Autor Tópico: A Colecção ( Conto )  (Lida 632 vezes)

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AlvaroSilveira

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A Colecção ( Conto )
« em: Janeiro 08, 2011, 02:18:08 am »
A COLECÇÃO

Era Natal. A família estava toda reunida. Nada fora do normal. Muita comida, luzinhas e venham as prendas. As atenções estavam viradas para um super especial de Natal que passava na televisão. Artistas cantavam e distribuíam votos de felicidades a todo o Portugal com um sorriso caro espetado na cara. O meu tio parecia nervoso, colado na cadeira, olhava constantemente para o relógio. Definitivamente não estava a gostar de ter tanta gente em sua casa. Levantava-se esporadicamente para advertir um dos meus primos mais novos que voavam pela sala, barafustar com a minha tia que não conseguia acompanhar o ritmo dos esfomeados, ou para encher o copo de vinho. Aproximei-me.

- Então tio? Que é que pediu ao Pai Natal? - Perguntei apenas para fazer conversa.
- Sim - Respondeu, ignorando a minha pergunta.
- Já não o via há muito tempo - tentei de novo.

Fui de imediato fulminado com um olhar que me repelia para o cu de judas do universo. Fiquei nervoso e afastei-me de imediato, mas o meu tio agarrou-me pelo braço e arrastou-me para fora da sala.

- Estou farto do Natal pá! - disse com desespero - Porque é que a tua tia tem que trazer esta gente toda cá para casa?
- Somos família e é...Natal - na tentativa de defender a minha tia.

Sorriu secamente e com o queixo apontou para a minha tia que apanhava pinhões que proliferavam pelo chão da cozinha ao fundo do corredor.

- Só faz merda! - disse com uma frieza insuportável.

Antes que pudesse defender de novo a minha tia, senti o meu braço a ser esmagado. Fui arrastado pelo corredor até a umas escadas que desciam para a garagem. Paramos a meio.

- Escuta! Já és um homenzinho e os homenzinhos sabem guardar segredos certo?
- Ok tio.
- Tenho uma prenda para ti. És o meu sobrinho preferido! - sublinhou a confissão com uma palmada no meu rabo que me deixou bastante desconfortável.

Continuamos a descer e chegamos à garagem. Dois carros, centenas de garrafas vazias de coca-cola, uma bicicleta sem rodas e um calendário de 1982 com um chalé suiço muito bonito compunham o cenário. Ao fundo uma porta. O meu tio apontou para ela como quem exibe um troféu.

- Atrás daquela porta está a paixão da minha vida - avisou-me com um sorriso de menino.

Tentei devolver o mesmo entusiasmo com um sorriso tosco e forçado. O meu tio sacou de um molho de chaves que estavam escondidas atrás de uma pilha de tijolos e com alguma dificuldade chegou à chave correcta. Fez questão de abanar a chaves à frente dos meus olhos, num gesto ridículo, antes de a enfiar na fechadura. Assim que abriu a porta, as luzes acenderam-se automaticamente e pude ver uma escadas que pareciam descer eternamente.

- Força - Encorajou-me o meu tio.

Quanto mais descíamos mais um forte cheiro parecia começar a invadir aquele espaço tornando-o ainda mais claustrofóbico. Não o consegui identificar até chegar a um pequeno hall com uma porta que mais parecia uma caixa forte de um banco. Cheirava-me definitivamente a merda.

O meu tio rodou botões, inseriu códigos e usou mais três ou quatro chaves até que a porta se abriu revelando um cenário mais do que grotesco. Inúmeras gaiolas empilhadas umas em cima das outras e prolongando-se até ao fundo da sala gigantesca que deveria ter o tamanho de um pavilhão desportivo. Dentro das gaiolas pessoas despidas olhavam-nos com medo. Pessoas de todas as raças, sexos e idades. Africanos, Caucasianos, Indianos, Árabes, Sul-americanos, parecia uma arca de Noé de géneros humanos. Fiquei ali especado à porta sem reacção alguma.

- Desculpa o cheiro, com esta coisa do Natal não tive tempo de vir cá limpar - desculpou-se.

Não conseguia reagir. Os meus olhos percorriam aquele cenário infernal. Cada gaiola tinha um cartão que identificava a idade e raça. No pé direito de cada pessoa uma espécie de anilha colorida. O meu tio verificava se as gaiolas tinham comida e água.

- Este aqui nasceu de um cruzamento de um Africano com uma Mongol pura, ficou muito bonito, ainda a semana passada esteve cá um tipo de Ermesinde para me vir buscar dois destes. É complicado fazer com que a mistura saia bem e principalmente é muito raro arranjar uma Mongol Fêmea pura - Explicou-me com orgulho.

- Há mais...pessoas... a fazer isto? - perguntei estupefacto.

- Cá entre nós, só eu é que o sei fazer bem, a maioria dos outros não sabe respeitar as raças e faz tudo mal.

Duas crianças lutavam entre si numa gaiola e o meu tio pegou num pau para os separar.

- Vou ter que separar estes dois malandros. Queres ficar com um? - perguntou-me em tom de desafio.

Não respondi. O meu tio continuou.

- Ensino-te tudo o que precisas para começares a tua própria colecção. Dou-te um macho e uma fêmea à tua escolha.

Continuei sem responder.

- Não precisas de responder agora, pensa nisso, é a tua prenda.

Estávamos de novo na sala, o meu tio sentado na cadeira parecia mais relaxado e parecia não importar-se com o caos da distribuição das prendas. Olhava para mim satisfeito por poder partilhar um segredo. Desembrulhei a minha prenda. Umas meias claro. Mostrei as meias ao meu tio e naquele momento percebi que merecia uma prenda bem melhor do que aquela.
« Última modificação: Janeiro 08, 2011, 02:24:10 am por AlvaroSilveira »

Offline Sor Flavius

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Re: A Colecção ( Conto )
« Responder #1 em: Janeiro 08, 2011, 04:01:16 am »
O teu tio é um sádico!! ;D E o tipo de Ermesinde que aí foi deve ser o meu vizinho, aposto contigo.. :D

A ideia tem potencial... És novo aqui certo?
Penso logo estorvo.

AlvaroSilveira

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Re: A Colecção ( Conto )
« Responder #2 em: Janeiro 08, 2011, 10:04:13 am »
Obrigado pelo feedback.

A ideia surgiu quando o padrasto de um amigo meu me apresentou uma gigantesca  colecção de pássaros.
Tive uma visão daquilo tudo mas com PESSOAS. :D

Offline Sor Flavius

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Re: A Colecção ( Conto )
« Responder #3 em: Janeiro 08, 2011, 10:10:31 am »
 :o Creepy... Ou seja, excelente! ;D
Penso logo estorvo.

Offline Leto of the Crows

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Re: A Colecção ( Conto )
« Responder #4 em: Janeiro 08, 2011, 17:06:36 pm »
Ui, assustador... mas gostei do conceito ^^