteceu. Já? Boa, és tão idiota quanto eu. Como se deixa fugir alguém assim?

Não sei a resposta, mas deixa-me que te diga, quando souber, não te conto. Prefiro um mundo cheio de idiotas como eu. Porquê?! Simples, não gosto de estar sozinho.

Obrigado pelos teus minutos, obrigado pelo desabafo. Agora vai-te fuder, mas com um sorriso no rosto.

2
Escrita Criativa / Poema - Lembranças
« em: Outubro 30, 2014, 05:01:02 am »
Boas pessoal,

Bem, sem nada para fazer, sairam umas rimas...Espero que gostem.

Estás à espreita,
Curiosa e confusa,
Sem recuperar da desfeita,
Com uma desconfiança profusa,

Como te posso julgar?
Com as promessas que quebrei,
Não me comprometi a amar,
Mas também nunca o neguei,

Ainda te recordas,
Sei que sim,
Mas será que aguardas?
Ou já chegou o fim?

Hoje serei o inimigo?
Ou aquele por quem suspiras,
Talvez o amor antigo,
De quem só recordas mentiras,

Só deixei tristezas,
Ou memórias?
Acredito que me desprezas,
De que me valeram as vitórias?

Adeus meu amor,
É o que posso dizer,
Sou um desertor,
Já não tenho força para combater.

3
Escrita Criativa / Noite de sexo
« em: Outubro 29, 2014, 06:04:27 am »
Boas malta,

Espero que gostem...

Entro no bar, sorrindo, noite de engate, noite de sexo. Preciso de sexo.

Percorro o longo caminho que me separa da minha bebida de eleição, seja ela qual for, não discrimino. Sinto a garganta irritada, mais uma bebida, lambo mais uma ferida.

Vejo-te ao fundo, animada e divertida, estás nos braços de alguém, mas o que me importa isso?

É noite de sexo.

Olho-te demoradamente, para que te sintas observada, sei que gostas.

Vejo a tua cara quando me vês, um mundo de sentimentos num simples olhar.

Já conhecemos este jogo, tu e eu, somos os melhores.

Sorrio, convencido, porque não posso falhar. Dizem que é essa a primeira regra para o sucesso, acreditar que é impossível falhar. Olho para ti, estás diferente, poderão dizer outros, mas aos meus olhos sempre foste assim. Uma tentação.

Vejo-te nervosa, olhas para a tua companhia, tentas ignorar-me, mas já tens aquele brilho no olhar.

Odeias-me. Eu sei, não faz mal. Compreendo, aceito e sorrio. Um homem tem de sorrir face às adversidades, não é? Sei lá o que um homem tem de fazer, só sei que te quero na minha cama esta noite. Ou no carro. Raios, no meio da rua com um milhão de pessoas a ver. Quero-te. Simples.

Mas nada é simples. Ele já percebeu e olha para mim. Não me conhece, mas aposto que me reconhece, sou aquele que te fez sofrer. Ele sabe da história, sei que sim, que importa?

Vejo-te agarra-lo no braço, com força, como me agarravas a mim, noutro contexto, noutros momentos.

Vejo-o forçar a tua mão e não penso, faço. Avanço, sorrindo. Gosto disto, quase tanto como de sexo, talvez mais. Será que há algo de errado comigo? Porquê mentir? Sim, há, tu não estás ao meu lado e desde esse dia tudo está errado comigo.

Vejo-o, com dois amigos ao lado, não me importa.

Testas encostadas, palavras azedas e ameaças vãs. Chega um segurança e depois outro, que se foda.

Dou-lhe uma cabeçada e recuo, pronto para os amigos, mas os seguranças impedem a minha diversão e uivo, de frustração. Viro costas e vou embora, amanhã será outro dia.

Vejo olhares estranhos, como se fosse um louco, vejo olhares famintos, daquelas que estão húmidas pela minha demonstração de coragem e machismo. Aquelas a quem a vida ainda não ensinou que homens como eu não mudam, nem por elas nem por ninguém.

Podia sorrir e engatar uma, noite de sexo, no entanto, agora que te vi, perdi a vontade.

Não te iludas, continuo o mesmo, mas quando penso em ti, ou quando, em momentos raros como o de hoje, te vejo, não preciso de uma noite de sexo. Preciso de ti. Como um todo.

Suspiro e saio, enfrento o vento gélido de cabeça erguida e coração apertado.

Sinto passos e viro-me, na esperança que sejas tu, sorrindo grata por te ter salvo de uma noite aborrecida com um amante que tem cara de ser flácido, mas estou errado.

Vejo a garrafa e não vejo mais nada. Apago.

Acordo sozinho no hospital, tive sorte, diz o médico. Mal sabe ele a quanta.

Estou sozinho numa cama de hospital, tenho sangue, ainda por cima o meu, na minha melhor camisa. Tenho vómitos, deve ser normal, tenho dores, várias, acho que não me deram drogas suficientes. Mas o que eu queria era ter-te a ti. Esta noite. Noite de sexo.

4
Escrita Criativa / Vermelho
« em: Outubro 29, 2014, 03:50:09 am »
Boas pessoal,

Espero que gostem...

Visto o fato preto, à pressa, respirando fundo. Primeiro dia de um novo emprego. Coloco a gravata vermelha, obrigatória, terminando o conjunto.

Corro para o metro, como se o diabo em pessoa me chicoteasse, não me posso atrasar.

Linha vermelha, o meu destino, o meu futuro.

Corro novamente.

Já vejo o prédio, o escritório, o meu purgatório pessoal.

Respiro fundo, nervos e dúvidas, mistura explosiva.

Entro sorridente e confiante, fachada, mas bem mantida. Percorro o curto corredor e aguardo, tal como me foi indicado que deveria fazer. Aguardo. Começo a achar que é uma qualquer brincadeira cósmica, que irá surgir o meu antigo chefe a gritar que tenho de atender mais chamadas. Mas não, a porta abre-se, como magia, e alguém me chama pelo nome.

Entro e sento-me.

Oiço apresentações, objectivos e toda uma panóplia de indicações sobre o que fazer e não fazer. Espécie de formação, mas casual, quase animada. Aceno a tudo, mesmo não compreendendo metade. A experiência virá com o tempo, penso, enquanto reparo que a gravata vermelha do meu chefe é de um tom mais escuro, parece pintada à mão por um qualquer artista vanguardista que troca a tinta por sangue. É brilhante e visceral, hipnótica.

O chefe agradece a minha presença e diz-me com um sorriso que está na hora, tenho de me fazer à vida, apenas a morte é certa.

Caminho então as ruas de uma cidade que está na moda, oiço vários idiomas, alguns reconheço e outros só posso invejar. Gente que não tem de viver aqui, cheirar estas ruas e caminhar por elas todos os dias. Eu faço um turismo de sofrimento pela minha cidade em busca de clientes.

Começo a perceber que não deveria ter prestado tanta atenção à gravata e sim a quem a usava, mas faço o meu papel.

Vejo um grupo de jovens, praguejando, sinal de uma educação ausente que conheço tão bem.

Ao longe, quase que brilhando, vejo uma jovem de olhos raiados e alma partida. Não sei como o sei, mas sei.

Avanço até junto dela. Sento-me, sem questionar se posso ou não. Sento-me porque é esse o meu trabalho.

Vejo-a olhar para as horas, no telemóvel, já ninguém usa relógio.

Inicio o contacto, dizendo-lhe quem sou e o que faço.

Vejo nos olhos dela que quer correr, fugir, esconder-se e no entanto algo a faz ficar. Como a compreendo.

Entrego-lhe um frasco de comprimidos, um lenço vermelho e um envelope. Afasto-me.

Enquanto caminho olho para trás, como nos filmes, e vejo-a a ler o bilhete. Fala de como tomar os comprimidos, misturar com álcool e o resto do acordo.

A tua alma em troca do fim do sofrimento e um emprego para toda a eternidade. Sei que ela irá aceitar, todos nós o fazemos.


5
Escrita Criativa / Viagem
« em: Outubro 17, 2014, 04:31:08 am »
Bem, estou a tirar a ferrugem.

Espero que alguém goste.

De vidro aberto, solto um suspiro cinzento, da cor dos meus pulmões.

A radio não me ajuda, não me distrai, não me leva de onde estou, muito menos me transporta para onde quero estar. Esses tempos já não regressam.

Sinto saudades, sinto a falta do cheiro, do riso e das conversas. Sinto a falta e não o posso dizer. Escolhas, dizia o meu pai, todos nós somos escravos delas. É curioso como só damos valor ao que temos quando o perdemos. Seja o amor da nossa vida ou as simples palavras do nosso pai.

Acendo mais um cigarro, não sei porque insisto no vício, mas preciso deste fumo. Preciso de cometer este pequeno suicídio, lento e calculado.

Não deveria estar aqui, sou um perigo para mim, sou um perigo para os outros, sou um perigo. Um monstro. Nunca o neguei, mas apenas a ti o confessei. Só a ti. Gostava de dizer que estive ao teu lado nos momentos mais obscuros da tua vida, mentira, só a tornei mais obscura. Porque será que fazemos isto? Porque será que nos magoamos e voltamos a magoar e só mais tarde compreendemos isso?

O telemóvel toca, atendo-o, sem encostar. Para quê?

Perguntas idiotas, com respostas automáticas, sigo a minha viagem, a espiritual mais do que a rodoviária. As noites, sempre as noites.

Já não me lembro da tua voz. Já não me recordo se ficavas corada ou não, o que importa? Nunca mais te irei ouvir. Ou tu a mim. Não sei, quem decide estas coisas? Será que existe um tipo numa poltrona, esfregando uma hipotética barba branca, tomando todas as decisões? Espero que sim. Espero que haja alguém a quem eu possa dizer, foste tu quem tomou a decisão, não eu!

Grito, porque o rádio não me ajuda, porque não está aqui ninguém, porque desde que saíste da minha vida não está aqui ninguém.
Sinto-me só, tão só, preciso de ti. Preciso de nós, preciso...sei lá do que preciso.

Vejo as luzes, ao fundo, não me desvio. Conheço bem este jogo, jogo-o todas as noites. Fecho os olhos e acelero, é tudo o que me resta, estas pequenas escolhas arriscadas. Quem já perdeu tudo, o que mais tem a perder?

Mas no fim desvio-me sempre, cobarde, tu sabes que o sou.

O último cigarro, acendo-o, devoro-o, agarro-me ao fumo como se a minha vida dependesse disso, quiçá dependa, não sei.
Sinto o sal nos lábios, tento recordar o teu sabor. Não consigo. Grito, grito de loucura e frustração. Quero-te, sempre quis.
Mas o que esperavas tu de mim? O que querias? Diz-me, honestamente, o que querias tu de mim? Não compreendo. Não consigo perceber.

Sigo para a velha estrada, aquela que conhecemos tão bem.

Encosto.

