Autor Tópico: Pena de Papagaio  (Lida 4909 vezes)

0 Membros e 1 Visitante estão a ver este tópico.

Offline paul_muadib

  • Moderator
  • Leitor de Fim de Semana
  • *****
  • Mensagens: 90
    • Ver Perfil
    • http://blog.tecnofantasia.com
Pena de Papagaio
« em: Maio 04, 2010, 16:48:19 pm »
«Ainda sentia o cheiro da pimenta a irritar-me as narinas. Estava ao sol há uns bons pares de horas, a garganta apertava de sede a ponto de ter mordiscado a madeira do bote mas o que me afligia mais era o cheiro de pimenta que aspirara em jeito de despedida.

- Despedida de rei, hein, Marques!

E tinha rido, o estupor! E os outros tinham acompanhado na risota. Até o Vasco que eu salvara de cair ao mar no Cabo das Tormentas. Largaram-me a marinar no meu próprio suor para morrer, seco com um bacalhau, no sol do Índico. Não tive uma educação tão esmerado como a do meu irmão mais velho mas ainda me lembro do que significa ironia. Salvar corvos para eles nos debicarem os olhos!

Meti a mão na água e molhei a cara evitando que as gotas escorregassem para a minha boca. Erro! A frescura na pele só fez aumentar a sede. Tinha de beber ou enlouqueceria antes de o dia acabar. »

PENA DE PAPAGAIO é da autoria de A.M.P. Rodriguez, e surgiu no Falcão Lusitano, no distante verão de 1954, com destaque de capa na qual um jovem náufrago, com barba crescida e roupa em farrapos, equilibrando-se a custo sobre uma jangada mal amanhada, lança o braço aos céus com ar de sofredor, a pedir clemência (ilustração não atribuida, possivelmente da autoria de Carlos Maranhais, que acabaria por emigrar para o Brasil após o Ano Negro).

Será a última publicação de renome deste autor tão envolto em mistério, de que falaremos mais a seguir.
« Última modificação: Maio 04, 2010, 16:50:19 pm por paul_muadib »

Offline paul_muadib

  • Moderator
  • Leitor de Fim de Semana
  • *****
  • Mensagens: 90
    • Ver Perfil
    • http://blog.tecnofantasia.com
Re: Pena de Papagaio
« Responder #1 em: Maio 06, 2010, 15:17:05 pm »
Da Introdução:

Citar
O que sabemos de A.M.P. Rodriguez? A quase inexistência de informação biográfica e de referências históricas, aliada à sua participação quase exclusiva nas revistas dirigidas por António Assunção (O Falcão Lusitano, Histórias de Além-Mar, Adamastor, Além da Taprobana, O Soldado Valente) sugere à partida que se trataria de um house name, um pseudónimo genérico da pertença da casa editorial que seria usado, à vez, por diferentes autores – uma prática comum quando o editor detinha os direitos de determinada série ou personagem e se limitava a contratar quem desse continuidade às histórias. E de facto é assim que o considera Bruno Câmara no breve, mas relevante, ensaio «Retratos de Portugalidades: O Falcão Lusitano e o Estado Novo», embora, é de referir, o próprio Câmara afirme que não ter pesquisado extensivamente fora do seu âmbito de análise.

Contudo, a coesão de estilo e temas de A.M.P. Rodriguez é demasiado evidente para fundamentar este argumento. Não há autor que não acabe por deixar um cunho pessoal numa obra, seja pela variação na abordagem seja pela força narrativa, e que assim invalide a uniformização de estilo que está subjacente a qualquer pseudónimo genérico.

Deste autor, escolhemos PENA DE PAPAGAIO para figurar nesta recolha antológica do melhor da pulp fiction nacional.

«Por entre o espaço que afastara da folhagem via claramente o Cosme a lavar o sal sólido, que lhe estriava a pele como os riscos dos tigres da Índia. Lavava com a água clara de uma cascata. Afinal, estava mesmo no Inferno. Pelo visto, podia ser belo e terrível e a sua beleza servia para nos amargar ainda mais a desilusão quando descobrimos que estamos tão prisioneiros como a marinar num bote.

Pensa, pensa, repeti para mim mesmo. O que quer que tenha acontecido, eles estão aqui mas não me vão apanhar de novo. Recuei um pouco e lambi a folhagem, retirando da sua humidade um pouco mais de força e lucidez. Tinha de ser. O Cosme apoiara o que eles tinham feito, acenara judiciosamente com um pedaço colorido da sua seda em gesto de despedida. O Inferno não pode ser só para uns. E Inferno por Inferno, ia atrasar o pagamento da minha alma.

Ele podia nem ter visto o que vinha a caminho, claro. Eu podia ter ido de mansinho, torneado por cima a cascata (já vira a maneira de o fazer de onde me encontrava) e ter acabado com a vida dele num ápice, poupando-o ao conhecimento do seu fim. Mas senti a crescer dentro de mim uma fúria. Uma fúria não como as normais, que nos aquecem e fazem sentir febre. Esta fúria gelava os meus dedos e fazia com o meu pensamento fosse mais rápido do que alguma vez tinha sido. Via os pássaros a voar por cima da cabeça do Cosme como se deslizassem com a lentidão de uma pavana. Podia contar os batimentos das suas asas e não via as suas cores misturarem-se. Via uma a uma, vermelho, azul, vermelho, verde. E essa força de pensamento fez-me ter a noção clara que isto não era o Inferno. Pelo menos, não para mim. Era uma oferta divina, da Senhora dos Mares e todos os santos de marinheiros para que a justiça fosse feita. Porque era justo. Deus todo-poderoso permite o tormento dos ímpios e é da sua Graça que o Inferno está cheio. Ele estava a imbuir-me da sua força divina para poder ser feita justiça.»