Autor Tópico: 3º Conto Conjunto: Sentir  (Lida 3175 vezes)

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Offline etiko

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3º Conto Conjunto: Sentir
« em: Julho 15, 2013, 15:33:49 pm »
De perto pouco se vê, passo a passo vai explorando a escura envolvente, cerrada por um nevoeiro robusto. As grades que limitam o estreito caminho, à direita, sofreram com o peso deste nevoeiro, cedendo a tinta o lugar à ferrugem galgante. Pela esquerda também o muro de saibro se foi desgastando com este peso e através de inúmeras situações que o roçaram. Com o som da gravilha a estalar debaixo dos pés, desloca-se Alice com incerteza do que o próximo passo lhe poderá revelar, criando sons que se confundem com medos e expectativas pré-concebidas no seu inconsciente. Com as árvores a restolhar ao sabor de um vento calmo, pensa como seria se se deparasse com perigo, excitante certamente. Gosta da forma como a viela se curva levemente para a direita, dando-lhe aquele mistério e expectativa que tão bem conhece por já percorrer este caminho inúmeras vezes desde a sua juventude, quando se deslocava por aqui para brincar na quinta para lá das grades, ao contrário destes passeios nocturnos que lhe trazem um misto de medo e excitação. Por mais que queira não pode deixar que a excitação se sobreponha ao medo por não conseguir afugentar do seu pensamento estes actos macabros que se têm vindo a descrever nos mais variados meios de comunicação, especialmente nos da sua área de residência, onde vão acontecendo todos estes actos misteriosos de desaparecimentos sem padrão - segundo quem os descreve...
Que luz estranha. Que som agradável - pelo menos comumente aceite como tal - destes pássaros que acordam cedo quando Alice se costuma deitar. A luz dita estranha agora, vista como normal em tempos. A luz do fim da manhã. No início da manhã um pouco fosca, neste momento totalmente desperta. Tão desperta quanto ela não deveria estar por dormir tão pouco mas o suficiente para o seu hábito, apenas o que o seu relógio necessita. Mas que hora melhor que a noite para se deslocar sem que ninguém se cruze consigo, para que não a julguem com os seus olhares formatados por estereótipos, que tanto jeito dão para que criemos padrões, fugindo assim à surpresa que desperta no olhar um brilho tão bonito quanto esta luz estranha que entra pelas ripas da janela. Pela surpresa fará tudo, pois é nisso que dedica o seu tempo, dando-lhe o máximo de uso possível pois, desperdiçá-lo, é não dar oportunidade à sua criatividade, não a pôr em prática. Descobrir os melhores sítios para esconder relíquias onde, possivelmente, alguém irá usufruir de um momento de surpresa que, inevitavelmente, lhe proporcionará um sentimento, este irá ser diferente de pessoa para pessoa e de descoberta para descoberta. É esta a magia deste jogo, mais que um jogo é a locomotiva que faz a sua vida avançar, esta miscelânea de sentimentos sentidos e oferecidos, o sentir e o fazer sentir, sentir que se vive, reviver. Como é possível banalizarem com um nome tamanho conjunto de experiências – chamam-lhe geocaching – ela chama-lhe Sentir. Objectivo: levar este conceito a um nível incompreensível.

Offline henriqueanders

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Re: 3º Conto Conjunto: Sentir
« Responder #1 em: Julho 23, 2013, 00:07:51 am »
O coração quase que lhe salta pela boca quando ouve a velha portada da janela bater contra a parede de pedra.
— Um dia ainda correm mal estes seus passeios nocturnos, menina Alice. — A voz rouca da senhora Clotilde é inconfundível, a maior coscuvilheira da aldeia e certamente de todas as outras mais próximas.
— Não se preocupe dona Clô. — Esconder o ar assustado atrás de um sorriso para Alice não era mais do que uma brincadeira de criança. Aprendeu desde cedo a representar bem com as brincadeiras do pai. — Aqui na terra até os gatunos são preguiçosos… e olhe que andar por ai à noite dá muito trabalho. — Ouvir o eco do seu riso fê-la calar-se.
A velha Clotilde jamais mostrara os dentes e também não o fez desta vez. Com uma pertinente fungadela e um empinar do nariz, volta a puxar a portada com força.
Pobre dona Clô, a amargura é o seu cárcere privado, pensa involuntariamente.
Velha coscuvilheira dos diabos, meta-se na sua vida ou então morra, pensa e sorri para a noite.
A ideia de se perder no mundo e encontrar-se nos pequenos recantos a fascina, inunda-lhe a vida… de vida. Alice, nunca chegou a perguntar ao pai porque escolheu aquele nome. Tinha pena de não saber, mas gostava do nome.
Conhece o sentimento da borboleta que encontra o mais doce néctar, da mesma forma como conhece o do pardal que vê uma serpente a devorar-lhe as crias. O mundo nunca pediu para ser justo, muito menos para ser perfeito, não há razão que lhe obrigue a ser a juíza. Observar, é o que lhe dá verdadeiro prazer, isso e caminhar. Caminhar, quando todos dormem. O seu próprio medo não passa de uma bancada de ensaios, onde descobre em cada respiração ofegante um pouco mais de si, um pouco mais do mundo.
A lua cheia banha os trilhos e as sombras parecem brincar aos vultos de cada vez que o vento bate com um pouco mais de força. A noite está linda, mesmo que para Alice até as noites feias sejam lindas. A bem da verdade, há muito que ela abdicou dos conceitos, o bonito versus feio é apenas mais um.
As pernas lhe dizem que está muito longe de casa e decide dar-lhes algum descanso. Agacha-se, estica-se, alonga a coluna para baixo com as mãos a tocar os pés. Levanta-se e repara, pela primeira vez, na entrada estreita da gruta. Não acredita em como aquilo passou-lhe despercebido tanto tempo, muitas foram as vezes em que fizera-se àquele trilho. Olha para a lua e volta a sorrir, como se o astro tivesse alguma coisa a ver com o assunto. Alice nunca gostou das tecnologias, apesar de saber que um GPS facilitar-lhe-ia a vida, sempre recusou-o. Seguir o seu instinto costuma resultar e não encontra motivos para desconfiar dele agora. Desvia a era que camufla a abertura na rocha e acende a lanterna.
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Offline JonathanStrange

