Autor Tópico: Bárbaro Pardal  (Lida 2274 vezes)

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Offline frei

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    • Bárbaro Pardal
Bárbaro Pardal
« em: Julho 03, 2015, 12:27:07 pm »
Olá,

Deixo aqui algo que me tem entretido nos últimos tempos.

edit: txt completo

«Começo

Noite.

Uma lua cheia ilumina aquele pedaço de mundo. Encostado a umas árvores, uma figura de capuz atiça uma pequena fogueira enquanto cantarola, talvez para se entreter, talvez para afastar o tédio, talvez para se proteger de monstros que se escondem nos recantos da sua imaginação. Quando se está assim, sozinho, longe de casa, sem a luz protectora da nossa familiaridade, todo o vento se torna gigante e toda a sombra arrepiante.

Uns 20 metros mais para sul, protegidos pelas árvores que cobrem a elevação onde se encontram, duas criaturas observam a figura de capuz. Inclinado-se ligeiramente para a sua direita, a figura mais à esquerda sussurra, ‘Mas porque é que ele não apaga o lume? Achas que se quer matar?’. A figura mais à direita permanece imóvel, com o olhar fixo num ponto específico, muito para lá da fogueira. Ligeiramente incomodada com o silêncio do seu interlocutor, a primeira prossegue, ‘Achas que devíamos lá ir? Ou deixamo-lo para a estrada?’. À sua direita, nada. Mais incomodada, acrescenta, ‘A zona parece calma, mas nunca se sabe…’. Silêncio. ‘Não vais dizer nada?’. Um silêncio imóvel. ‘Mas porque é que o quiseste seguir desde hoje de manhã?’. Seguiu, então, o olhar do seu parceiro, fixando-se também naquele ponto infinito. Silêncio. ‘Ok, já percebi, vamos!’. Colocando a mão num volume que trazia presa à cintura, rapidamente desapareceu atrás do seu companheiro de viagem. E enquanto o fazia não se apercebeu do sorriso que este esboçava.



Escuridão

‘Se tu visses o que eu vi… Um pardal a voar do ninho…’, cantarolava. Embora o fizesse num tom quase imperceptível — afinal de contas, não queria atrair companhia indesejável — a melodia soava doce e calma. Aproximou as mãos do lume, não sabe se para se para se aquecer, se para procurar algum conforto para enfrentar o resto da noite. Um silêncio desconfortável cercava-o. Num gesto de coragem interior, puxou o capuz castanho para trás, expondo a sua cabeça a todos os monstros daquela noite. Um arrepio percorreu-o. ‘Não devia ter rapado o cabelo antes da viagem’ pensou. Olhou em volta da fogueira, para o chão. A sacola castanha, de pele de vaca, repousava a seu lado, inchada de tanto carregar. Deteve-se uns segundos, aparentemente intermináveis, a olhar para ela, até que um som o acordou do seu torpor. Rapidamente atirou areia para cima da fogueira enquanto olhava na direcção desse som. Era o som de algo que se parecia arrastar pelas folhas secas, caídas das árvores. Instintivamente agarrou a sacola apertando-a junto ao peito.



A indecisão apoderou-se dele. Num segundo revelou-se incapaz de escolher entre esconder-se, correr ou atacar. Ali ficou. Parado. O coração na garganta. Sacola junto ao peito. Apertada. A respiração acelerada. O olhar fixo no ponto escuro e tão próximo (distante, na realidade), de onde vinha o som. A mão livre crava-se no chão. Algo se mexe. As folhas no chão, primeiro. Os arbustos, depois. Algo. Um vulto. Mas… Ele percebe claramente que não é um animal, parece uma pessoa. Alguém… alto? Magro? Que se aproxima num andar lento? Hirto? Aproxima-se. As suas feições vão ficando mais claras à medida que se aproxima. Parece… um senhor? Um cavalheiro de roupas finas? Bem penteado? Cara magra e séria? Será que está… a tentar chamar? A dizer qualquer coisa?