Abro a porta e abro um novo maço. Preciso de coragem, mas como essa não se vende em máquinas automáticas, fumo.

Atiro a beata para longe, abro a mala do carro e retiro o teu corpo. Aperto-te contra mim, o que esperavas que fizesse? O que querias de mim?

Deito o teu corpo no chão, beijo-te os lábios, frios, uma última vez. Não é o teu sabor. Será que é? Já não me recordo.

Entro no carro, a esquadra mais próxima está longe e tenho um crime para confessar esta noite.

6
Contos Conjuntos / 2º Conto Conjunto - Aberração
« em: Dezembro 10, 2010, 22:27:56 pm »
O jovem abriu os olhos, confuso, percorrendo com o olhar o negro intenso da cela que o aprisionava. Arqueou o corpo numa estranha convulsão e vomitou de novo. O líquido esverdeado e ácido, o único conteúdo que o estômago tinha para rejeitar, misturou-se com o cheiro a urina e mofo que o rodeavam. Fechou os olhos e adormeceu, como quem procura voltar a dormir esperando acordar de um pesadelo.

O chão frio e áspero, como as mãos de um velho lenhador, tornavam a sua clausura ainda mais cruel. As memórias estavam turvas como uma poça de água estagnada e suja, mas, o pior de tudo, era a ausência de som. Nem um ruído que lhe garantisse estar, de facto, vivo. Os cheiros, os vómitos, o frio e até a fome, eram suportáveis, mas o silêncio sepulcral que se abatia sobre ele começava a ameaçar a sua sanidade. Preferia saber que estava morto a continuar na dúvida entre a vida de prisioneiro ou a morte num qualquer limbo.

“Aberração”, ainda conseguia ouvir os gritos da turba que o tinha levado da casa do seu pai, que se despediu dele com um esgar de repulsa temperado com ódio, sem lhe explicar o porquê de tal palavra ou tratamento.

Fora arrastado desde a quinta perto do ribeiro, onde vivia a ajudava o pai nas lides diárias, até à muralha, junto à entrada da torre do castelo. Durante o caminho os gritos eram ensurdecedores e foram várias as pedras atiradas ao jovem, deixando sangue como testemunho da pontaria afinada de alguns dos cobardes que à distância o agrediam. Com estes últimos pensamentos, adormeceu novamente.

Acordou sobressaltado, com os seus olhos verdes ainda húmidos, e o seu rosto moreno, oferecido pelas tardes passadas a enfrentar a fúria abrasadora do sol, não escondia o terror que lhe invadia a alma, recordando o caminho que percorreu, escoltado, por aquela estranha procissão. Lembrava-se de rostos familiares como Irina, a rapariga que o presenteou com o seu primeiro beijo, a Óscar, o merceeiro, que tantas vezes tinha ajudado sem pedir nada em troca. Nada fazia sentido.

Acordou sem recordações de como tinha adormecido. Um frio, semelhante ao dos invernos mais rigorosos, arrepiava-lhe a pele o os ossos. O seu corpo mostrava já sinais da parca alimentação que recebera nos últimos dias e só não estava desidratado por beber, após um desespero indescritível, a água com um forte travo a urina que lhe era trazida diariamente.

Tentou rever as imagens na cabeça, como se isso o pudesse, de alguma forma, ajudar no estranho aperto em que se encontrava.

Via, com dificuldade, a mãe, que lavava a roupa da família junto ao ribeiro nas imediações da casa. Depois um vazio. Abanou a cabeça, tentou novamente. A mãe lavava as roupas quando um homem, não lhe viu o rosto, se aproximou dela. Lembrava-se de ter deixado cair as ferramentas que tinha de guardar quando ouviu a mãe gritar, ainda que abafada por uma mão carnuda, debatendo-se em desespero face ao contacto forçado da estranha figura.

Correu, o mais rápido que pode, quis gritar, mas as palavras morriam na boca, como os rios morrem no mar. Ao aproximar-se da mãe, já o homem se encontrava em cima dela, forçando o seu corpo contra o da mulher ensanguentada por uma qualquer pancada.

Não o conseguia explicar, mas dentro de si, uma voz, que não a sua, proferiu várias palavras. Vazio.

Sem conseguir relembrar mais nada, excepto a cara de ódio do pai, como que culpando-o pela que sucedera à mãe. Dela, nem rasto. Tentou, com todas as suas forças, adormecer. Não conseguiu.

Sentiu algo de diferente na sua clausura, rapidamente percebeu que um estranho baque, continuo, se fazia ouvir na parede húmida à sua esquerda. Encostou o ouvido à mesma, grato pela sensação de calor que dela retirou quando o corpo se habituou ao contacto com a superfície rugosa que o aprisionava.

Murmurou algo, como uma prece a uma qualquer entidade que afastasse a solidão à qual se via forçado, sem acreditar que houvesse uma resposta do outro lado. O baque cessou, como que fosse o seu único propósito aumentar o desespero que sentia.

Um nesga de luz surgia da porta, pesada de metal, mesmo sabendo que dela viria apenas silêncio e água repugnante, era a única luz que dispunha ao longo do enorme dia e, com todas as suas forças, tentava estar desperto para aproveitar um vislumbre da mesma.

- Porquê? – Inicialmente gritava, depois, desesperado suplicava por uma resposta.

- Onde estou? O que é feito da minha mãe? Tenho fome! – as perguntas e suplicas voavam, como uma ave de rapina em busca da presa, em direcção ao homem que atirava o cantil para dentro da cela.

Todos os dias tentava obter uma resposta. Todos os dias o silêncio era esmagador. Já não sabia há quanto tempo ali estava, não que importasse, já pensava em si como morto, esquecido, por tudo e todos os que alguma vez o tivessem conhecido.

Com alguma regularidade o baque na parede recomeçava. Sempre que ele tentava obter uma resposta, o mesmo terminava, como se um qualquer fantasma com um estranho sentido de humor fizesse troça do seu desespero.

Os ratos, que inicialmente invadiam a cela ameaçando a sua vida, rapidamente se tornaram escassos após terem passado de predadores a presas. O desespero, a fome e, sem dúvida, o isolamento tinham levado o jovem a limites que nunca pensara recorrer. O sabor não era mau, mesmo que crus, os ratos, nem que fosse da sua imaginação, faziam-lhe recordar o sabor doce de um coelho guisado, preparado com um sorriso quente e sincero da sua mãe.

Pensou em colocar termo à própria vida, chegando, inclusive, a bater a cabeça com força contra a parede e porta da cela, em vão, desmaiava e acordava sempre com dores de cabeça, sangue seco nas roupas, sujas e mal cheirosas, e um sentimento de impotência dentro de si.
   
Desistiu, de viver e mesmo de morrer, entregou-se ao desespero e medo. Nada mais tinha. Depois, com o cruel avançar do tempo, preparou vinganças gloriosas na sua cabeça. Que todos os que o tinham magoado iriam, de uma forma ou outra, pagar por tamanha injustiça. Este sentimento manteve o jovem vivo, mas rapidamente sucumbia a recorrentes súplicas ao guarda que diariamente teimava em manter o jovem vivo com água e, raramente, pedaços de pão duro e bolorento.

O baque na parede era mais constante agora, mas o jovem, com medo que cessasse, não ousava proferir uma palavra, respirando mais devagar, para impedir que o mesmo voltasse a encher de silêncio a sua vida.

A sua vida entrou numa rotina, se tal é possível nestas condições desumanas, que consistia em acordar para ver a luz e o guarda. Comer, quando tinha algo para comer, beber a água cada vez mais recheada de urina, por vezes a sua que a sede é algo implacável, esperar pelo baque e adormecer ao seu som. Sempre igual, sempre terrível.

Veio um dia, ou melhor, uma noite em que algo mudou na sua rotina.

Acordou sobressaltado, algo que não acontecia há muito tempo. Estava um odor diferente no ar, o silêncio tinha sido afectado por algo diferente do baque cada vez mais habitual. Ouviu passos. Era impossível, já tinha visto o guarda, ou será que teria adormecido tempo demais? Não sabia, mas sentia na pele, como se esta o avisasse de alguma forma, que algo estava a acontecer.

Ouviu chaves na porta, ouviu a tranca, com um som metálico e incomodado por tal esforço, ceder, dando lugar a uma ligeira nesga de luz e ar, enquanto a porta abria, pesada, perante o esforço de quem a empurrava.
   
Quando a porta se abriu, na totalidade, a luz das tochas, fumarentas e bruxuleantes, cegou o jovem por um momento. Fechou os olhos. Quando se sentiu capaz dos abrir, já a porta tinha sido encostada, devolvendo às sombras o domínio sobre o lugar.
   
Abriu os olhos, com dificuldade e receio, e viu a figura, encapuçada, que se encontrava à sua frente.
   
- Vamos, não há tempo a perder – disse uma voz feminina, em parte familiar, enquanto lhe atirava um manto igual ao seu e o incitava com os braços a vestir o mesmo com a urgência típica de uma fuga planeada.

- Quem és tu? – murmurou o jovem pegando, desconfiado, no manto que lhe era entregue.

- Não há tempo para perguntas, Vamos! – cortou a voz da mulher. – Vamos! – Disse, saindo a correr da cela.

O jovem cambaleou, fraco e mal alimentado, em direcção à porta e à liberdade que a mesma oferecia. Pensou que poderia estar a sonhar, mas, mesmo assim, até o sonho da liberdade era preferível à realidade da prisão forçada e incompreendida de que era alvo.

A mulher olhou, impaciente, para o jovem. Tirou de uma trouxa de pano um odre e uma fatia de pão com manteiga gordurosa que ofereceu ao jovem.

-Toma, come e bebe rápido, precisas de algo na barriga – Entregou a comida ao jovem, com gestos suaves e preocupados, como se tivesse preocupação genuína por ele.

Desconfiado, mas sem nada a perder, acabou por aceitar a oferenda que lhe era dada.

O vinho quente caiu de forma pesada no estômago, tendo obrigado o jovem a reter um vómito ácido que lhe subia na frágil garganta, empurrou o pão pela mesma abaixo, como se de um tampão para o vómito se tratasse. Mesmo sendo o pão duro e a manteiga de uma consistência grumosa, teve o condão de lhe reavivar o espírito e permitir a um, ainda que ligeiro, aumento de velocidade na inesperada oportunidade que lhe surgia.

 O jovem estagnou, quando viu a mulher passar por dois guardas que, de lanças empunho, ladeavam a passagem que conduzia para a saída da torre. Ao ver o jovem parar, aturdido e sem compreender, sorriu para ele.

- Não és a única aberração do reino, Glen, apenas o único que foi apanhado – incitou o jovem a passar pelos guardas que, por um motivo desconhecido ao jovem, não reconheciam nem sentiam a sua presença.

- Aberração? – perguntou o jovem, com um esgar de tristeza ao relembrar o rosto repugnado do pai.

