Autor Tópico: A Canção de Kali  (Lida 19266 vezes)

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Offline escritorario

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Re: A Canção de Kali
« Responder #45 em: Novembro 17, 2011, 05:58:22 am »
ATENÇÃO CONTEM SPOILERS A DOIS LIVROS: A CANÇÃO DE KALI E PET SEMATARY


A Canção de Victoria

A Canção de Kali não é um livro de terror, não é um policial ou sequer um thriller fantástico. A Canção de Kali é, na sua essência, um livro sobre a paternidade.
Não li outras críticas pelo que não sei até que ponto isto já tenha sido debatido e defendido mas não é coincidência que Dan Simmons aluda a que o nascimento da filha foi um bem-fadado ponto de partida na sua carreira literária. Isso é evidente neste seu primeiro romance onde, para além da carga filosófica contida na eterna luta do bem contra o mal, para além da pesquisa e experiência vivida adquiridas na viagem à Índia, para além da muleta mitológica, para além do elogio à poesia, para além da exibição crua da miséria arrancada do âmago de Calcutá, o que é verdadeiramente escrito com carinho, com dedicação, enfim, com alma, são pequenos fragmentos que percorrem todo o livro e só no final, com o desenlace inesperado dos últimos capítulos, os conseguimos alinhar num potente veio condutor e criador de todo o enredo. Sou sincero, não antecipei o propósito do livro e essas pequenas ilhas de escrita sentida e honesta apenas raiaram ao de leve a minha intuição. E só aconteceu porque fui pai recentemente e as pequenas descrições de Victoria e da sua relação com Luczak revelaram-se certeiras na memória do meu coração. Foi esse amor real mas impalpável que Dan Simmons conseguiu narrar, construir, alimentar e fazer brilhar ao longo de um livro com personagens esquecíveis, enredos manipulados e diálogos aborrecidos. Foi esse elo, essa ligação entre pai e filha (já que Amrita nem parece mãe, é apenas uma matemática ali metida para fazer número) que Dan Simmons, numa jogada de mestre, implacavelmente despedaça com um relatório de polícia frio, seco e formal no derradeiro final d’A Canção de Kali.
Percebo agora quando me disseram que a novela transmite o verdadeiro terror.
Percebo agora quando me disseram que a novela não transmite um verdadeiro terror.
No primeiro caso foi um pai.
No segundo foi uma mulher (e duvido que seja mãe).
Senti-me fisicamente mal quando li esse capítulo e foi impossível não me vir à memória o Pet Semetary, também ele sobre a paternidade e a dor (apenas a imaginada é insuportável) de perder um filho.  É interessante ver as abordagens de cada escritor. O King apostou no desenvolvimento do pai. O Simmons na ligação entre pai e filha. O King aposta na perdição, na ferida irreparável que a morte do filho provoca e na loucura que inevitavelmente se acomete do pai.  Simmons, por seu lado (e ainda bem), escreve sobre a possível redenção possível depois de, com esforço, se virar as costas à loucura. Senti com tamanho impacto esta mensagem, que Kali, a fonte de todas aquelas descrições execráveis e nojentas, se resumiu a uma diminuta e secundária personagem que, nem sei bem porquê, teve honras de título e capa.
Criticado que está o fulcro da questão, falemos do resto. E o resto é, como suspeitava antes da leitura, um escritor competente, maduro, inteligente, com artifícios pensados e validados. Por tudo isto, Dan Simmons não tem aquela chama da primeira vez. Não tem aquele desvario do não sei o que faço. Não tem a ingenuidade da inexperiência. Escreve bem, sem dúvida, mas com uma rede de segurança lá em baixo e, quando assim é, não há a adrenalina da queda e não há a vertigem da escrita. Isso é, por exemplo, evidente na decisão de Luczak ficar na Índia. Andou metade do livro a querer voltar para casa e numa frase decide ficar. Ou melhor, não foi ele que decidiu, foi o Dan. Em contraponto, gostei da história de Muktanandaji, um recurso bem aplicado com um narrador dentro da narração.
Mas somando tudo, não fiquei convencido do talento de Dan Simmons enquanto Escritor. Confirmei, no entanto, que é Pai.
Felizmente, tenho ali o Hyperion a piscar-me o olho para ver se o escritor afinal sempre é Escritor.

Offline Ammar Ibn Khairin

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Re: A Canção de Kali
« Responder #46 em: Outubro 25, 2013, 23:46:39 pm »
Acabei de ler o livro, é bom mas quanto a mim o Terror é muito mais livro ;)

A minha opinião :

http://leiturasdofiachaocorvonegro.blogspot.pt/2013/10/a-cancao-de-kali-de-dan-simmons.html