Consegue afastar a sacola do peito enquanto se levanta, não deixando, contudo, de a segurar bem. Já em pé, sacode o pó das calças e compõe a túnica. ‘Boa noite!’, avança, tentando parecer confiante. Nada. ‘Boa noite’, diz mais alto. Apercebe-se que o estranho diz qualquer coisa. ‘Ahm, está tudo bem?’, e dá um passo atrás. O estranho avança, sem abrandar. ‘Diga?’, recua até embater de costas numa árvore. O estranho avança. A sacola volta para junto do peito. ‘Que diz?’. A bocado estranho abre e fecha. Agora a cinco passos de distância, apercebe-se do cheiro nauseabundo que do estranho emana. Podridão. Morte. Decomposição. Tapa o nariz com a sacola. Fecha os olhos. E é então que finalmente consegue perceber o que o estranho diz. A voz rouca. Arranhada. Morta.

Kooonnnn… kooooonn… seeeennn… kooonn ssseeeenn sssuuuu…



Primeiro sangue

O monstro (agora era bem perceptível que era um monstro), encosta-o violentamente contra a árvore, com uma mão gélida e putrefacta. O cheiro invade-lhe as narinas, ocupando-lhe o corpo e acaba em vómito.

Kon sen su

As palavras da criatura são agora claras, embora o seu significado seja misterioso. ‘Assim não’, pensa ele enquanto fecha os olhos, esperando pelo inevitável. Nesse momento, tudo parece ficar mais lento. Sente os seus olhos a fechar, enquanto a mão do monstro o aperta. Sente o coração a descer da garganta e a acalmar, para um ritmo quase normal. Sente a mão a largar a sacola. Sente… o monstro a largá-lo? Ainda de forma lenta, abre os olhos e percebe que alguém saltou dos arbustos e pontapeou o monstro nos joelhos, partindo-lhe a perna direita. Parecendo um mesmo, único, movimento, enquanto a criatura cai, o misterioso benfeitor rodopia, dobrado, sobre a sua perna direita, ficando virado para o monstro. Levando as mãos à cintura, este misterioso herói desembainha duas espadas curtas. Ele detém-se a admirá-las por um breve instante.

O monstro começa a levantar-se e as espadas rapidamente avançam na sua direcção. A espada da mão esquerda apenas rasga um dos braços, enquanto a outra perfura um ombro. O som que sai daquela boca disforme é atroz, maléfico mesmo, como uma ameaça originária do mais profundo dos ódios. De repente, ele salta, apanhando o seu oponente de surpresa e derrubando-o. As espadas caem. Ficando por cima, num frenesim, o monstro golpeia com as suas mãos. O guerreiro apenas consegue proteger a cara com os seus braços, enquanto tenta posicionar uma bota no abdómen da criatura. Depois de alguns selváticos instantes, finalmente impulsiona a criatura para o lado, rapidamente rodando sobre si. Como numa dança, apanha uma das espadas, e, de joelho esquerdo no chão, fixa o monstro caído, antes de o trespassar no estômago. Lentamente levanta-se, ofegante, olhando para baixo, para aquela vil criatura a estrebuchar.

Ainda encostado à árvore,ele absorve tudo aquilo que viu, sem saber que sentido lhe dar. É então que sente uma mão no ombro. Sobressaltado, olha para trás, encontrando um rosto bonacheirão e antigo. ‘Espera aqui, meu rapaz’, afirma aquele velho, calmamente, ao mesmo tempo que começa a andar na direcção do campo de batalha. Lá chegado, pára a fitar a agonia da criatura. Depois, no mesmo tom que se tinha ouvido ainda há pouco:

Morre

A criatura abre muito os olhos. Da sua boca escancarada nada sai. É então que deixa de se mexer. Nada. Como se simplesmente tivesse deixado de existir.



Menos um aníbal no mundo

Ainda com a adrenalina a pulsar, aperta a sacola novamente. A velha figura apoia-se no cajado, de olhos fechados e cabeça ligeiramente inclinada para baixo. Murmura algo imperceptível. Ao seu lado, o guerreiro limpa as espadas nas calças. Perdido, olha em volta. Ladrões? Assassinos? Ladrões de certeza. ‘Eu… eu não tenho… não tenho grande coisa’, balbucia, ‘levem… o que quiserem.’ ‘Obrigado’, acrescenta rapidamente.