- Sim, é o que nos chamam a nós, magos e seres especiais, típico de homens mesquinhos que não compreendem que nem todos nascemos para lavrar a terra – sorriu ao jovem, mesmo sem que este pudesse ver as suas feições escondidas pelo capucho do manto – Mas haverá alguém para te explicar tudo isto, agora vem que a magia não é como o ódio dos homens, não dura para sempre.

Glen, sem mais uma palavra ou hesitação, avançou o mais rápido que o seu corpo subnutrido permitia. Ao vislumbrar a luz da noite que espreitava, curiosa, por trás da porta que ele tinha transposto, meio vivo, há tanto tempo atrás, teve uma sensação de liberdade e vida que nunca antes experimentara, tinha estado no inferno e o diabo, em pessoa, estava a devolve-lo ao mundo.

- Não posso sair da torre – disse, com uma voz triste, o anjo da guarda do jovem – para lá da quinta do Óscar, por trás do monte dos pastores, junto ao carvalho milenar, está um homem à tua espera, com ele todas as respostas e um novo destino. Vai com cuidado, não pares. Corre, se tiver se ser. Com ele, estarás seguro. Um dia os nossos caminhos deverão cruzar-se, infelizmente, em campos opostos pois assim o determina a minha posição, mas torço por ti e por todos nós. Agora vai. Não olhes para trás – Fungou a mulher, com uma voz já saudosa mas imperial, que não oferecia qualquer possibilidade de resposta, fechando a porta.

Glen olhou, uma última vez, para trás, e, com esforço, conteve a vontade de bater à porta, voltar à sua cela e à rotina que, apesar de horrível, já se habituara. Olhou para a lua prateada com o brilho que apenas ela pode ousar espalhar pela noite e seguiu, em busca do destino prometido por aquela estranha mulher.

7
Escrita Criativa / Redenção
« em: Novembro 20, 2010, 21:42:52 pm »
Bem, isto era suposto ser para o xcrita, mas o tamanho ficou bem maior do que o pretendido.

Sugestão

Vampiro
Mulheres bonitas
Colar Vermelho
Roménia
Turquia

Espero que gostem...

O nascer de um dia quente e agradável escondia a verdadeira história que se iria escrever.

De farda vestida percorro o caminho, gasto e vazio, tantas vezes feito, para o castelo. Sem o brilho no olhar que iluminava a primeira vez que o caminhei, de peito cheio, orgulhoso pela tarefa que cumpria.

Recordo-me como se fosse hoje. Não do primeiro dia de trabalho, do início de tudo.

 A religião, claro, levou o mundo a um ponto de ruptura. O que se seguiu foi o esperado, nada de anjos ou de paraísos. Morte. Apenas e só a morte.

A população mundial definhava, África foi irradiada do mapa. Os primeiros a pagar a factura das loucuras cometidas em nome de um poder superior.

Os Estados Unidos, outrora protectores do mundo, foram arrasados, destruídos por fundamentalistas mais preocupados com um livro velho e poeirento do que com a sua própria vida.

O Vaticano tomou conta das operações. Tal como os cruzados de outros tempos, sangue foi derramado entre fiéis e infiéis de ambos os lados. Todos eles eram infiéis.

Não houve um vencedor. Na guerra nunca há vencedores, apenas vencidos.

O mundo inteiro perdeu. Sociedades desabaram, reergueram-se, para novamente tombarem perante falsos profetas da salvação.

O fim estava próximo, não que os quatro cavaleiros do apocalipse cavalgassem as ruas à procura de pecadores, mas os grupos organizados que aterrorizavam os sobreviventes, faziam com que esse parecesse melhor destino.

Como em todos os momentos decisivos da história, surge um salvador. Como sempre, um como não há memória, magnifico, puro e casto. Um ditador.

Sem políticas reconhecíveis, apenas proclamava a necessidade de ordem. O povo, inicialmente relutante, concordava com as ideias que o mesmo gritava aos quatro ventos.

Pouco a pouco, como uma nuvem de fumo que enche uma sala, ganhou espaço e poder. Poder. Palavra maldita nas mãos erradas. Será que alguma vez houve mãos certas?

O mundo é agora o seu quintal. Podre e esquecido, mas seu.

Milhões foram exterminados. Muitos outros foram escravizados. Tudo para bem do mundo, dizia ele. Todos os que podiam concordavam, esperançosos de escapar ao trágico fim que assolava os restantes.

Também eu concordava, não por medo. Por esperança.

Turquia. É aqui que as minhas lembranças se tornam turvas e amargas, que me levam ao inferno e um pouco mais abaixo.

Fui treinado, convencido de que era uma honra ser confiado com o maior tesouro do ditador.

Inicialmente pensei que fosse guardar os amaldiçoados livros que continham o conhecimento proibido e pelo qual já tantos tinham morrido. Não, fui guardar algo muito mais proibido.

Mulheres. Se há algo que nem os ditadores ignoram, é o prazer do sexo. Este não era excepção, pelo contrário, era um predador.

Ainda me lembro do curto voo, agitado e conturbado, até à Roménia. Até ao emprego de sonho. Ao paraíso. Ao inferno.

Fui levado ao castelo, por um caminho novo, brilhante e limpo, que conduzia à porta dos escolhidos, os eleitos que iriam guardar o tesouro. Com um brilho de orgulho imenso instalado no meu olhar, enchi o peito com o ar do novo mundo.

Nunca me irei esquecer o trajecto que percorri após o fecho da porta metálica e pesada. Um longo corredor, fresco e bem iluminado. Pequenas janelas convidam os raios de sol a entrar, deixando o calor lá fora.

Enquanto caminhava, apenas o som dos meus passos e da minha pesada respiração enchia o lugar. Era como a noite mais escura passada num cemitério vazio de fantasmas dementes. Silêncio em estado puro. Aterrador.

Senti, ainda mais, o peso da responsabilidade quando vislumbrei aquela porta. Não era metálica mas sim de madeira. Tinha uma forma circular, como se fosse a rolha de uma garrafa de um qualquer líquido pecaminoso.

Dois companheiros estavam colocados à porta, vestindo o mesmo uniforme vermelho, cor do Ditador. Ambos pareciam irritados, algo que me deixou sorridente. Ninguém gosta de ficar à porta do paraíso e não puder entrar.

A rolha, como registei mentalmente, foi aberta. Um mundo de véus, cortinas, sofás e poltronas luxuosas, camas redondas e rectangulares explodiu à minha frente. A sala era gigantesca, surreal. Vi centenas de mulheres. Todas elas lindas, perfeitas.

O olhar recaiu, lascivo, numa jovem asiática. Não deveria ter mais de vinte anos. Era de uma beleza inexplicável. Os traços orientais do seu rosto pareciam perfeitas pinceladas de um qualquer génio da pintura. Tal beleza não podia ser real.

Foi apenas um exemplo dos muitos que me assombraram.

Vi centenas de belezas a desfilar à minha frente. Todas elas silenciosas, expectantes. Receosas.

Os primeiros dias foram vividos no fascínio carnal que apenas um homem adulto pode compreender. O tempo mudou esse fascínio para um sentimento bem diferente.

Os meses foram passando, trazendo chuva e vento ou uma suave brisa. Por vezes um calor infernal. Estações do ano que corriam apagando um pouco a minha ilusão de que o mundo estava parado. Como se o globo tivesse amuado como uma criança pequena e desistido de rodar sobre o seu eixo.

Já a tinha visto, claro. Seria impossível, passado tanto tempo, não ver uma daquelas mulheres. Mas algo ocorreu de diferente desta vez. Não sei se foi alguma expressão mais resignada na sua cara oval, clara como uma boneca de porcelana. Talvez algo no brilho triste das safiras que embelezavam o rosto. Percebi que o brilho de um olhar que se escondia por detrás de uma vida miserável, no seu esplendor, deixaria envergonhado o mais belo ovo Fabergé. O seu corpo parecia saído de um filme para crianças, simples e imensamente belo. Não possuía os contornos voluptuosos da maioria das suas companheiras de prisão. Trajava um vestido branco-pérola, que em nada ajudou à minha vontade de a reconfortar. De sentir o toque macio das suas mãos nas minhas, e, com um gesto simples e inocente, conduzir o seu olhar ao meu enquanto lhe sussurrava que não voltaria a passar por aquela maldita porta.

Fui desperto dos meus devaneios quando o chefe do harém agredia, brutalmente, uma das concubinas a soldo.

Nesse instante todos os anos de treino para exercer esta função evaporaram como água turva de uma poça de verão. Sabia que nada disto era correcto. Mas um homem nada pode contra o mundo. E o dono da prisão era o dono do mundo.

Os dias foram passando, mais lentamente, e procurei formas de manter aquela mulher perto de mim. Não que a pudesse proteger, na verdade nem coragem teria de tentar, mas, tal como uma força superior, não me conseguia conter.

Acredito que com o tempo tenha sido perceptível, tanto para ela como para os outros guardas, mas não seria o primeiro tolo apaixonado por uma meretriz do mundo novo.

Passava os dias a controlar os meus impulsos, cada vez menos carnais, para não a poder prejudicar. Uma mulher era uma pechincha comparada ao custo de um guarda do meu nível.

Já não visitava os campos de treino, onde jovens, após verem vendida a sua virgindade por verbas exorbitantes, eram possuídas diariamente pelos guardas para se tornarem experientes nas artes da sedução. Um paraíso ao início.

Agora não afastava da minha mente a possibilidade de ela ter passado pelo mesmo, por um acto bárbaro que tantas vezes cometi. Aos 18 anos, eram consideradas prontas para a venda diária dos suspiros de quem as procuravam. Recebiam o colar vermelho, ornamentado com uma esmeralda ou safira. Uma peça de joalharia fantástica, que não passava de uma marca do destino que os novos deuses, donos do mundo, libertadores da opressão, tinham escolhido para elas.

Os dias assumiram um ritmo lento, triste e sufocante. Algo tinha mudado dentro de mim. O quê, não o sabia explicar.

Todas as semanas a via ser escolhida, levada a contra gosto. A sua cara apresentava os traços de alguém que já não acredita que valia a pena respirar. Como uma maria rapaz obrigada a frequentar ballet, os seus passos não possuíam qualquer graça, os movimentos do corpo não eram fluídos ou sedutores. Talvez fosse isso que agradasse a alguns dos senhores que compravam o seu corpo.

Semana após semana, eu morria mais um pouco.

Um dia, quando a vi chegar, com o cabelo atado num perfeito rabo-de-cavalo com a ponta descaindo para o ombro esquerdo, andando miserável, como que amaldiçoada, exibindo o colar com a safira que era ofuscada pelo brilho triste do seu olhar, sabia que tinha de tomar uma decisão.

Ponderei, durante semanas, como a ajudar. Os dias passavam agora a uma velocidade alucinante. E a chuva que lá fora fustigava o terreno montanhoso que circundava esta prisão carnal, não melhorava o meu estado de espírito.