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Re: 3º Conto Conjunto: Sentir
« Responder #2 em: Outubro 16, 2014, 05:34:12 am »
        Alice respira de forma ofegante e de mãos suadas ergue a lanterna para ver até onde a gruta vai. Não é funda, pelo contrário, mal se pode chamar de gruta. Como é que não vi isto antes? Caminha devagar, aproveitando a excitação do desconhecido, quer saber todos os segredos deste lugar, mas devagar, sem pressa, porque a ela a noite já pouco esconde. O que é aquilo?! Avança rapidamente de encontro a um embrulho, preto, com um laço azul.
        Pegando na caixa sente um arrepio. Pensa no que fazer, deixar a caixa onde está ou abrir a mesma? Prisioneira de uma curiosidade felina, abre o embrulho. Como? Nas suas mãos estão diversas fotos, suas, em momentos privados e públicos, momentos que pensava serem apenas seus e outros sobre os quais não pensou duas vezes.
        Alice abraça-se e treme, a noite ainda tem os seus segredos e a lua, cheia, já não parece tão bela.
"Great minds have purposes, little minds have wishes."
– Washington Irving

 “The people who stay put don’t trust the people who don’t,” - Jedediah Berry


Offline Fernando Pinheiro

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Re: 3º Conto Conjunto: Sentir
« Responder #3 em: Fevereiro 04, 2015, 19:09:56 pm »
Alice não sabia, o que se estava a passar. Como era possível?! A humilhação era enorme. Um jaez de moléstia psíquica. Acções nefastas estavam para acontecer. Ouvia-se um tumulto formidável. Gostava, Alice, que neste momento Clô estivesse presente. Mas não estava. O Medo... Alice formidava-se da cabeça aos pés. Cheiros mefíticos envolviam a gruta. A caixa negra com um enfeite azul-escuro, escuro como o Maligno, fazia-se mostrar as suas fotografias íntimas, algo que monstros  e abutres pedófilos adoravam. Podia ver no fundo da negrura da casa grutesca várias mulheres idosas em volta duma fogueira sombria. Alice escondeu as mãos nervosamente e disse baixinho.
__ Que velhas são aquelas?!...
As idosas nuas e sujas gritavam palavras em fenício, o mesmo falado pelos cananeus, e proferiam frases lusas, perigosas e insidiosas.
__ Hoje é Noite da Santa Valburga.
__ Sim! A nossa assembleia de Azazel irá invocar Decarabia e corromper os corações dos habitantes de Portugal. Alentejo, Almada, Lisboa, Porto e Coimbra serão os primeiros a ser beneficiados com a bondade de Decarabia.
__ Exacto, para isso apenas precisamos de sacrificar umas sete crianças!
__ Não é Decarabia misericordioso?
__ Hoje, trinta de Abril, o monte Brocken irá reunir as bestas mais maravilhosas, para verem o fel de nosso senhor. Diabretes, súcubos, íncubos, hags, estrigas, esqueletos-macabros, cães-do-inferno, galinhas-pretas  e outros familiares infernais, todos virão! Que a missa-negra comece!
Alice não conseguiu deixar de emitir um berro.
__ Foda-se!
Alice fugiu inutilmente para fora da gruta, onde assinou a sua sentença de morte.
__ Tenho que fugir deste sítio! Dês que viva, quer'ir embora já desta cena marada!
E ainda bem, porque estas idosas, que de humanas nada tinham, pois não eram mulheres, mas sim demónios femininos disfarçados. Ao tentar sair da gruta sepulcral, Alice viu o Horror. Viscoso. E tétrico.  Desta é que ela não escapava.
« Última modificação: Fevereiro 27, 2015, 17:09:55 pm por Fernando Pinheiro »
Brevemente Diábolos, o Rapaz-Diabo.

Silent Hill 2 é o melhor videojogo de Fantástico.

Dentro de cada um de nós existe um animal prestes a ser despertado.

Salazarismo e Extrema-direita Sucks -.-'