Enquanto o velho se mantém impávido, uma sonora gargalhada sai do seu parceiro. ‘Mas de onde é que tu saíste?’, pergunta uma voz feminina, ligeiramente rouca. ‘A sério…?’, continua, virando-se para ele. ‘Se eu te quisesse roubar, não achas que dava menos trabalho esperar que este aníbal acabasse o serviço para depois, sem pressa, espreitar os teus restos?’. Aproxima-se dele. A luz da lua cheia ilumina-lhe finalmente o rosto, revelando uma cara oval, com nariz pequeno e uma pele morena. ‘Nome?’, pergunta enquanto estica a espada direita na direcção da sacola colada ao peito. ‘Ahm… o meu nome é—’começa ele antes de ser interrompido. ‘A sério, pardalito? Ias mesmo dizer-me o teu nome? Aqui? Nesta estrada escura? E também me ias contar de onde vinhas e para onde ias? E que coisa importante te leva a aventurar tão fora do teu meio?’, atira, embainhando ambas as espadas.

Antes que ele ou ela pudessem acrescentar algo, a mão do velho pousa no ombro dela. ‘Deixa-o’, diz, sorrindo, ‘não faças o rapaz ficar ainda mais nervoso’. ‘Trata-me por Velho, amigo. Esta é a Tê’. Avança vagarosamente na direcção do rapaz, ‘Anda, vamos partilhar esta fogueira’.

Sentam-se.

Um longo silêncio enche a noite. O Velho aquece as mãos perto do fogo. A Tê fita o lume, parecendo recuperar as energias gastas no combate. Ele não sabe bem onde pousar o olhar, perdendo-se entre o lume, as mãos do Velho e a Lua. ‘Acham que estamos seguros?’, arrisca finalmente. Levantado o olhar, o Velho começa a responder, e é apenas aí que ele se apercebe das feições de buldogue velho. ‘Nunca encontraste uma criatura destas, pois não? Não te preocupes, eles secam tudo à sua volta, bom e mau. Devemos ter mais umas noites em segurança por estes lados’.

Agora os olhos do rapaz brilham um pouco, enquanto a curiosidade o leva a inclinar-se um pouco para a frente, ‘Chamaram-lhe um… aníbal?’. ‘Sim, sim, é um aníbal’, responde-lhe o Velho, ‘criaturas temíveis! Um aníbal nem está morto, nem está vivo, existe num estado de semi-consciência, apercebendo-se das formas da realidade, mas nunca da realidade das formas. Exala podridão, destila ódio, e apenas cospe aquelas palavras amaldiçoadas! Uma feitiço de cortina faz com que, ao longe, pareça um mui apresentável senhor, douto, sábio e prestável… E é assim que apanha as suas vítimas!’, vai explicando, de dedo em riste, já algo exaltado. ‘Apenas quando está próximo o suficiente para atacar é que o feitiço de cortina se levanta, revelando a verdadeira natureza da criatura. Mas aí…’ baixa o dedo e acalma-se, ‘… aí normalmente já é tarde. Aí já o deixámos aproximar demais e, quando damos por isso, estamos infectados. Depois disso apenas nos resta uma morte lenta’. Apoia ambos os braços nos joelhos e baixa os olhos. Parece triste. ‘É muito difícil de matar. Aquilo que a Tê fez apenas os atrasa; é necessário um conjunto poderoso de feitiços — as Palavras Públicas — para finalmente os banir deste plano. Já ladeias inteiras foram devastadas por um único aníbal…’. Silêncio.