Elaborei um plano. Mal calculado, mal concebido e a rasar o desesperado. Mas era o melhor que tinha e, principalmente, a única esperança para ela.

Nunca lhe tinha dirigido uma palavra, recusava-me a ser eu a escoltá-la sempre que passava por aquela porta. Na cumplicidade única de quem habita diariamente o inferno disfarçado de paraíso, entre nós, guardas, revezávamos as escoltas para evitar o sofrimento que habitava nos nossos corações de pedra.

Não sei quantos anos ela habitou aquela divisão maldita, recheada de quartos e de espaços comuns, com uma decoração lasciva e sufocante. As velas com cheiros aromáticos que queimavam diariamente, impregnava na pele o aroma artificial de flores que apenas nos sonhos podiam ver agora. As informações eram passadas à moda antiga, um papel com o número da concubina pretendida e qual a porta para onde deveria ser escoltada. Tudo sistemático, burocrático mesmo. Até na exploração este governo gostava de controlar tudo ao mais ínfimo pormenor.

Chegou o dia que pretendia. Apesar de toda a cumplicidade entre os guardas, uma fuga era uma possibilidade que nunca foi ponderada.

Ao receber o número dela, Karin era o seu nome, desloquei-me com ela à porta errada. Vi a surpresa no rosto dela quando me viu escolta-la, o seu olhar interrogava-se como quem questionava se também aquele, eu, teria desistido dela.

Ao mostrar a folha ao guarda, fui repreendido por a porta não se a correcta. Assenti, olhando para os seios parcialmente descobertos da meretriz como que desculpando a minha distracção com aquela visão. O guarda sorriu. A tal cumplicidade assume contornos diferentes entre os que guardam a porta do que julgam ser o paraíso ou daqueles que vivem no verdadeiro inferno encerrado entre aquelas paredes de decoração luxuosa.

Apontou a direcção das escadas para onde me deveria dirigir por forma a entregar a concubina ao guarda correcto. Pelo caminho, reuni toda a coragem em mim.

- Não há tempo para explicar. Quando virares à direita, vais encontrar no chão, por trás da estátua de bronze do guerreiro celta, um fato de criada. Veste-o sem demoras.

Não obtive o prazer de ouvir o som da sua voz, como se duvidasse se sonhava ou não, piscou os olhos rapidamente e assentiu.

Vestiu-se com destreza e rapidez, forçando-me a olhar para longe quando o seu corpo nu me provocava suores frios e arrepios em todo o corpo.

Aproximei-me. Vi que se encolheu, como uma presa que julga que apenas mudou de carcereiro. Quando viu a faca nas minhas mãos o seu rosto tornou-se ainda mais branco, se tal fosse possível. Como se as gotas de sangue se recusassem a habitar o rosto angelical que possuía.

- Calma – disse enquanto erguia as mãos em sinal de paz – Tenho de tirar-te a coleira ou vão perceber que não és uma simples criada.

Vi dúvida no seu rosto, como uma criança que não sabe se a pergunta do professor tem rasteira. Acedeu a que me aproxima-se, mantendo as mãos à volta do peito, abraçando-se com força como eu desejava abraça-la.

O colar cedeu com facilidade. A segunda parte do plano era mais complicada. No entanto, se resultasse, pelo menos uma vida poderia ser salva.

Levei a concubina vestida de criada até outro corredor. Ao chegar à frente do guarda indiquei-lhe que me deixasse passar. Face à sua cara de espanto e incerteza quanto ao que fazer, disse-lhe:

- Ouve bem meu estúpido – soltando uma quantidade considerável de saliva enquanto falava – apanhei esta cabra a roubar um dos colares das meretrizes. Vou leva-la a um quarto e mostrar-lhe o que se faz a quem usa estes colares. Tens alguma coisa contra?

Como se percebesse que era melhor para a sua saúde, ou talvez o receio que houvesse alguma verdade nas minhas palavras, Karin debateu-se, olhando o guarda com súplicas murmuradas.

- Não meu irmão – respondeu com um sorriso – faz o que tens de fazer e deixa essa ladra presa no quarto. Em breve vou dar-lhe a mesma lição que tu. Se quer um colar tem de o merecer – piscou-me o olho, cúmplice.

Sorri e passei em direcção aos quartos. Onde as crianças eram violadas. Entramos num que estava vazio. Pude ver o desespero no seu rosto, com ódio por ter sido enganada.

- Calma! – ergui novamente as mãos em sinal de paz – Tinha de dar uma desculpa credível. Agora vais passar por aquela janela – apontei para a paisagem de uma montanha circundada por uma planície cor de trigo – Vais seguir na direcção do pico da montanha. Irás levar contigo um burro e um cesto que deixei presos a aquela árvore – apontei de novo, tentando ter a certeza que ela me ouvia com atenção – se alguém perguntar, respondes que vais levar fardas dos seguranças ao armazém da destruição.

Vi que ela olhava para os locais que eu apontava com um receio em misto de puro estado de êxtase. A liberdade com que ela tinha tantas vezes sonhado, estava ali. À distância de um salto de uma janela.

- No burro irás encontrar um cesto com dinheiro e indicações sobre o que fazer. Segue-as e serás livre. – Sorri

- Porque me ajudas? – Parou ao ver o embaraço na minha cara – Porque arriscas a tua vida?

- Porque estes senhores do mundo não passam de vampiros. Seres do mal que ocupam as noites sugando a felicidade e a alegria das vossas vidas. São seres que nem uma estaca pode parar, talvez uma revolta, talvez um dia. Mas, para isso ser possível, são necessárias lendas, mitos e boatos. Algo que dê esperança aos outros, que mostre que é possível. Eu e tu. Nós vamos começar por mostrar que é. – Terminei olhando em volta, afastando o olhar dos seus olhos cintilantes.

Sem qualquer palavra, abraçou-me. Pude sentir as suas formas sedutoras contra o meu corpo abstinente. Não me senti tentado. Poderia ter possuído o seu corpo ali mesmo, sendo mais um dos que corromperam a sua alma. Mas a minha escolha estava feita e não passava de um amor platónico. Puro. Saudável, pelo menos para ela.

Sem demoras transpôs a janela que a separava dos horrores que tinha vivido para a liberdade que tanto ambicionava. Fiquei prostrado a ver as suas formas, decididas, avançando para a liberdade. Não traia quem era, pertencendo ao mundo que a rodeava sem qualquer dificuldade.

Fugi. Não por mim, o meu destino estava selado. A forca teria mais um cliente, um exemplo. Mas, era exactamente essa a minha escolha, ser um exemplo para que outros possam arriscar.

Passado um dia fui encontrado, nas ruinas de uma casa luxuosa que o tempo tinha derrubado. Fui condenado sem julgamento e não conheci juiz, apenas carrasco.

De farda vestida percorro o caminho, gasto e vazio, tantas vezes feito, para o castelo. Sem o brilho no olhar que iluminava a primeira vez que o caminhei, de peito cheio, orgulhoso pela tarefa que cumpria. Não, não era inteiramente verdade. O orgulho que tenho é imensamente superior.

Com as mãos presas por algemas ferrugentas, sigo o caminho. A farda mostrava que a justiça atinge todos, até aqueles que se asseguram que os outros a sigam.

Vi, com esperança, olhares tristes e desolados dos meus companheiros, os outros carcereiros. Sabia que, para eles, seria uma lenda. Alguém que, por um amor verdadeiro, desafiou todas as regras. Quantos iriam percorrer os mesmos passos que percorro hoje, não sei, mas sentia que não seria o último a pagar por este crime. Quem sabe, um dia, não sejam os senhores do mundo que percorram este caminho gasto e vazio.

Enquanto a corda me é posta à volta do pescoço, penso nela. Penso que sorri, contente. Livre. Peço a Deus, um qualquer, real ou imaginário, que ela se esqueça de tudo o que aqui sofreu. Se assim for, se para isso ajudar, que até se esqueça de mim. Com um sorriso, é assim que vou desafiar a morte. Sorrio.

8
Escrita Criativa / Olhos verdes - pequeno conto
« em: Outubro 13, 2010, 23:30:38 pm »
Desculpem fazer de vocês cobaias LOL mas ando a testar uma coisa nova na minha escrita ;)

Espero que gostem...

O sino da igreja toca, agitado, oito badaladas. Hora dos telejornais, hora de jantar e hora de sossego. É o normal.

Os carros passeiam na rua, lentos, ignorando a normalidade esperada da hora em questão. Jovens que se reúnem na rua, desafiam a lógica de tempos antigos e de jantares em família.

Há uma cara que se destaca. Uma jovem morena de olhos verdes. Dona de uma beleza subtil, não há quem a descreva como estonteante, nem mesmo como linda. Mas, para um olhar treinado, é fácil de ver que dentro de alguns anos todos os homens irão suspirar por ela.

Está rodeada de gente. Amigos, conhecidos e talvez até desconhecidos. Sorri perante as brincadeiras e lança olhares furtivos a um rapaz da sua idade. Os olhares não são correspondidos. Como se irá arrepender um dia.

Um homem passa pelo grupo. É mais velho, mas ainda jovem. Bem vestido, perfumado e apressado. Reconhece um dos jovens e lança um “boa noite”, desajeitado, ao grupo. Algumas respostas simpáticas e alguns gracejos sobre o pinguim bem-educado.

O grupo avança, em peregrinação, em direcção ao salão de jogos. É o único lugar que promete divertimento na modesta vila. Deveria estar fechado, mas não está, hoje há futebol e o dono nem janta a pensar na bola. É o grupo quem aproveita. Passam pela porta metálica, entrando como peões no chão preto e branco em forma de tabuleiro. Passam pelos snookers, verdes e velhos, pela máquina de tabaco, entrando, finalmente, na zona das máquinas e matraquilhos. Separam-se. Dois grupos, quatro equipas e muita discussão na batalha do futebol de mesa.

Ela fica sozinha. Olha, triste, para o rapaz, o tal, que deseja, mas que é inalcançável. Olha para o flíper, coloca uma moeda e joga. Os sons estridentes da máquina não abafam os gritos dos grupos por trás dela. O dono, velho e com olhar cansado, exaspera na ausência de sossego para ver a partida do seu clube.

A bola teima em não se manter na mesa e os créditos esgotam. Sorri ao ver o rapaz a olhar para ela. Fica embaraçada. Ele desvia o olhar, foca-se no jogo.

Suspira e vai para a porta. Acende um cigarro lá fora e amaldiçoa a maldita lei contra o tabaco em locais fechados. A travessa está vazia, o bar do lado está fechado. A rua parece sinistra na calma que o horário nobre da televisão proporciona. Fecha os olhos e pensa no quanto queria estar lá dentro, junto a ele. Ouve sons atrás dela. O grupo parte, em mais uma peregrinação, para um lado qualquer, um poiso. Como é despreocupada a juventude.

