Autor Tópico: Avenida  (Lida 510 vezes)

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Offline Alví Sarculho

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Avenida
« em: Novembro 04, 2010, 04:16:47 am »
Sento-me aqui disperso nesta esplanada de café para observar a avenida
E nela talvez procuro para tudo isto uma explicação plausível,
Mas decerto estas pessoas que comigo observam esta paisagem de estagnado movimento
Não encontram o mesmo sentimento que a minha visão,
Contudo acredito não ser mais do que ninguém,
Quem sabe se em cada um destes observadores não haja uma pessoa sensível
Capaz de ver o significado da sua solidão,
Sentindo que esta avenida esconde algo que transcende para além
Da lógica fundada de os carros percorrem a sua estrada esbatida
De sentimentos amontoados que o coração não consegue decifrar,
Talvez por falta de tempo ou por puro desconhecimento
Do significado do verbo amar.

Eu também tenho dificuldade
Em descortinar a esperança
Que alimenta esta avenida maldita,
De ser a salvação desta vida, mas já também ninguém acredita
Na luz que por vergonha não alcança
O milagre da boa vontade
De sermos felizes sem desconfiança. 

Curiosamente vejo a minha vida passar-me à frente, como nos filmes antigos,
Daqueles que entristeciam o meu olhar esquecido
Nos dias escuros que ofuscavam o brilho da avenida, onde me sento a observar
O movimento que nela passa incessantemente,
Como no inóspito momento de ver nascer uma razão
Que se tinha mantido calada no meu coração.
Enquanto me sento na esplanada a ver o tudo a se desmantelar.
No olhar destes meus desconhecidos
Vejo o seu ar enternecido
De querer voltar a ser aquela criança contente e não mais um adulto demente.

Mas hoje o sol, que em tantos dias pensei que não me viesse iluminar,
Chegou silenciosamente para me dizer que tudo se foi embora,
Excepto este vazio que me consome e adora.

Problemas? Quem não os tem!
Mas eu guardo-os a todos para mim
Na fórmula resolvida entre o amor e o fim.

Quem sabe se eu não serei mais um, neste disperso Mundo
Que se esgota na clonagem de personagens
Preconcebidas à imagem do nosso criador,
Que muitas das vezes não se sentam numa esplanada
A olhar para nada,
Vendo tudo entre as passagens,
Escassas, por vezes em milésimos de segundo,
No dissuadir atroz movimento controlador.

   
Era mais um café, se faz favor!
Para embeber a minha alma no positivismo acentuado,
Que os meus vis companheiros de observatório
Demonstram com fulgor
Ao ver todo este corrupio irradiado
Pelo esplendor pontificado
Na chegada de mais um aqui a este oratório.

Cansei-me de estar aqui,
Levantei-me e fui pagar a conta
E tudo na minha cabeça se monta
Na conjugação perfeita de me ver partir.

Tomei a avenida
Rumo ao horizonte
Distante no meu sonhar.
Adormeci lentamente
Na esperança de acordar
Contigo aqui.