‘Eu, eu não fazia ideia. Nunca tinha ouvido falar de tal coisa.’, finalmente arrisca, ‘São criaturas mágicas, portanto?’. Sem deixar de fitar o lume, Tê ajeita a pulseira de couro que tem no pulso esquerdo, ‘Sim. As Lendas contam que mesmo antes do fim da Velha República, antes do Grande Entradismo e do Colapso dos Treze, um velho Regente, já perto do fim dos seus dias fez um pacto com três Senhores do Abismo. Esse Regente — já senil, dizem alguns — sonhava com um passado idílico, algo que, na verdade, nunca tinha acontecido excepto na sua cabeça distorcida. Um passado de respeito, harmonia, onde tudo prosperava sob a alçada de um grande líder, sábio e magnânimo. Para ele, as Revoltas Florais tinham acabado com isso tudo, instalando o caos e a decadência na sociedade. Acontece que ele achava-se muito melhor do que na realidade era. Revia-se naquele grande líder de outrora. E queria tanto o retorno daquela sociedade onde se achava plenamente integrado! Então fez o pacto. Convocou os três Senhores, pensando que os controlava, e abriu-lhes as portas deste nosso plano. Claro que não os controlou. Claro que correu tudo mal. Terá pago um preço alto. Eterno, a decompor lentamente. O ritual de entrada resultou numa explosão mística, na qual esse Regente viu a sua essência extraída e espalhada por todo o nosso plano. Como uma doença que infecta toda a nossa sociedade. Um aníbal em todos os cantos. Dizem que ainda existe, esse Regente. Trancado na sua torre de cristal. Demente. A decompor lentamente.’ Parou subitamente. Olhou para cima e sorriu, ‘Alguém tem alguma coisa que se beba?’»
« Última modificação: Julho 06, 2015, 15:22:23 pm por frei »
"great weapon for undermining (rather than overthrowing) the state was the refusal by individuals to cooperate with it and obey its immoral demands"

Offline Fernando Pinheiro

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Re: Bárbaro Pardal
« Responder #1 em: Julho 07, 2015, 23:16:13 pm »
Olá,

Deixo aqui algo que me tem entretido nos últimos tempos.

edit: txt completo

«Começo

Noite.

Uma lua cheia ilumina aquele pedaço de mundo. Encostado a umas árvores, uma figura de capuz atiça uma pequena fogueira enquanto cantarola, talvez para se entreter, talvez para afastar o tédio, talvez para se proteger de monstros que se escondem nos recantos da sua imaginação. Quando se está assim, sozinho, longe de casa, sem a luz protectora da nossa familiaridade, todo o vento se torna gigante e toda a sombra arrepiante.

Uns 20 metros mais para sul, protegidos pelas árvores que cobrem a elevação onde se encontram, duas criaturas observam a figura de capuz. Inclinado-se ligeiramente para a sua direita, a figura mais à esquerda sussurra, ‘Mas porque é que ele não apaga o lume? Achas que se quer matar?’. A figura mais à direita permanece imóvel, com o olhar fixo num ponto específico, muito para lá da fogueira. Ligeiramente incomodada com o silêncio do seu interlocutor, a primeira prossegue, ‘Achas que devíamos lá ir? Ou deixamo-lo para a estrada?’. À sua direita, nada. Mais incomodada, acrescenta, ‘A zona parece calma, mas nunca se sabe…’. Silêncio. ‘Não vais dizer nada?’. Um silêncio imóvel. ‘Mas porque é que o quiseste seguir desde hoje de manhã?’. Seguiu, então, o olhar do seu parceiro, fixando-se também naquele ponto infinito. Silêncio. ‘Ok, já percebi, vamos!’. Colocando a mão num volume que trazia presa à cintura, rapidamente desapareceu atrás do seu companheiro de viagem. E enquanto o fazia não se apercebeu do sorriso que este esboçava.



Escuridão

‘Se tu visses o que eu vi… Um pardal a voar do ninho…’, cantarolava. Embora o fizesse num tom quase imperceptível — afinal de contas, não queria atrair companhia indesejável — a melodia soava doce e calma. Aproximou as mãos do lume, não sabe se para se para se aquecer, se para procurar algum conforto para enfrentar o resto da noite. Um silêncio desconfortável cercava-o. Num gesto de coragem interior, puxou o capuz castanho para trás, expondo a sua cabeça a todos os monstros daquela noite. Um arrepio percorreu-o. ‘Não devia ter rapado o cabelo antes da viagem’ pensou. Olhou em volta da fogueira, para o chão. A sacola castanha, de pele de vaca, repousava a seu lado, inchada de tanto carregar. Deteve-se uns segundos, aparentemente intermináveis, a olhar para ela, até que um som o acordou do seu torpor. Rapidamente atirou areia para cima da fogueira enquanto olhava na direcção desse som. Era o som de algo que se parecia arrastar pelas folhas secas, caídas das árvores. Instintivamente agarrou a sacola apertando-a junto ao peito.