Pelo caminho ela prende os olhos na estrada. Está triste, cansada. Cansada de ser ignorada, cansada de se sentir feia. Cansada da vida e da dificuldade que existe em todos os que a rodeiam, de perceberem, mesmo, que a vida é complicada de se viver. Não importa a idade. A vida é complicada.

Caminharam sem destino até o momento em que alguém sugeriu o parque. Lá forem eles, o grupo, em direcção ao verde calmo e escuro. A biblioteca, cor de tijolo, repousava, imponente, junto aos baloiços onde se fixaram. Brincadeiras e bocas habituais naquela idade e, o rapaz, o rapaz dela, estava aos beijos e amassos com uma loira qualquer. Amiga de uma amiga dela. Que injustiça, o que fazia ela ali?

Os minutos que parecem dias, arrastam-se enquanto ela se magoa, hipnotizada, pelos beijos que o casal, por uma noite, troca. Grita de si, para si, que podia ser ela, se ao menos tivesse falado. Se lhe tivesse dito algo. Mas o medo, o maldito medo da rejeição que paira em todos nós. Claramente menos numas loiras do que nesta morena em particular.

Uma amiga que a chama. Posam para uma foto, mais uma para juntar às dezenas que partilha, indiscretamente, na rede social.

Ao ver a foto, percebem que ao fundo, num banco a muitos metros de distância, alguém fuma um cigarro. Dá um efeito engraçado à foto, a luz incandescente no fundo negro do parque.

O olhar desvia para onde não deve. Vê mãos em lugares proibidos e línguas que deslizam, sedutoras, por pescoços. O monstro da inveja grita dentro de si. Há quem diga que existe inveja boa e inveja má. Malditos psicólogos e a sua mania de tentarem simplificar o mundo. Era inveja. Pura.

Olha para o outro rapaz do grupo, pensa, imagina, o que seria beija-lo e vingar-se dele, do rapaz dela. Mas ele nem deveria reparar, andava mais entretido com o peito grande, maior que o dela, da loira detestável que ali estava.

Toma uma decisão. Acende um cigarro negro como a noite, aroma de chocolate. Avisa o grupo que vai dar uma volta. Alguém se oferece para lhe fazer companhia, recusa. Parte em direcção ao escuro do parque, para longe, para longe deles, dele, especialmente dele. Com os olhos cravados na lua que cresce noite após noite, fuma o seu cigarro e caminha calmamente pelos traços feitos no parque para proteger a relva. Um último olhar. Pensa em como queria estar ali, com ele. Talvez uma palavra tivesse sido suficiente, mas não deveria ser ele a dizê-la? Devia.

***

Dois dias depois, no café perto da escola, o grupo está reunido. Falta alguém, aquela cara bonita em que ninguém repara muito bem. O rapaz, taciturno, relê a noticia no jornal.

“Jovem desaparece no parque municipal”

O resto da notícia falava de alguém que a tinha visto na companhia de um homem jovem, bem vestido, que fumava um cigarro ao seu lado. Apenas uma beata negra tinha sido encontrada. Do homem, o tal bem vestido, nem sinal. Dela, da menina dos olhos verdes, já nem a esperança de um dia melhor resta.

9
Escrita Criativa / "Encontro"
« em: Agosto 27, 2010, 06:36:53 am »
Espero que gostem...

Finalmente o relógio marcava as 17 horas. Hora da saída, hora de liberdade. Hora de sonhos. Hora de tudo menos papéis e relatórios.

Como sempre fui dos últimos a sair, não me importava. Estava radiante, tinha um encontro esta noite. Tudo seria perfeito. Com um sorriso estampado no rosto percorri as ruas quentes de Agosto.

Entrei no carro, liguei a ignição, abri os vidros, liguei o rádio. O normal. Acelerei, com a pressa normal de um solteiro com jantar marcado.

Não sou bonito, mas não causo dores na vista. Não tenho abdominais como o Ronaldo mas também não tenho um barril. Sou um tipo normal. Olhos castanhos, metro e oitenta. Cabelo curto, mãos com calos de escrever. Não sou um Don Juan, mas também nunca fui o nerd da turma. Sou quem sou e gosto disso.

A rádio toca a minha música favorita, que sorte. Prego a fundo vou fintando todos os obstáculos. Sinto-me imparável. Os semáforos nunca estão vermelhos quando passo. Sorrio.

Chego a casa mais cedo do que esperava. Vou brincar com o Lucky. O pastor alemão nem acredita na sorte que tem quando vou ter com ele com a brilhante bola de ténis na mão. Brincamos pouco tempo, mas o velhote já não aguenta muito. Acabamos deitados na relva. Somos os melhores amigos, é verdade. Já passamos por tanto juntos.

Após o breve escape com o cão, vou para o banho. Hora de ficar bonito. Água que escorre, gel duche que escorre e tempo que escorre. Já começo a ficar atrasado.

Voo para o quarto e olho para a cama king size. Com o edredão preto como um corvo, faz-me sentir solitário. Espero que esta noite, o corvo não seja de mau agoiro.

Camisa preta, calças de ganga novas. Ténis pretos. Olho para o espelho e sinto-me bem. Há dias que andava deprimido, precisava disto, de me sentir bem.

Procuro o GPS, marco a morada do restaurante, ponho perfume. Olho de novo para o espelho. Sinto que estou pronto.

Volto para o Opel Corsa preto, faço a rotina habitual. O rádio passa Nirvana, deus como odeio Nirvana.

Começo a ajeitar o GPS, sorrindo pensando na noite que aí vem. Sinal de bateria fraca, tenho de por o aparelho a carregar.

Finalmente com tudo pronto, arranco. O restaurante é mais longe do que contava. Vinte minutos de caminho.

À porta vejo que não há onde estacionar. Procuro um lugar onde deixar o carro. Ao fundo da rua encontro um espaço apertado. Estaciono e logo me aparece um tipo com cara de mafioso.

- Uma moedinha chefe? – Estende a mão

- Quando vier. – Enquanto viro as costas

Chego ao restaurante. Eleven. Restaurante de luxo em Lisboa. Sou recebido por um rapaz muito bem-educado. Pergunta pela minha reserva.

- Venho por parte de Nuno Tavares – Sorri

- Com certeza. Tenho discriminado que pode escolher qualquer mesa no restaurante senhor Gonçalves – sorri enquanto fecha o livro de reservas

Parto em busca da mesa pretendida. Há uma que me impressiona. Reservada, entre móveis antigos. É como jantar em casa, se for multimilionário. Não sou, mas tenho um amigo que é.

- Excelente escolha – Sorri

Sinto o telemóvel a vibrar. Sofia. Atendo.

- Olá - estridente – onde estás? – Enquanto aclaro a garganta

- À porta – sedutora

- Vou já ter contigo, estava a escolher a mesa – sorrindo nervoso

- Até já – sedutora de novo

Sorrio para o empregado. Com um olhar cúmplice diz-me que vai adiantar os preparos da mesa.

Volto até à porta do Eleven. Olho em volta e não vejo ninguém. Sinto uma mão no ombro. Viro-me.

- Olá – diz-me a mulher morena de olhos verdes

- Olá Sofia – sinto um formigueiro na barriga

- Vamos? – Sorri, confiante

Faço-lhe sinal para passar. Observo o seu corpo. Não é uma top model, é certo, mas, ainda assim, é bela. Possui curvas perigosas encobertas pelo vestido negro. Os saltos altos escondem a sua baixa estatura. Sinto no ar um cheiro a perfume, doce. Sorrio.

Encaminho a minha companhia para a mesa escolhida. O empregado fez um excelente trabalho. A mesa circular apresenta os tradicionais copos de cristal. Os pratos brancos com rebordo azul, caros. Os talheres de prata, brilham, impecáveis. Vou para o lugar destinado à senhora e puxo para trás a poltrona azul com bolinhas brancas. Podia parecer piroso, não fosse óbvio o elevado custo da mobília.

Champanhe repousa no gelo. O meu olhar descai para o seu decote. Oiço um sorrir envergonhado. “Bolas, fui apanhado”, penso enquanto levanto os olhos.

- Está com vergonha de me olhar nos olhos? – Pergunta, matreira

- Um pouco, sim – admito

- Não se preocupe Vítor, eu também estou nervosa.

Ementa é vista, pratos são escolhidos, vinho é provado, vinho é aceite. Garfadas educadas na parca refeição e a típica piada de se comer melhor no MacDonalds surge. Sobremesa é escolhida, tudo no Eleven é do mais alto nível, esta noite era a companhia. Sofia era engraçada, confiante, bonita e sedutora. A companhia ideal.

O jantar termina. Quero pagar mas o empregado recusa.

- É uma oferta do Senhor Tavares para o seu grande amigo Gonçalves e a sua companhia. – Sorri

- Não posso aceitar – faço o meu papel – Insisto em pagar

- O seu dinheiro não é aceite no Eleven Senhor Gonçalves, ordens de cima – um olhar como quem diz: ok, está safo

- Aceita Vítor, o Senhor Tavares iria ficar ofendido caso contrário – sorri de olhos semicerrados

- Que seja então. Muito obrigado por tudo – agradeci ao empregado

Ofereço o meu braço à Sofia. Ela aceita. Saímos do Eleven.

- Então onde queres ir? – Pergunto, sorridente.

- Vamos beber um copo, conheces algum bar aqui perto? – Pergunta

- Desculpa Sofia, não sou de sair muito. Gosto de ficar em casa. Tu conheces? – Vergonha, vermelho de vergonha

- Perfeito – sorri ela – A tua casa parece o lugar perfeito

Nem acredito na minha sorte. Ofereço novamente o meu braço e levo-a até ao Opel.

Abro o carro e faço a rotina de sempre, nem com companhia a mudo. A Sofia aumenta o volume do rádio.

- Adoro esta música! Faz-me sentir viva! – Sorri

Acelero o carro enquanto ela canta. Olho distraído para o lado, sorrindo face à sua dança patética.

Umas luzes brilhantes fazem-me olhar para a estrada. Um carro vem em sentido contrário, em direcção a nós. Guino o carro. Fecho os olhos.

Nada. O carro recuperou o controlo e evitou o acidente. Sofia suspirava ao meu lado.

- És o meu herói! Que reflexos! – Sorri – Sabes acho que – enquanto coloca a mão na minha perna – vou estar muito agradecida hoje – sorri

“Lucky hoje dormes na rua, rapaz”, pensei enquanto acelerava de volta a casa. Que noite. Sorri.

10
Escrita Criativa / Chamartin – Santa Apolónia
« em: Agosto 07, 2010, 10:38:38 am »
Espero que gostem...

Era o final da noite em Madrid. Ainda assim o silêncio é uma palavra que não faz qualquer sentido na capital espanhola. Adoro Madrid.

Entrei na casa de banho. Luxo era a palavra que melhor a definia. Lavei as mãos, estavam secas após tantas horas de nervosismo. O negócio estava fechado. Olhei para o espelho. Estava com uma cara cansada. Os meus olhos verdes não tinham metade do brilho habitual, mas, lá no fundo, havia uma dose de triunfo. O cabelo continuava impecavelmente curto, não poderia ser diferente. Era um homem de negócios. Ajeitei a gravata azul, perfeita sobre a camisa branca e olhei para o meu fato Giovanni Galli. O próximo seria Armani. Continuava em boa forma. Anos de boas práticas alimentares e corridas diárias no parque produziram o efeito desejado. “Nada mau Henrique, nada mau”, pensei enquanto secava as mãos na luxuosa toalha.

Olhei uma última vez para o hotel. O negócio da minha vida, feito no melhor hotel onde já estive. Eurostars Madrid Tower. Uma visão impressionante. A torre espelhada é de uma beleza estonteante. À noite, com todos os reflexos de uma cidade com uma vida própria, é fantástico. Um sonho.

Foi-me oferecida uma limusine para me deslocar até à estação de Chamartin. Recusei. Um táxi parecia uma maneira mais prática e discreta de chegar ao meu destino. O meu espanhol nunca foi brilhante, mas o suficiente para conversar alegremente com o taxista sobre as qualidades do mister Mourinho.

Quem nunca foi a Madrid de comboio, não sabe a aventura que perde. Chamartin é mais que uma estação, é uma forma de vida. Os seus arcos vermelhos são pouco notórios à noite, mas já conheço o local como a palma das minhas mãos. Conheço até o pedaço de estrada com um alto que, tantos problemas, causa aos novatos com as suas malas. Respirei uma última vez o ar de Madrid. Adoro Madrid.

Entrei, empurrando o meu pequeno trolley de viagem. Ao fundo, avistei a tão conhecida zona de partidas. A fila estava enorme, o habitual. Calmamente, ocupei o meu lugar no fim. Olhei em volta, tantas pessoas, tantos destinos. Tanto mundo. Reparei numa jovem executiva. Parecia cansada e desapontada com a vida. Tinha olhos castanhos, escondidos por de trás de uns sensuais óculos, que assentavam na perfeição nos seus longos cabelos encaracolados. Não tinha a certeza se eram castanhos-escuros ou mesmo pretos, a luz estava mais fraca na zona dela.

- Mire usted desea ir a Portugal o en busca de la chica? – Perguntou o raio do espanhol

- Quero ir para Portugal. – Respondi sem disfarçar má vontade e em perfeito português.

Mais devagar do que seria necessário lá me deu o bilhete. Mais uma viagem no Lusitânia Comboio Hotel. Caro, sem dúvida, mas a velocidade e os compartimentos privados valem a pena.

Olhei, novamente, em busca da jovem, mas dela, nem sinal. Não fiquei triste, apenas tinha vontade de ver o seu rosto uma vez mais. Decidi entrar para a zona dos comboios. Dentro de poucos minutos poderíamos entrar.

Atravessei o arco que me levava para a entrada, havia uma enorme quantidade de pessoas. A diversidade cultural é algo que adoro. Por isso e, não só, adoro Madrid. Desde mulheres com burkas acompanhadas por homens de mau aspecto de quem todos se afastam, provavelmente, com uma amarga lembrança do dia 11 de Março. Mas não eram apenas muçulmanos que frequentavam a estação. Por mim passou um jovem casal de japoneses, agarrados à sua máquina fotográfica, sorrindo e documentando tudo para mais tarde recordar. Às vezes penso que apenas conhecem o mundo por detrás de uma câmera fotográfica. Mas é melhor que nada. Havia outros, mas não reparei em todos. Eram demasiados, mas ainda bem. Davam cor ao mundo. E ele já é cinzento que chegue.

Plataforma número dois. Chamartin – Santa Apolónia. O meu destino. O comboio estava pronto para receber os seus habituais passageiros. Eu era um dos habituais.

Ajeitei a gravata mais uma vez, em breve estaria livre dela. Entreguei o meu trolley ao empregado, sabendo que em breve estaria no meu compartimento privado. Era um luxo a que me dava.

Atravessei o comboio, sempre atento ao que me rodeava. Cheguei por fim ao meu quarto, pelo menos seria esse o seu nome pelas próximas dez horas. Abri o compartimento, como esperado, lá estava a minha mala. Tirei a gravata e desapertei um botão da camisa. “Assim está melhor”, pensei. Sem mais nada que fazer, retirei o meu livro da mala e fui para o bar. Um café seria uma companhia agradável.

Cheguei ao bar do comboio, era pequeno, mas cumpria o que se lhe pedia. Um balcão longo e curvo, aparado por bancos azuis, confortáveis. Sentei-me num dos bancos e esperei pela minha vez.

- Boa noite – cumprimentou o empregado – o que deseja? – Perguntou sem verdadeiro interesse

- Um café de Viena – Pedi

Ao meu lado sentou-se uma mulher desconcertante. Com um vestido preto, justo, mostrava toda a sensualidade do seu corpo jovem. Os seus cabelos loiros eram curtos, tal como o vestido. Os olhos, de um azul quase cinzento, seriam capazes de gelar o mais quente dos corações. Felizmente não era o meu caso.

- Não prefere uma bebida mais forte? – Perguntou com um sotaque de leste

- Não, obrigado. – Respondi de forma seca à prostituta.

- E uma companhia mais agradável, não? – Insinuou

- Confesso que o meu livro é toda a companhia que desejo. – Frio, mostrei que não estava interessado.

A prostituta abandonou o lugar. São uma espécie de mito destas viagens, ninguém acredita que elas passeiam no comboio até acordarem sem carteira e dinheiro. Às vezes até alianças desaparecem.

Abri o livro na página marcada. Não sei quantas vezes já o tinha lido, mas não o trocava por nada, ou quase.
Senti um toque brusco no cotovelo, que me fez derramar o café sobre o balcão. Irritado olhei para ver quem tinha feito tamanha trapalhada. Era a jovem executiva que tinha visto lá fora.

- Peço imensa desculpa – Pediu – Eu peço já outro para si – Prometeu.

- Não se preocupe. Acontece. – Simpaticamente respondi.

- São dois cafés de Viena – pediu ao empregado – Peço realmente desculpa. Não se sujou? – Perguntou preocupada.

- Estou impressionado. Como sabia que estava a beber café de Viena? – Perguntei sorridente

- Vai-me desculpar – disse com um sorriso – Mas estava a reparar em si há pouco e ouvi-o pedir o café. – Disse corada.

- Então mandou o café para cima de mim para me conhecer? – Disse com uma cara muito séria

- Não, juro que não – Respondeu atrapalhada – Você tem de acre… Certo, pela sua cara, está a gozar comigo. – Disse pouco antes de soltar uma pequena gargalhada.

- Peço desculpa, não resisti. Sou o Henrique – Disse estendendo a mão.

- Patrícia – Respondeu envergonhada.

- Então Patrícia, o que a trouxe a Madrid e a leva de volta a Lisboa? – Perguntei, interessado.

- Negócios. E a si? – Perguntou enquanto bebia um gole do café

- Negócios. E o ar de Madrid. – Respondi enquanto dava um gole também.

- O ar de Madrid? Mas é tão poluído! Eu cá prefiro o ar de Lisboa, cheira a história. – Disse sorrindo.

Quando olhei para ela, percebi o porquê de ter ficado bloqueado nela há pouco. Os seus olhos castanhos eram de uma cor doce. Protegidos de toda a maldade do mundo pelos sensuais óculos, típicos de executiva, que tinha. O seu rosto era redondo, dava vontade de apertar as bochechas. No canto dos seus sensuais lábios carnudos, um pouco de espuma do café subia e descia ao ritmo das suas palavras.

- Mas nunca se sabe o que se pode encontrar em Madrid, é sempre um mistério. – Disse enquanto, distraidamente, passava um papel pelo canto dos lábios dela – Espero que não se importe, tinha um pouco de espuma – Disse com um sorriso.

- Não me importo nada. – Respondeu, cada vez mais vermelha.

- Então e em que zona do comboio está? – Perguntei enquanto deitava fora o papel que tinha usado nos lábios da Patrícia.

- Como vim a trabalho, estou no Gran Classe. – Disse, orgulhosa.

- Você trata-se bem! Sempre quis ver um, mas a minha empresa não é tão generosa quanto a sua. – Disse com um sorriso branco, impecável.

- Se quiser posso mostrar-lhe. – Ofereceu, sem nunca olhar para mim.

“Está no papo”, pensei. Com um sorriso retirei a carteira, paguei os dois cafés e fiz sinal à minha companhia que indicasse o caminho.

Atravessamos todo o comboio até chegarmos à zona da primeira classe. Era um pouco mais luxuosa que a minha,
mas por dez horas achei um disparate. Ainda assim, sorte a minha.

Enquanto caminhávamos não pude deixar de olhar para a bela mulher que tinha à minha frente. A camisa branca da qual agora só via o colarinho contrastava na perfeição com o casaco preto. A sua saia, também, preta era do tamanho ideal. Perfeita para negócios, mas sensual. Adorei Madrid por esta prenda.

Não falamos muito, assim que abriu a porta, puxei o seu braço e envolvi-a num abraço. Um beijo e depois outro, respiração ofegante de ambos. A roupa começou a deslizar, rapidamente, para o chão. Já sem camisola, fiquei a admirar o ventre firme e o peito, maior do que parecia, escondido por detrás do soutien branco. Atirou-me para o banco ao lado da janela e subiu um pouco a saia. Passei as minhas mãos pelo seu corpo, firme. Fiquei louco de desejo. Sem pensar, rasguei as delicadas cuecas que tinha, e penetrei, finalmente, dentro dela. Não sei quanto tempo passou ou o total de posições que experimentamos. Sei que pouco ou nada se disse, mas muito foi feito. Era uma amante fantástica.

Quando acabamos, a segunda vez, deixei que deitasse a cabeça no meu ombro. Ficamos ali durante algum tempo. Soube bem.

- Agora quando chegarmos a Lisboa queres vir à minha casa tomar o pequeno-almoço? – Perguntou inocentemente.

- Sim, claro. – Respondi sem hesitar.

- Onde tens andado toda a minha vida? – Perguntou, mais animada do que quando estava à espera do comboio em Madrid.

- Por aqui. – Respondi casualmente. – Patrícia, eu tenho de ir andando, trocar de roupa. Estamos quase a chegar. Estivemos nisto a noite inteira! – Disse com um sorriso maroto.

- Claro Henrique, vai lá. Encontramo-nos antes de sair? – Perguntou

- É mais fácil se for ao pé das escadas do metro. O que achas? – Perguntei descontraído.

- Claro, é melhor até. Até já. – Despediu-se com um sorriso maroto.

Caminhei, calmamente, até à minha cabine. “Que noite”, pensei. Entrei, e rapidamente troquei de roupa. Umas calças de ganga novas, com uma t-shirt azul escura da Timberland. Os meus ténis favoritos da Adidas, brancos, compunham o que faltava. Ajeitei o cabelo, lavei os dentes e quando dei por mim, estava na hora de sair do comboio.