A indecisão apoderou-se dele. Num segundo revelou-se incapaz de escolher entre esconder-se, correr ou atacar. Ali ficou. Parado. O coração na garganta. Sacola junto ao peito. Apertada. A respiração acelerada. O olhar fixo no ponto escuro e tão próximo (distante, na realidade), de onde vinha o som. A mão livre crava-se no chão. Algo se mexe. As folhas no chão, primeiro. Os arbustos, depois. Algo. Um vulto. Mas… Ele percebe claramente que não é um animal, parece uma pessoa. Alguém… alto? Magro? Que se aproxima num andar lento? Hirto? Aproxima-se. As suas feições vão ficando mais claras à medida que se aproxima. Parece… um senhor? Um cavalheiro de roupas finas? Bem penteado? Cara magra e séria? Será que está… a tentar chamar? A dizer qualquer coisa?



Consegue afastar a sacola do peito enquanto se levanta, não deixando, contudo, de a segurar bem. Já em pé, sacode o pó das calças e compõe a túnica. ‘Boa noite!’, avança, tentando parecer confiante. Nada. ‘Boa noite’, diz mais alto. Apercebe-se que o estranho diz qualquer coisa. ‘Ahm, está tudo bem?’, e dá um passo atrás. O estranho avança, sem abrandar. ‘Diga?’, recua até embater de costas numa árvore. O estranho avança. A sacola volta para junto do peito. ‘Que diz?’. A bocado estranho abre e fecha. Agora a cinco passos de distância, apercebe-se do cheiro nauseabundo que do estranho emana. Podridão. Morte. Decomposição. Tapa o nariz com a sacola. Fecha os olhos. E é então que finalmente consegue perceber o que o estranho diz. A voz rouca. Arranhada. Morta.

Kooonnnn… kooooonn… seeeennn… kooonn ssseeeenn sssuuuu…



Primeiro sangue

O monstro (agora era bem perceptível que era um monstro), encosta-o violentamente contra a árvore, com uma mão gélida e putrefacta. O cheiro invade-lhe as narinas, ocupando-lhe o corpo e acaba em vómito.

Kon sen su

As palavras da criatura são agora claras, embora o seu significado seja misterioso. ‘Assim não’, pensa ele enquanto fecha os olhos, esperando pelo inevitável. Nesse momento, tudo parece ficar mais lento. Sente os seus olhos a fechar, enquanto a mão do monstro o aperta. Sente o coração a descer da garganta e a acalmar, para um ritmo quase normal. Sente a mão a largar a sacola. Sente… o monstro a largá-lo? Ainda de forma lenta, abre os olhos e percebe que alguém saltou dos arbustos e pontapeou o monstro nos joelhos, partindo-lhe a perna direita. Parecendo um mesmo, único, movimento, enquanto a criatura cai, o misterioso benfeitor rodopia, dobrado, sobre a sua perna direita, ficando virado para o monstro. Levando as mãos à cintura, este misterioso herói desembainha duas espadas curtas. Ele detém-se a admirá-las por um breve instante.

O monstro começa a levantar-se e as espadas rapidamente avançam na sua direcção. A espada da mão esquerda apenas rasga um dos braços, enquanto a outra perfura um ombro. O som que sai daquela boca disforme é atroz, maléfico mesmo, como uma ameaça originária do mais profundo dos ódios. De repente, ele salta, apanhando o seu oponente de surpresa e derrubando-o. As espadas caem. Ficando por cima, num frenesim, o monstro golpeia com as suas mãos. O guerreiro apenas consegue proteger a cara com os seus braços, enquanto tenta posicionar uma bota no abdómen da criatura. Depois de alguns selváticos instantes, finalmente impulsiona a criatura para o lado, rapidamente rodando sobre si. Como numa dança, apanha uma das espadas, e, de joelho esquerdo no chão, fixa o monstro caído, antes de o trespassar no estômago. Lentamente levanta-se, ofegante, olhando para baixo, para aquela vil criatura a estrebuchar.

Ainda encostado à árvore,ele absorve tudo aquilo que viu, sem saber que sentido lhe dar. É então que sente uma mão no ombro. Sobressaltado, olha para trás, encontrando um rosto bonacheirão e antigo. ‘Espera aqui, meu rapaz’, afirma aquele velho, calmamente, ao mesmo tempo que começa a andar na direcção do campo de batalha. Lá chegado, pára a fitar a agonia da criatura. Depois, no mesmo tom que se tinha ouvido ainda há pouco:

Morre

A criatura abre muito os olhos. Da sua boca escancarada nada sai. É então que deixa de se mexer. Nada. Como se simplesmente tivesse deixado de existir.



Menos um aníbal no mundo

Ainda com a adrenalina a pulsar, aperta a sacola novamente. A velha figura apoia-se no cajado, de olhos fechados e cabeça ligeiramente inclinada para baixo. Murmura algo imperceptível. Ao seu lado, o guerreiro limpa as espadas nas calças. Perdido, olha em volta. Ladrões? Assassinos? Ladrões de certeza. ‘Eu… eu não tenho… não tenho grande coisa’, balbucia, ‘levem… o que quiserem.’ ‘Obrigado’, acrescenta rapidamente.

Enquanto o velho se mantém impávido, uma sonora gargalhada sai do seu parceiro. ‘Mas de onde é que tu saíste?’, pergunta uma voz feminina, ligeiramente rouca. ‘A sério…?’, continua, virando-se para ele. ‘Se eu te quisesse roubar, não achas que dava menos trabalho esperar que este aníbal acabasse o serviço para depois, sem pressa, espreitar os teus restos?’. Aproxima-se dele. A luz da lua cheia ilumina-lhe finalmente o rosto, revelando uma cara oval, com nariz pequeno e uma pele morena. ‘Nome?’, pergunta enquanto estica a espada direita na direcção da sacola colada ao peito. ‘Ahm… o meu nome é—’começa ele antes de ser interrompido. ‘A sério, pardalito? Ias mesmo dizer-me o teu nome? Aqui? Nesta estrada escura? E também me ias contar de onde vinhas e para onde ias? E que coisa importante te leva a aventurar tão fora do teu meio?’, atira, embainhando ambas as espadas.

Antes que ele ou ela pudessem acrescentar algo, a mão do velho pousa no ombro dela. ‘Deixa-o’, diz, sorrindo, ‘não faças o rapaz ficar ainda mais nervoso’. ‘Trata-me por Velho, amigo. Esta é a Tê’. Avança vagarosamente na direcção do rapaz, ‘Anda, vamos partilhar esta fogueira’.

Sentam-se.

Um longo silêncio enche a noite. O Velho aquece as mãos perto do fogo. A Tê fita o lume, parecendo recuperar as energias gastas no combate. Ele não sabe bem onde pousar o olhar, perdendo-se entre o lume, as mãos do Velho e a Lua. ‘Acham que estamos seguros?’, arrisca finalmente. Levantado o olhar, o Velho começa a responder, e é apenas aí que ele se apercebe das feições de buldogue velho. ‘Nunca encontraste uma criatura destas, pois não? Não te preocupes, eles secam tudo à sua volta, bom e mau. Devemos ter mais umas noites em segurança por estes lados’.