Avancei rapidamente até à saída. Assim que as portas abriram, olhei em busca da mulher dos meus sonhos. Lá estava ela. Com um vestido verde, próprio de Verão, com o meu filho ao colo.

- Olha o pai – Disse a minha mulher

- Pai!- Gritou enquanto corria para mim.

Apanhei-o em corrida e ergui-o bem alto no ar, na minha mão esquerda brilhava a aliança que tinha estado perdida na mala.

- Vamos – Disse – Estou com fome!

Ao fundo uma mulher procurava por alguém, alguém que tinha conhecido nessa noite. Um homem sedutor. Mas esse homem era tão real como as personagens do livro que nunca largava. “A lenda do Don Juan” era o livro.

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Escrita Criativa / A todos os benfiquistas :)
« em: Agosto 02, 2010, 07:01:39 am »
;D Espero que gostem! ;D

Sim, amo o Benfica :P

Às costas da águia resplandecente
Segue o mesmo timoneiro
Com o apoio de uma nação crente
Será novamente o primeiro

O espanhol Roberto ou o tuga Moreira
É nesta altura a discussão
Seja quem quer que Jesus queira
O Benfica será campeão

À Direita, Maxi não treme
Com a sua vontade de vencer
À Esquerda, o Coentrão que nada teme
O herói que a luz viu nascer

O líder luisão
Com a sua careca incandescente
David sempre com paixão
Deixa o público efervescente

Javi não perdoa
E mostra que sabe jogar
Ramires deixa a toa
Quem o quiser apanhar

O mago Aimar sempre a sorrir
Com passes de encantar
Gaitan no lugar do filho que vimos partir
O ritmo há-de apanhar

Saviola, o coelho à matador
O Miccoli fez esquecer
Cardoso, o goleador
Ajuda a luz a encher

Não esqueço Martins
Com o pontapé canhão
Nas contas e afins
Só quero ver o Benfica campeão.

12
Escrita Criativa / Casamento
« em: Julho 16, 2010, 10:24:23 am »
Espero que gostem!

Hoje era um dia tão perfeito como outro qualquer. Agarrei na minha mochila e segui a minha viagem.

O telemóvel voltou a tocar, era a terceira vez esta manhã. Não podia continuar a ignorar.

- Sim mãe? – Atendi contrariado

- Rui não te esqueceste do casamento do teu irmão, pois não? – Perguntou com maus modos, o normal.

- Não mãe. Diz ao Ricardo que o maninho querido vai estar presente na sua cerimónia! – Respondi já agastado com o tema.

- Rui não sejas assim! Sabes que é um dia importante para o teu irmão.

- Sim já sei isso tudo. Tenho de ir! Adeus! – Desliguei sem esperar resposta

Depois de três anos a trabalhar no Verão a juntar dinheiro para esta aventura, ainda me tratam como um parasita que não quer fazer nenhum. É parte do que me afasta de casa, este sentimento de nunca estar verdadeiramente em “casa”.

Estava quase a terminar este ano fantástico. Conheci o meu país de uma maneira invulgar. Amei e fui amado, fugi e corri atrás. Sorri e chorei, perdi-me e fui encontrado. Durante todo este tempo fui eu e a minha mochila. Em breve tudo voltará a ser como era antes, voltarei a estar preso.

Era o último comboio que apanhava, destino Aveiro, para celebrar o casamento de um irmão que só o era de sangue com uma mulher que nunca tinha visto.

A viagem foi curta, demais mesmo. Quando saí do comboio, senti o ar de Aveiro. Não tinha saudades. As lembranças não eram as melhores. Depois de anos de solidão por ser diferente do que todos julgam ser o normal, estava de volta. É uma cidade que não compreendo. Mas tentei não pensar nisso, confiei que iria encontrar uma última aventura antes do casamento. Segui rapidamente para o Mosteiro de Jesus. Ponto turístico conhecido na cidade seria o ponto de partida para mais uma aventura.

Ao chegar deparei-me, como esperado, com uma autêntica rumaria. As pessoas corriam de um lado para o outro a tirar fotografias ao brasão que se encontrava por cima da porta. Nunca percebi o fascínio por este monumento, achava muito mais piada à estátua que estava do outro lado da rua, dependendo do ponto de vista podia parecer muita coisa. De onde eu estava parecia um peixe. Mas foi então que algo captou a minha atenção. Uma mulher invulgar olhava com um sorriso irónico para os turistas. Depois pareceu olhar para mim, como que a avaliar-me. Resolvi entrar na brincadeira, o que tinha a perder?

Aproximei-me e fiquei surpreendido com o que vi. Era bem mais bonita do que parecia ao longe. Os olhos negros possuíam um brilho que era incomum numa cor tão escura. Assentava que nem uma luva aos cabelos castanhos lisos que voavam aos caprichos do vento. Junto do nariz pequeno e empinado, umas sardas tornavam a visão mais engraçada. O seu corpo não era magro, mas também não era gordo. Era bonito, pelo menos aos meus olhos. Subitamente não tive tanta vontade de brincar, mas sim de a conhecer.

- Precisas de alguma coisa? – Perguntou com uma frontalidade fora do normal

- Na verdade preciso. Queria tirar uma fotografia ao brasão mas estou sem máquina e o telemóvel não tem bateria. Podes tirar e depois envias-me? – Perguntei mudando as regras do meu próprio jogo. Não percebi o porquê.

- Sim claro. Já agora queres uns ovos-moles? Eu pago! – Respondeu enquanto me virava as costas.

Fiquei abismado. Que tamanha resposta me tinha dado aquela mulher. Tive de resistir à minha vontade de a seguir, para a conhecer melhor. Aveiro estava melhor do que pensava. Resignado acabei por pôr a mochila às costas e seguir o meu caminho.

Após umas quantas voltas, decidi voltar ao único sítio desta maldita cidade de que sentia falta. Cheguei ao “meu” banco junto a um dos canais de Aveiro. O cheiro do rio misturado com o das palmeiras plantadas num qualquer período pré-eleitoral deliciava o meu olfacto. Apenas em Lisboa senti algo semelhante. Deixei que o mundo que me rodeava tomasse conta de mim. Tinha aprendido a sentir o que estava à volta, era algo que apreciava mesmo. Tirei o mp3 do bolso e escolhi uma música ao acaso. No meio de tantos álbuns que tinham sido a minha companhia neste último ano, haveria de surgir a música certa para o momento, surgia sempre.

- Proud like a god – cantarolava eu

- Guano Apes. Bom gosto – Disse ela – Ei! Acorda! – Insistiu

Com um pontapé nas canelas abri os olhos não acreditando no que tinha à minha frente. Era a rapariga do nariz empinado.

- Desculpa? – Perguntei, atrapalhado.

- Irra! Ainda não fizeste nada e já estás a pedir desculpa? Começas cedo! – Respondeu de forma bruta
Incrédulo, olhei para o desafio que tinha à minha frente. Esta prometia ser uma aventura bem mais agitada do que as noites passadas na Margem Sul.

- Toma – Disse enquanto lhe oferecia um auscultador dos phones – Aprecia a boa música, pode ser que deixes de ser tão antipática – Disse fechando os olhos, fingindo não me importar com o que ela fizesse.

Pelo canto do olho vi um sorriso a nascer daquele rosto fechado. Estava no bom caminho. Continuei de olhos fechados, a apreciar a música.

- Então estás a gostar? – Perguntei, abrindo finalmente os olhos.

Vazio era como estava o banco ao meu lado. Nem consegui acreditar que estava tão envolvido na música que não a senti partir. Ao meu lado tinha um papel pequeno com uma mensagem engraçada.

- Ovos-moles à minha conta. Amanha às 16:00 na pastelaria Fiore. Toma banho. Cátia.

Não resisti a uma bem-humorada gargalhada. Toma banho. Esta mulher estava a tornar Aveiro interessante.

Fiore era um nome que não me era estranho. Mas tanto tempo depois não me consegui lembrar de onde o tinha ouvido ou visto. Bem de certeza que a minha mãe saberia onde encontrar a pastelaria. Hora de voltar a casa. Não tinha vontade nenhuma.

Pela primeira vez num ano, usei a minha chave para abrir a porta. Tudo estava como me lembrava. O cheiro continuava o mesmo, as plantas continuavam a crescer graças ao sol e aos cuidados da minha mãe. Olhei para a sala e a tristeza voltou. O sofá onde o meu pai se sentava a ver futebol comigo estava igual, apenas vazio. Nunca me conformei com a sua morte. Parte disso me fez viajar, o desejo de quando voltasse tudo não passasse de um pesadelo e o pudesse ouvir a reclamar com o árbitro por um qualquer penalty mal marcado. Que saudades. Fui arrancado dos meus devaneios com uma voz que me chamava ao longe.

- Filho! Estás tão magro! Anda cá! – Disse a minha mãe com uma naturalidade que me espantou – Tens de tomar um banho, urgentemente! – Acabou o seu abraço como era normal, com uma qualquer sugestão acerca de algo que eu tivesse de fazer.

- Magro? Ó mãe deixa-te de coisas! Olha o meu maninho não está? – Disse com a ironia do costume – Queria perguntar como se sente a dois dias de ir para a forca. – Acabei com alguma sinceridade.

- Vocês nunca se vão entender. Desde aquela miúda quando eram mais novos. O vosso problema é serem muito parecidos. – Refilou ela

- Realmente somos como duas gotas de água.

Virando as costas à minha mãe e ao sermão que percebi estar a caminho, percorri o corredor cheio de fotografias de infância até ao meu quarto. A porta estava fechada e por um momento, apenas um tive receio de a abrir.
Depois de tanta aventura e viagem abrir a porta significava estar mesmo de volta. O mesmo poiso todas as noites.

Tudo continuava igual. A cama de casal, antiga, estava no centro do quarto. A janela ao fundo deixava bem visível, um dos canais de que tanto gosto. Fotografias de raros momentos bem passados figuravam numa das prateleiras. O pó que cobria os meus livros, velhos companheiros de aventuras, mostrava que o quarto não teria sido aberto muitas vezes. Melhor assim. Sorri a olhar para o cachecol do Porto que estava pendurado na minha cama. Tetracampeões. Poisei a mochila e escolhi uma roupa para depois do merecido e duplamente recomendado banho.

Enquanto me barbeava, reparava o quanto tinha mudado nesta viagem. Os meus olhos castanhos pareciam agora mais vivos. Atentos a todos os detalhes que me rodeavam. Na cara, agora menos, áspera, continuava a cicatriz que tinha desde uma queda pouco harmoniosa num baloiço. Os cabelos, agora compridos, mantinham o seu loiro escuro habitual, mas os cuidados escassos que tinha sofrido neste último período da minha vida mostravam que estava mais fraco do que antes. Realmente estava um pouco mais magro. Mas nada de especial, a barriguinha continuava a ser uma das imagens de marca. Já tinha sido maior, mas não me importava que fosse mais pequena. Pormenores.