Agora os olhos do rapaz brilham um pouco, enquanto a curiosidade o leva a inclinar-se um pouco para a frente, ‘Chamaram-lhe um… aníbal?’. ‘Sim, sim, é um aníbal’, responde-lhe o Velho, ‘criaturas temíveis! Um aníbal nem está morto, nem está vivo, existe num estado de semi-consciência, apercebendo-se das formas da realidade, mas nunca da realidade das formas. Exala podridão, destila ódio, e apenas cospe aquelas palavras amaldiçoadas! Uma feitiço de cortina faz com que, ao longe, pareça um mui apresentável senhor, douto, sábio e prestável… E é assim que apanha as suas vítimas!’, vai explicando, de dedo em riste, já algo exaltado. ‘Apenas quando está próximo o suficiente para atacar é que o feitiço de cortina se levanta, revelando a verdadeira natureza da criatura. Mas aí…’ baixa o dedo e acalma-se, ‘… aí normalmente já é tarde. Aí já o deixámos aproximar demais e, quando damos por isso, estamos infectados. Depois disso apenas nos resta uma morte lenta’. Apoia ambos os braços nos joelhos e baixa os olhos. Parece triste. ‘É muito difícil de matar. Aquilo que a Tê fez apenas os atrasa; é necessário um conjunto poderoso de feitiços — as Palavras Públicas — para finalmente os banir deste plano. Já ladeias inteiras foram devastadas por um único aníbal…’. Silêncio.

‘Eu, eu não fazia ideia. Nunca tinha ouvido falar de tal coisa.’, finalmente arrisca, ‘São criaturas mágicas, portanto?’. Sem deixar de fitar o lume, Tê ajeita a pulseira de couro que tem no pulso esquerdo, ‘Sim. As Lendas contam que mesmo antes do fim da Velha República, antes do Grande Entradismo e do Colapso dos Treze, um velho Regente, já perto do fim dos seus dias fez um pacto com três Senhores do Abismo. Esse Regente — já senil, dizem alguns — sonhava com um passado idílico, algo que, na verdade, nunca tinha acontecido excepto na sua cabeça distorcida. Um passado de respeito, harmonia, onde tudo prosperava sob a alçada de um grande líder, sábio e magnânimo. Para ele, as Revoltas Florais tinham acabado com isso tudo, instalando o caos e a decadência na sociedade. Acontece que ele achava-se muito melhor do que na realidade era. Revia-se naquele grande líder de outrora. E queria tanto o retorno daquela sociedade onde se achava plenamente integrado! Então fez o pacto. Convocou os três Senhores, pensando que os controlava, e abriu-lhes as portas deste nosso plano. Claro que não os controlou. Claro que correu tudo mal. Terá pago um preço alto. Eterno, a decompor lentamente. O ritual de entrada resultou numa explosão mística, na qual esse Regente viu a sua essência extraída e espalhada por todo o nosso plano. Como uma doença que infecta toda a nossa sociedade. Um aníbal em todos os cantos. Dizem que ainda existe, esse Regente. Trancado na sua torre de cristal. Demente. A decompor lentamente.’ Parou subitamente. Olhou para cima e sorriu, ‘Alguém tem alguma coisa que se beba?’»

Escreves muito bem.  ;D Continua! Mas alguns erros que escaparam (Tinha que haver um mas, "g'anda" malvado!).

Não é deixamo-lo, mas deixemos-lo ou deixamos-loQue nós deixemos.

Por que Aníbal está com letra minúscula várias vezes?  :-\ É propositado?
« Última modificação: Julho 07, 2015, 23:20:38 pm por Fernando Pinheiro »
Brevemente Diábolos, o Rapaz-Diabo.

Silent Hill 2 é o melhor videojogo de Fantástico.

Dentro de cada um de nós existe um animal prestes a ser despertado.

Salazarismo e Extrema-direita Sucks -.-'

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Re: Bárbaro Pardal
« Responder #2 em: Julho 15, 2015, 11:04:26 am »
Obrigado e obrigado (vou editar isso). O Aníbal/ anibal é propositado, sim. A ideia é mostrar como o nome do senhor em causa passou a ser uma designação genérica para aquelas criaturas – um substantivo.

Tem sido divertido criar isto, estão mais episódios a caminho.
"great weapon for undermining (rather than overthrowing) the state was the refusal by individuals to cooperate with it and obey its immoral demands"