Segui direito para a cama, sem fome para o jantar. Na verdade estava a evitar o mais possível qualquer sinal e evidência de regresso a casa. Ainda não acreditava que já tinha passado um ano desde que tinha saído e que nesse espaço de tempo o meu irmão começou a namorar, ficou noivo e está de casamento marcado para daqui a poucas horas. É incrível como não nos apercebemos que o mundo continua a girar na nossa ausência. E de um momento para o outro as pessoas parecem ter ganho mais dez anos ou finalmente percebemos que já não somos adolescentes. Não sei o que pensar sobre isso, sei sim que gostava de estar agora a dormir na praia verde no Algarve em vez de estar deitado na minha cama, confortável.

A noite passou rápida, e com a manhã chegou a promessa de um dia melhor. Fiz o que há muito tempo não fazia. Cumpri as minhas rotinas matinais, aquelas que só agora percebo o quanto senti falta. Mesmo sem o querer admitir, parte de mim estava a gostar do regresso. E o encontro com a Cátia seria mais um passo para pela primeira vez me sentir bem nesta cidade.

Saí de casa ainda antes do almoço, quis evitar toda a confusão que a véspera do casamento prometia.
Percorri, novamente, as ruas em busca de um local sossegado para almoçar. Algo que aprendi a amar, foi a simplicidade que uma sandes e uma garrafa de água com a paisagem certa pode parecer o mais refinado banquete para a alma. Acabei por ir para a universidade, sentei-me junto ao lago artificial, passando por um aluno perdido em trabalhos à beira do fim-de-semana. Gostava de observar tudo à minha volta.

Tendo passeado mais algumas horas, parti então para o Fiore. Felizmente não há pastelaria de Aveiro que a minha mãe não conheça. Era uma pastelaria simpática, logo ao início o habitual balcão exibia os bolos tradicionais e os sumos que tão bem os acompanham, as bebidas alcoólicas lado a lado com o sinal que era proibido fumar. Procurei uma mesa vazia, o que felizmente não foi complicado de encontrar. Sentei-me estrategicamente virado para a porta, esperando ver a Cátia.

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Escrita Criativa / Lição - Pequeno conto
« em: Julho 06, 2010, 08:23:45 am »
Bem como não havia sugestões no xcrita e estava com vontade de escrever algo... Aqui fica este.

Espero que gostem!

Finalmente era Sábado. Hoje era dia de apanhar o comboio até Évora, e sentar-me com a Luísa nos degraus do spot do Bacelo e ver os skaters cair. Vamos como sempre ficar horas na conversa, entusiasmados com o que temos em comum. Assim espero eu pelo menos.

   Como era normal avisei o pessoal que só voltava à noite, já nem me perguntavam para onde ia. O meu sorriso dizia tudo. Depois de uma semana inteira a ouvir as bocas do costume e a ser perseguido pelos idiotas do costume é o dia em que sou livre. Cheguei à estação de Santa Apolónia bem cedo pela manhã. Quem já caminhou pelas ruelas de Alfama sabe que o cheiro nesta parte de Lisboa não é igual a mais nenhum. É com isso que me identifico com Évora, é o cheiro a história. Depois de comprar o bilhete, fui beber um café enquanto esperava pela hora da viagem. Peguei, como era normal, no jornal de sempre que estava preparado para satisfazer as curiosidades dos clientes. Falavam em reforços do Sporting, li com atenção as mesmas, pois acreditava que este seria o ano em que iriamos calar os lampiões. Depois reparei numa notícia acerca de uma chamada de telemóvel do primeiro-ministro que deu uma barraca qualquer e por último um balanço da operação de Natal da GNR. Mais uns quantos mortos. Era sempre igual, bebida e condução acaba quase sempre no caixão. Era o lema do meu pai, e um dos motivos pelos quais não bebia nem uma gota de álcool. Não ajudava à minha imagem na escola. Penso que esse não era o problema, mas sim o facto de ter mais que uns quilos a mais. Sempre fui duas coisas, inteligente e preguiçoso. As duas misturadas resultam em boas notas e gordura acumulada. Não sou um deus grego como as miúdas procuram, mas também não sou um monstro que deveria estar num labirinto. Bem há dias em que me sinto como tal.

   A viagem começou, tinha duas horas pela frente. Agarrei no livro que tinha escolhido para hoje. Falava de um rapaz que tinha sido abandonado pelo pai e que mais tarde se tinha tornado assassino pessoal do rei. Era um bom livro e com duas horas, um café e pouco barulho na carruagem foi uma óptima viagem.

   O comboio começou a abrandar, e assim fechei o meu livro, estava quase no fim e mal podia esperar pelo próximo. Arrumei as minhas coisas, deitando fora o copo de café e os papéis dos rebuçados que comi. Sempre fui guloso. O comboio parou e rapidamente sai da estação. Senti o vento gelado na cara, o mesmo ar de Lisboa, ar com cheiro de história. Com os auscultadores nos ouvidos fui ouvindo 30 Seconds to Mars enquanto me desviava das pessoas apressadas. Consultei o telemóvel, ainda nada da Luísa. Era estranho mas talvez estivesse sem rede. Como queria voltar a ver o seu sorriso, aqueles olhos castanhos derretiam o meu mundo. Era como eu, gulosa e solitária. As vantagens da internet é conhecer quem tem precisamente os mesmos interesses que nós. O seu sorriso era do mais doce que tinha visto. Talvez mais ninguém olhasse para ela duas vezes na rua, mas para mim tinha uma aura que brilhava, irradiava felicidade na tristeza profunda que era o meu mundo.

   Cheguei, bocejando, aos degraus do Bocelo. Sentei-me à espera da minha musa, questionando-me se seria hoje que teria coragem de a beijar. Sabia que ela também queria, mas a vergonha e o profundo receio de alguma forma a desiludir e terminar com esta ilusão, fazia com que voltasse sempre para Lisboa sem conhecer o calor dos seus lábios.

   Já tinham passado 40 minutos desde a hora de sempre, e nem uma chamada no telemóvel. Não era normal. Resolvi telefonar, embora com algum receio de parecer paranóico ou possessivo. Nada. Tentei mais duas vezes e nada. Apesar de saber onde ela morava, não queria ir tocar à campainha. Podia aparecer o pai dela, e tinham em mãos uma tarefa complicada. Assim continuei a ouvir música, olhando para a zona dos skaters. Estavam estranhamente parados. Mais do que uma vez os vi a olhar para mim, e nasceu no meu peito o receio imediato de que me viessem chatear. Nunca tinha tido problemas em Évora, a Luísa dizia que era do tempo. As pessoas eram mais solitárias e menos dadas a confusões. O meu professor de psicologia concordava com ela.

   Gotas de suor caíram ao longo do meu rosto, quando os vi a caminhar em minha direcção. Agarrei no telemóvel e comecei a escrever uma mensagem para a minha atrasada companhia.
-Então Luísa já te esqueceste de mim? Estou à tua espera nos degraus. Diz algo! Beijos. – Enviei.

   Nunca pensei em ficar aborrecido por ser rápido a enviar mensagens, mas a verdade é que o grupo ainda se aproximava de mim quando eu já tinha arrumado o telemóvel. Os neurologistas dizem que quando nos vemos numa situação de perigo eminente só temos duas reacções possíveis. Ou fugimos ou lutamos. Eu fugi, agarrei nas minhas coisas e comecei a correr. Durante a corrida ouvi gritos a pedirem que parasse, mas nunca o fiz. Já só tinha um perseguidor, percebi que ele não ia desistir e então parei. Cerrei os punhos encarei o mitra.

-Não tenho dinheiro! – Informei com cara de parvo, na realidade sentia-me parvo.

- Calma meu! Tu não és aquele miúdo de Lisboa que se vem abancar com a Luísa ali nos degraus e se riem das nossas quedas? – Perguntou com uma cara estranha

- Costumamos ficar ali sim, mas não nos rimos de vocês! – Menti com medo

- Não faz mal, é um desafio! Quando não se riem é porque estamos a fazer bem! Mas não era por isso que vínhamos ter contigo. – Disse com uma estranha tristeza no olhar.

- Então era porquê? – Perguntei desconfiado e incomodado com a cara do rapaz.

- Sabes, nós conhecíamos a Luísa lá da escola. Andava sempre sozinha, mas isso era porque gostava muito de ler e de ser ela própria e aqui ninguém tem paciência para conhecer quem não seja da mesma onda. Mas mesmo assim gostávamos dela. Mais que uma vez nos safou trocos para um maço de tabaco. Dizia que ainda nos havia de matar. – Explicou-me

- Espera lá – Disse com o estômago estranhamente nervoso – Porquê é que estas a falar da Luísa no passado? – Perguntei genuinamente confuso.

- Era por isso que estava a correr atrás de ti. A Luísa teve um acidente de carro ontem à tarde. Ela e a mãe acabaram por morrer. – Disse sem conseguir olhar para mim.

   Não esbocei qualquer resposta. O desespero tomou conta de mim, sentia um turbilhão de memórias e sentimentos que me estavam a enlouquecer. Sabia que era estranho não ter notícias dela, mas pensei que estava sem saldo ou algo parecido. Talvez até de castigo por ter discutido com o pai no início da semana. Mas morta? Corri o mais depressa que pude para longe do augúrio da desgraça que tinha sido aquele rapaz. Fui até à casa dela, e o que vi. Não tenho palavras para descrever. À frente do portão da casa, estavam várias coroas de flores. Fotos da Luísa e de uma senhora que compreendi ser a sua mãe. As lágrimas que corriam pelo meu rosto em nada se comparavam ao vazio que sentia dentro de mim. Só conseguia pensar no beijo que não lhe tinha dado e nas brincadeiras que tinha tido medo de ter. Pensei em tudo o que perdi por não ter coragem. Foi o meu primeiro amor. Dizem que é único, tenho a certeza que não amarei mais ninguém como amei aquele anjo de olhos castanho e sorriso de mel. Como me arrependo agora de não ter arriscado ser feliz.

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Apresentações / Mais um... :)
« em: Maio 28, 2010, 12:32:54 pm »
Olá, sou o Miguel, tenho 24 anos e sou viciado em livros. Bem isto parece os alcoólicos anónimos, mas deste vício nenhum de nós se quer livrar certo?

Em termos de leitura, como é fácil perceber pela escolha do fórum da SdE, passa pela fantasia. Não que a SdE não venda outros géneros, mas porque é a melhor em Portugal no que à fantasia diz respeito.

O que posso mais partilhar? Sim talvez os autores favoritos. George R.R.Martin, que original não é? Susanna Clarke, Jonathan Stroud, Phillip Pullman. E se mantiver a qualidade e acabar a saga, sem dúvida Patrick Rothfuss.

E pronto tenho a certeza de que me irei integrar bem aqui, afinal é só malta porreira com um excelente gosto para livros!

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